“Este forte (o "Castelinho de Santa Clara") defendia um areal que servia de varadouro a barcos de pesca. Confrontava pelo N. com a rua de Santa Clara,e pelo S. L. e O., com os rochedos, e mais tarde com os aterros da via férrea das pedreiras do porto artificial.
(…) Em 1767 ainda tinha uma peça de bronze em bom
estado. Em 1817, estava completamente
arruinado e desguarnecido, tendo sido reedificado em 1820 e guarnecido com duas
bocas de fogo. Em 1846, conservava ainda duas bocas de fogo, uma de calibre 14
outra 18, sendo ambas de ferro. Esta última foi remetida, mais tarde, para a
ilha Graciosa. Em 1875, ainda existia este forte, tendo desaparecido pouco a
pouco.”
“Escrevi para Lisboa aos nossos Deputados a ver se o Governo Portuguez entrava com o Inglêz n'uma convenção por onde garantisse que os impostos applicados para a doca não serião distrahídos para outro fim (…)
Se se estabelecesse o imposto de 300rs. Sobre a caixa de
Laranja poderia estatuir-se que o que em cada anno sobejasse (…) fosse aplicado
à sustentação dos expostos o que seria de grande auxílio para as Camaras.”
Trecho de uma carta de José do Canto a José Jácome (enviada
de Londres, a 27 de Março de 1853), “Cartas Particulares...” Instituto Cultural
de Ponta Delgada, 1999
“Sendo esta ilha na noite de 4 a 5 do corrente batida pelo vento com excessivo furor, elevando-se o mar a um ponto de entumescimento, que excede a memória dos homens, passou arrojando-se com violência a acometer a linha de habitações que vestem o litoral ao sul: esta calamitosa agressão estendida por quase todo o dia, transformando muitas habitações, e alguns estabelecimentos públicos em montões de ruína (…)”
“Assim, no caso da população de Santa Clara, radicada desde o princípio ao longo da linha costeira e em permanente contacto com o marulhar das ondas, não admira a sua atracção pelo mar e a crescente actividade piscatória, como mais directa e primorial fonte de receita, sem pagar rendas nem aturar senhorios”
O Governo Interino e o liberalismo nos Açores
Por regra, em Santa Clara, eram sempre os que trabalhavam nas barcaças do Cais da Alfandega os melhores informados, até por falarem e entenderem mais de uma língua. Eles traziam notícias surpreendentes, muitas vezes tidas por boatos, mas que, quase sempre, pouco tempo depois se vinha a confirmar serem verdadeiras.
Já há anos que, os que trabalhavam nas cargas e descargas do
cais vinham falando que em França tinha havido uma grande revolução, na
sequência da qual mataram o Rei e a Rainha, cortando-lhes a cabeça com o povo a
assistir.
Agora, os mesmos, sempre depois do segundo "meizinho" de vinho de cheiro, falavam que um tal Napoleão colocara a
Europa toda em alvoroço, declarando guerra à Inglaterra e envolvendo Portugal no
conflito, razão porque a armada inglesa andava há tempos a rondar os Açores e o
Capitão General, mesmo da Terceira, tinha mandado guarnecer e melhor armar as
fortalezas.
A realidade era no entanto ainda mais assustadora.
Comandado pelo General Junot, o exército de Napoleão Bonaparte,
entretanto auto proclamado Imperador francês, tinha invadido Portugal sem que
lhes fosse oferecida grande resistência.
A Rainha de Portugal, D.Maria I e o
Príncipe Regente, futuro D. João VI, com toda a Corte, Carlota Joaquina
inclusive, preparavam-se para fugir rumo ao Brasil, não sem antes terem
feito chegar a quem por eles mandava nos Açores a notícia deste seu propósito.
Os ingleses, senhores do comércio nestas latitudes, acabaram
invadindo a Madeira e, mesmo sem os tomar, na pratica eram eles quem nos Açores ordenavam.
A laranja já estava a criar riqueza, mas esta não chega às camadas mais
baixas da população já que o dinheiro vai quase todo para a cabeça do Reino,
deixando apenas, e só, algum nos Açores. Na verdade, as ilhas adjacentes a meio caminho da américa mantinham-se como fonte de avultados
impostos, tributos que Portugal absorvia avidamente, também porque o garrote da
dívida a Inglaterra a isso obrigava.
A fome continuava a grassar e para evitar mal maiores,
perante a carência e o descontentamento popular, caridosamente, foi ordenada a
distribuição grátis de milho aos mais necessitados.
A cultura da laranja prosperava mas apresentando-se esta praticamente como
única grande fonte de receita o seu rendimento ficava nas malhas dos grandes proprietários e exportadores, pouco drenando daí para os que efectivamente se esfalfavam em tratar da terra onde as laranjeiras cresciam, das árvores de onde as laranjas eram colhidas, no construir e carregar das caixas em que os frutos, depois de embalados, eram transportadas e armazenadas até ficarem a bordo das embarcações que os haveriam de transportar até aos mercados que lhes acrescentavam valor.
Em Santa Clara, depois do “Castelinho” ter mais uma vez ficado arruinado e completamente desguarnecido durante alguns anos, e numa altura em que, dando seguimento ao que acontecera com a que durante longos anos lhe fizera companhia, a sobejante peça de bronze também dali já fora retirada, havia chegado a hora daquele reduto militar ser novamente alvo de uma enorme reparação.
De certa forma era o dinheiro dos impostos da laranja a circular, o pouco por ali aplicado, como que em directa proporção com o escasso rendimento que aquele fruto deixava aos habitantes de Santa Clara.
Não havendo quintas de citrinos por aqueles lados, o reduzido dinheiro que chegava ao bolso dos santaclarenses proveniente daquela cultura beneficiava sobretudo os poucos pedreiros que, além de outras obras, mesmo
tendo de fazer muitas léguas a pé, iam para a zona do Livramento ajudar a
construir os altos muros de pedra solta que protegiam do vento as delicadas
laranjeiras.
Claro que, embora não de forma tão regular como os pedreiros e
construtores de muros, também os barqueiros, remadores, carregadores e mestres
de embarcação oriundos de Santa Clara, viam o seu rendimento alargado por altura
do embarque da fruta, tal era o vaivém de barcaças entre o cais e os navios
que as levariam para os portos do Norte da Europa ou até para os da América.
Mas esta actividade apenas durava três ou quatro meses, e
acontecia em pleno Inverno, sendo assim um trabalho que só era conseguido com
muito, muito, esforço e os exponha a grande risco.
De facto, na época de
embarque das laranjas não faltava trabalho no cais pois, se em média eram carregadas 50.000 ou 60.000 caixas
de fruta por ano, nos melhores anos este número podia chegar aos 80.000.
Por esta altura, a falta de um bom porto era a reclamação que mais se fazia ouvir por todos e, embora havendo quem defendesse construí-lo em Vila Franca, por ser mais barata a sua execução já que a protecção perante as intempéries ali seria natural, e outros ainda, sustentados em documentos muito debatidos, indicassem ser o lugar do Rosto de Cão o ideal para concretizar a obra, seria a construção de um porto artificial em Ponta Delgada, paredes meias com Santa Clara, a solução que vingaria.
…
Ainda estavam vivos alguns dos que tinham trazido as
primeiras notícias da Revolução Francesa para Santa Clara quando, outros, agora
no viço da idade, espalhavam a última nova: estar em curso em Portugal uma
revolução para dar o mando ao Povo.
Os mais inflamados com a ideia acrescentavam ser mentira que
o poder, ao contrário do que se dizia na Igreja e era repetido pelos mais
devotos, tinha sido entregue directamente por Deus aos Reis. E, acrescentavam estes contestatários completando a exposição do ideal que defendiam, a verdade é:
– O poder vem dos vassalos, cuja
lealdade lhes é paga com o dinheiro dos nossos impostos. É assim que eles, vassalos,
o Rei e os seus mandatários, conseguem subjugar o Povo.
A divulgação destas novas ideias correu qual rastilho,
logo iniciando acirrada disputa entre os partidários de um e do outro lado. Até
no seio das famílias se confrontavam os defensores das ideias ditas liberais,
com as dos que, mantendo-se fieis ao poder absolutista do Rei, entendiam que
contrariá-lo era também desagradar a Deus.
Não eram muitos os defensores das novas ideias, mas eram
determinados e dispostos a tudo para as fazer vingar, e vingaram!
Em Ponta Delgada, sem grande violência, não causando mortes
e quase sem dispararem um tiro, no primeiro dia de Março de 1821 alguns jovens
oficiais, entre eles o Tenente João Soares de Albergaria, mobilizando um grupo
de soldados do Castelo de São Brás e o povo que a eles se juntou, prenderam o
Governador da ilha, submisso que este estava ao poder instalado na Terceira sob
tutela de Francisco Stockler, recém chegado do Brasil.
Recolhendo rapidamente o
apoio de todas as Câmaras da ilha, foi então constituído o Governo Interino de
São Miguel, que entrou imediatamente em funções.
A situação, porém, não se manteria assim por muito tempo.
Os
dez anos seguintes foram de muitas lutas, com os partidários de D. Miguel a
reconquistarem praticamente todo o arquipélago, sendo desta vez a Terceira, com
o significativo apoio da meia centena de deportados que em Portugal tinham
defendido as ideias liberais na segunda década de oitocentos e por tal haviam sidos enviados para reclusão no Castelo de São João Batista, a manter-se como bastião do liberalismo nos Açores e ponto de partida para a reconquista, pelos partidários de D. Pedro, de todo o arquipélago.
A Batalha da Praia, que depois iria acrescentar àquela vila o
nome de Vitória; Praia da Vitória, como se passou a chamar, foi de grande
importância para o triunfo dos liberais nos Açores e, partindo dos Açores, também para a vitória que os defensores e portadores das novas ideias obtiveram em
Portugal.
Em Agosto de 1831, conquistado que estava São Miguel para a
causa liberal, D. Pedro IV foi recebido em apoteose em Ponta Delgada, visitando
a partir de São Miguel várias ilhas, recrutando voluntários para o exército
que, por si comandado, iria colocar um, quase, ponto final ao absolutismo
em Portugal.
Reunindo as suas tropas em São Miguel, exactamente quatro
meses depois de ter chegado à ilha, a 23 de Junho de 1832, no Relvão, foi celebrada
a missa que precedeu a saída dos “Bravos do Mindelo” a caminho de Portugal em conquista da causa liberal.
Muitos dos açorianos que integraram esta épica epopeia nunca
mais regressaram e, dos que conseguiram fazê-lo, pouco ou nada deles se sabe,
abandonados que foram, esquecidos que estão!
De Santa Clara uns quantos integraram o exército de D. Pedro, reduzindo ainda mais o numero de habitantes de um lugar que já sumia população ia para dois séculos. Perdia população e com esta, fundamentalmente apoiantes da causa liberal, que tanta falta iriam fazer nos anos seguintes para suster as investidas absolutistas, como o foi no caso da “Revolta dos Calcetas” que teve as ruas de Santa Clara como campo de batalha, com muitos santaclarenses integrando o “exército popular” que ajudou a barricar os revoltosos e assim conter mais aquela tentativa de repor o poder absolutista.
É que, se no computo geral os apologistas das ideias
liberais pareciam minoritários, era junto das comunidades mais humildes que
eles se encontravam em maior número.
No início de Dezembro de 1839 a fúria de Neptuno voltou a
assolar Ponta Delgada.
“Grande e medonha enchente de mar”, escreveram na altura os
jornais sobre o terrível fenómeno, um assombro que de novo fustigou com rudeza
Santa Clara, originando uma lista de vítimas que ultrapassou mais de uma centena
de infelizes.
Vitima também voltou a ser o “Castelinho de Santa Clara”, mais uma
vez inundado, água que cobriu as duas peças de ferro que o equipavam na altura,
uma de calibre catorze e outra de calibre dezoito, ambas já substituindo as originais peças
de bronze que, uma a uma, tinham dali desaparecido.
Em Santa Clara, amiúde, voltaram a acontecer as romagens ao adro da ermida. Estas tinham sempre um enorme incremento perante uma situação difícil. Porém a porta do templo mantinha-se fechada.
Tinham passado cerca de trezentos e vinte anos desde que
aquele templo fora erguido e mais de duzentos e cinquenta sobre o ano em que a
freguesia havia sido acrescentada e a ermida deixara de ser sede de paróquia. Mas, mais uma vez, perante uma catástrofe, os habitantes de Santa Clara
procuraram a sua Santa padroeira suplicando-lhe protecção, porém do lado de fora da
porta da ermida. Tal como, e também mais uma vez, perguntavam uns aos outros em
como fazer para pagar as promessas em azeite com que se comprometiam perante a
Santa.
Um dos presentes, despachado, logo encontrou uma solução
expedita, anunciando-a em voz bem alta:
– Deixem as vasilhas aqui à porta, depois Santa Clara saberá
o que fazer com elas!
E será que a Santa sabia?
O que se verificava é que no dia seguinte àquele em
que alguém colocava no degrau da porta de entrada da ermida o azeite, este desaparecia.
A ser a
Santa que indicara quem lá o devia ir buscar, era desejo geral que quem lá tinha ido e o levou para casa fosse mais necessitado do que o pagador da promessa.
Fora a “Guerra das Laranjas”, o curto conflito que logo no
primeiro ano do século opôs Portugal à Espanha e à França, originando a questão
de Olivença e alterando as fronteiras do Rio Grande do Sul, no Brasil, o que
iniciara a série de vicissitudes que condicionaram Portugal e os Açores ao
longo das primeiras décadas do século XIX. Mas foram também as laranjas, agora
os frutos, o que nos Açores veio ajudar a minimizar os efeitos de tão difícil
período.
Só em 1820, ano da chegada aos Açores, vindo do Brasil, do
interesseiro “vira casacas” Francisco Stocker que tantos problemas haveria de causar, e apenas para referir as
originárias dos portos de Inglaterra, escalaram Ponta Delgada oitenta e seis
embarcações, das quais sessenta e uma vindas directamente de Londres.
Para além destas, muitos outros barcos fundearam naquele ano em frente à
cidade, demonstrando que cada vez mais a necessidade de construção de um porto
artificial em Ponta Delgada era de primeira grandeza.
Estabilizada a situação política em prol dos liberais,
poucos anos tinham ainda passado após a última grande investida miguelista em São Miguel apareceu o primeiro
grande projecto para construção de um porto, era seu autor o conceituado
engenheiro hidráulico inglês, John Rennie.
Como que adivinhando o que aconteceria no ano seguinte, o
projecto fora efectuado a partir de um estudo preliminar que um colaborador do
notável engenheiro, John Tucker, havia executado durante a sua visita a São
Miguel no ano que precedera o então mais recente ataque de fúria de Neptuno, ou
Poseidon, dependendo da crença de cada um.
Depois, e também para reparar os danos provocados no molhe
que protegia o Areal de São Francisco, apareceram outras sugestões e projectos. Mas teriam de passar quinze anos para ser dirigida a John Tucker a proposta que o levou à elaboração de um novo projecto em substituição do que inicialmente
apresentara, e ainda outros sete para, em Agosto de 1860, finalmente, ser
aprovada a Lei que permitiu dar início à construção do porto.
Pouco tempo depois chegava a Ponta Delgada John Rennie com a finalidade de
inaugurar o início das obras e dirigi-las, não sem antes ter procedido às
alterações ao projecto, deixando-o com as características que ainda hoje o definem assim como a sua área circundante e de implantação.
A 30 de Setembro de 1861 o Açoriano Oriental dedicava a
primeira página ao assentar da primeira pedra do porto artificial de Ponta
Delgada!
A notícia do início da construção do porto, de tão desejada
que era, gerou um enorme e geral clima de entusiasmo.
Em Santa Clara o regozijo ainda foi maior, dado serem muitos
os seus habitantes cujo trabalho dependia daquela estrutura, que, depois de
construída, tornaria mais seguro e perene o seu “ganha pão”.
Porém, longe
estavam estes trabalhadores, as suas famílias e vizinhos, de fazerem uma real
ideia do quanto a construção do porto alteraria Santa Clara, bem como a vida
dos seus habitantes.
Foi imensa a transformação social que aquela, para a época majestosa infraestrutura, veio trazer a Santa Clara. Grande dada a
proximidade, quase uma extensão, da obra à localidade, enorme porque seria em Santa Clara onde foi
encontrada a pedreira adequada para obter os materiais necessários para tão
importante obra, pedra e outros inertes, imprescindíveis para aquela colossal empreitada.
Não tardou nada para Santa Clara acolher os muitos pedreiros
e cabouqueiros que, vindos de diversas localidades da ilha, nas “pedreiras da
doca” foram encontrar o sustento para si e suas famílias, o que aumentou muito
o número dos santaclarenses.
Foram rasgadas ainda outras ruas, nas quais, tal como nas já
existentes, se construíam muitos novos fogos, ganhando Santa Clara uma diferente valia, já que passava de subúrbio particularmente piscatório a, também, importante bairro
operário.
Tinham passado cento e quarenta e sete anos desde a crise sísmica de 1713; cento e cinco anos sobre o maremoto provocado pelo terramoto que em 1755 destruiu Lisboa e vinte e um anos desde a “grande e medonha enchente de mar” de 1839 inundara Ponta Delgada, de Santa Clara ao Poço Velho em São Roque, onde residia uma das vitimas mortais da calamidade. No entanto a humilde e original Ermida de Santa Clara continuava em nítido declínio.
Quase cento e cinquenta anos após o curato de Santa Clara
ter sido eclesiasticamente constituído, com a Nova Igreja, aquela que
provocara a mudança de nome da freguesia e a criação do curato já profanada e
destruída, inclusive existindo no local onde ela fora edificada um teatro que
já funcionava há dez anos, foi finalmente publicada a oficialização
governamental do curato de Santa Clara, decorria o ano de 1874.
Por esta altura a original ermida beneficiou de um
importante melhoramento, tendo sido ampliada para o tamanho que o seu corpo
principal mantém.
Se não há dúvidas que o benemérito de tão
importante melhoramento foi o Barão da Fonte Bela, Jacinto da Silveira Gago da
Câmara, certezas já não existem se o projecto então levado a cabo foi o
apresentado por Mr. Reinhard, distinto pintor e marido da cantora lírica Elizia
Rozenthal, atraída a São Miguel pela exuberância dos elencos do então Teatro
Micaelense, que desde que Angelo
Frondoni regera o primeiro espetáculo ali exibido até que Luísa Rivera desse a
volta à cabeça, e às algibeiras, da mais distinta sociedade micaelense, era palco
e local de frequência de quem em Ponta Delgada procurava replicar o que na
Europa civilizada acontecia.
Para muito dava o dinheiro que então, ainda, a
laranja rendia, tal como para muito deu o espaço onde antes fora a Nova Igreja, depois profanada e transformada num enorme armazém de caixas de
laranja prontas a embarcar e, a partir de meados da década de sessenta do
século XIX, demolida para dar lugar ao sumptuoso templo dedicado Dionísio, erguido onde antes existira um inicialmente destinado a Santa Clara mas que acabou sendo consagrado a São José.
Um enorme sinal dos tempos, já que se estava a adorar o caótico e perigoso Deus da insânia e das festas sobre o mesmo solo onde antes se pretendia prestar culto à piedosa fundadora da congregação das "Damas Pobres" e se acabou venerando o não menos humilde padroeiro dos operários.
Passados quase três séculos, já ninguém se lembrava do vaticínio do estranho profeta que, sem ninguém saber bem como, fora parar ao "lugar da ponta delgada", presságio repetidamente proferido quando se começou a falar sobre a construção da Nova Igreja, mas, houvesse então um dramaturgo com tal conhecimento e capacidade de encenação, não deixaria de ser um êxito de bilheteira para o Teatro Micaelense levar à cena algo como por exemplo um: "Acto do Feiticeiro", drama que partindo da recorrente premonição do adivinho: "Vamos todos morrer antes deste templo se erguer e quando estiver de pé não durará muito tempo até que o fogo lhe abrase", colocasse em cena a triste história da "Nova Igreja de Santa Clara".
E, a dramática apoteose, o incêndio pré anunciado em: "... até que o fogo lhe abrase", ainda estava para na realidade se concretizar!
No ano seguinte à publicação oficial, pelo governo dirigido pelo então primeiro ministro Fontes Pereira de Melo, do documento que instituía governamentalmente o Curato de Santa Clara, era aquele o ano da graça de 1875, em procissão solene realizada a 29 de Agosto, saía já da actual “Igreja de São José” no antigo Convento dos Franciscanos para a Ermida de Santa Clara a nova imagem de Santa Clara, sendo necessário ainda esperar mais duas dezenas de anos para que o Santíssimo Sacramento fosse também transferido de São José para Santa Clara.
Após mais de um século em que a ermida esteve a decair dia a
dia, e de porta fechada a maioria deste tempo, fica por saber onde está, e ou
para onde foi, a pequena, mas original, valiosa e histórica imagem de Santa
Clara, desde o primeiro quartel 1500 venerada naquele pequeno e humilde templo.
…
Os tempos começavam a ser outros, mudando tão rapidamente
que entretanto tinha vindo à luz do dia o primeiro padre nado e criado em Santa
Clara.
Já filho de uma das muitas famílias que tinham procurado
Santa Clara como lugar de habitação por causas profissionais, em 1883, no canto
em baixo do Foral de João do Rego, nascera o Padre Leite, assim depois conhecido em
Santa Clara onde paroquiou, mas de seu nome completo: António Pacheco Leite, filho do casal
Manuel Pacheco Leite e Maria da Silva Leite, vindos de uma das mais longínquas
extremas da ilha, dos Fenais da Ajuda, sendo a sua mãe doméstica e o pai um
mergulhador com escafandro, contratado exactamente para ajudar na construção do
porto.
A exploração das “Pedreiras da Doca”, de onde até final de
Novembro de 1886 já haviam saído 3,407,037 das cerca de 5.000.000 toneladas de
pedra previstas serem necessárias para o porto, transformou radicalmente Santa
Clara: física, orográfica e socialmente.
Os habitantes da localidade assistiam a um movimento como
nunca até ali fora visto. Os mais velhos residentes do lugar, tão curiosos quanto
incrédulos, presenciavam com pasmo um rebuliço a que não estavam habituados,
nem nunca pensaram observar.
O antigo e frondoso bosque de faias e loureiros contiguo ao
casario original, em cujas clareiras os locais se juntavam no segundo Domingo
de Agosto, e onde Serafim, o primeiro, “Peixinho Voador” de alcunha já herdada
do pai, a todos deliciava com os seus contos, estava a ser esventrado para dele
serem retiradas as muitas e enormes pedras utilizadas para construir o
porto.
A “beira da rocha” já não era o que fora.
O original “Calhau da Areia”, recortado a Poente, quase até
meio caminho da ermida, delimitado pelo “Cunhal da Maré” e pela língua de
basalto que servia de alicerce ao “Castelinho”, estava agora a desaparecer,
soterrado pelo entulho que não servindo para o porto era ali usado para
conquistar espaço ao mar.
A própria enseada entre a Ponta Delgada e a Ponta das
Entradas, onde desembocavam os algares, estava a ser encurtada de Norte para
Sul, já não apresentando a ampla cavidade que até ali a caracterizara.
Até o
“Castelinho”, de seu verdadeiro nome Forte da Salvação de Santa Clara, que
depois de em tempos ter sido alvo de uma grande reparação se apresentava então em
satisfatório estado de conservação, necessitava ele próprio de ser salvo de
afogamento, agora não de água, mas sim dos entulhos que já quase chegavam à
linha exterior das sua canhoreiras, enterrando mais de dois terços das suas muralhas.
De novo era muito o falatório com opiniões divididas e
extremadas, fazendo-se ouvir alto e com paixão:
– É necessário, tem de ser, é o progresso – diziam uns, em
geral os mais novos e sobretudo aqueles que ganhavam com a situação.
– É mas é o fim do mundo! Uma desgraça! Estão mas é
destruindo isso tudo! O mar é o nosso ganha pão e o “Calhau da Areia” o nosso
porto de abrigo! Uma desgraça, mas é! – diziam outros, os mais velhos,
desgostosos e já antecipadamente nostálgicos do que iria acontecer, adivinhando
como seria completamente alterando aquilo que se habituaram a ver e a
vivenciar.
E, o progresso chegou mesmo, e em força, trazendo até uma
locomotiva a vapor, precioso auxiliar para o transporte de tão significativa
quantidade de materiais para a construção do porto e outras importantes obras
que no futuro iriam acontecer.
Santa Clara passou a ser a primeira localidade dos Açores
atravessada por um “caminho de ferro”, onde até nem faltava uma passagem de
nível com guarda. Chamaram-lhe: “Cancelas
da Doca”.
O “caminho de ferro”, também com o progresso – aquele progresso que
acrescenta sempre progresso ao progresso até o estragar –, acabou por desaparecer, mas o nome dado
àquele ponto de controlo viário permaneceu. Ainda hoje, em Santa Clara, se sabe
bem onde foram as “Cancelas da Doca”, local em que se continuam a juntar alguns
dos habitantes locais em amena ou apaixonada cavaqueira, dependendo do que
pretendem e do assunto que está na ordem do dia.
Na transição do séc. XIX para o séc. XX, já com o porto em
funcionamento, Santa Clara continuava a patentear um grande crescimento,
acentuando ainda mais a particularidade que já tinha de arrabalde proletário,
por se fixarem nela algumas das mais importantes unidades industriais de Ponta
Delgada.
Embora em 1873 a Capitania do Porto ainda mantivesse registo
de cento e vinte e cinco pescadores e trinta e uma embarcações de pesca
oriundas de Santa Clara, é por esta altura que o histórico e humilde bairro
piscatório começa a transformar-se em bairro operário.
Se antes tinham chegado os muitos operários braçais:
pedreiros, cabouqueiros além de outros, depois do porto iniciar a sua
actividade chegaram também muitos mais operários, agora com diversas
especializações: carpinteiros, ferreiros, mecânicos, serralheiros, maquinistas e outros.
A proximidade do porto atraiu para Santa Clara uma série
de importantes industrias e com elas, então, ainda outro tipo de operários, os
industriais: foi a Fábrica de Tabaco Micaelense, constituída em 1866,
ainda a obra do porto dava os primeiros passos, e depois, em 1872,
transferida quase do centro de Ponta Delgada para onde hoje ainda se encontra, na antiga Rua de Santa Catarina de Baixo; foi a Fábrica do Álcool (depois do
Açúcar), em 1884; foi a Fábrica de Tabaco Estrela, em 1886 e ainda no mesmo ano,
após demorar três anos a ser construído, foi também o Matadouro Municipal, que ficou mesmo
em frente aos moinhos de Santa Clara, engenhos movidos a vento estes que, durante muito tempo, foram a única industria
existente no povoado já que a secagem de bacalhau, também por ali feita na proximidade dos moinhos, embora proporcionasse trabalho a muita gente, sobretudo a
mulheres, além de sazonal foi esporádica.
Com este incremento de população e actividade económica,
apareceram também em grande número os primeiros pequenos comerciantes locais, com as suas
“lojas”, um misto de taberna e mercearia, tornando-se o centro nevrálgico da
vida social da localidade, onde não faltavam acesas discussões políticas.
Já há muito que os espíritos mais liberais defendiam o fim
da Monarquia por troca da implantação de uma República.
A dinâmica política que levaria à implantação da República
encontrou em Santa Clara terreno fértil, dada ser a maioria da sua população
constituída por operários, um campo vasto e produtivo para disputas políticas
entre os velhos republicanos, muitos deles anarco-sindicalistas e os defensores
da monarquia.
– Abaixo o Rei que com a sua vaidade e as festanças em que
vive só aumenta as dívidas e estas fazem aumentar o nosso custo de vida –
atreviam-se a gritar os mais exaltados, sobretudo quando bem incensados com os
vapores de Baco.
– Cala a boca que isso já é o vinho a falar por ti. Olha que
vais para o olho da rua! – ordenava o dono da loja, sem ir muito além disso,
para não perder um bom cliente mas também porque, no fundo, lhe reconhecia
alguma razão.
Era agora este o novo motivo de conversas e discussão entre
duas diferentes trincheiras, disputas que seccionavam as pessoas por “lojas”,
conforme fossem apoiantes de um lado ou de outro lado.
A brusca e quase que compelida alteração social havida em
Santa Clara, para mais, condimentada pelos irrequietos ventos políticos da
época, só reforçou, ainda mais, a bem vincada identidade das suas gentes, desde
sempre muito notada e ainda hoje bem presente.
…
A última década do século XIX correu ao sabor dos
conturbados ventos que então sopravam.
Foi assim em Santa Clara com os
conservadores monárquicos e os republicanos progressistas com forte apoio dos
anarco-sindicalistas a acirrarem as discussões, que já dividiam os próprios
núcleos familiares.
Mas também assim era em São Miguel e de uma maneira geral
em quase todos os Açores, já que era de efeito praticamente geral a “ventania”
que então se fazia sentir atingindo a economia do arquipélago e garrotando a
população, tal era o confisco fiscal que Portugal impunha aos Açores.
A laranja, já em franca decadência, tinha sido substituída
por outras culturas, uma delas, a da batata doce para obtenção de ramas para a
produção de álcool, era tal a sua importância que já eram três o número de
fábricas de álcool nos Açores, já se pensando em outra, que acrescendo às existentes em São Miguel e na Terceira, deveria ser levada a cabo no Faial.
A mais recente destas fábricas era a de Santa Clara, que
iniciara o seu funcionamento ainda não havia meia dúzia de anos e, diziam os
melhor informados, o Governo de Portugal, para agradar aos alemães, estava a
pensar acabar com ela e com a indústria do álcool nos Açores.
Os jornais fartavam-se de escrever contra a desejada introdução do monopólio do álcool, dizendo que
os accionistas, pequenos e grandes, estavam em pânico. E estavam, tal como
estavam praticamente condenados à fome os trabalhadores fabris e os que
cultivavam a batata doce nos campos, mas destes pouco ou nada se falava.
As “lojas” de Santa Clara eram a excepção, e sobre este
assunto nem havia opiniões divergentes!
– Uma fábrica nova,
do melhor que há, que tarelo há em acabar com ela – era o que mais se ouvia,
mesmo da boca dos mais desinformados e bastante inflamados pelo vinho.
– Têm razão. O álcool dos Açores serve para manter a
agricultura e para pagar a quem trabalha … – dizia desta vez, serena e
calmamente o dono da “loja”, repetindo parcialmente algo que lera por aqueles
dias nos jornais.
– Monopólios e ditaduras são um trato com o Diabo que nem Deus
nos livra dele – ouviu-se vindo do canto lá do fundo do balcão, também dito em
voz serena mas firme.
– Olhem quem está a falar, e desta vez acertado, julgava que
aquela alma só sabia falar do sindicato e nem conseguia dizer a palavra Deus… –
atalhou em tom de graça outro dos entusiastas discípulos de Baco, levando a uma
gargalhada quase geral, pois só o sisudo sindicalista se manteve sério e com
cara de poucos amigos.
…
Na verdade, o álcool produzido nos Açores era sobretudo
exportado para Portugal como elemento de correcção do grau alcoólico de vinho,
em especial do do Porto.
Outros produtores de álcool, nomeadamente da Alemanha,
colocaram os seus lobbies a funcionar tentando impor um monopólio que limitava
os níveis de produção e, no limite, expropriaria as fábricas de álcool dos Açores. Na altura não foram tão longe, mas a constante alteração do
regime fiscal que regulava o álcool açoriano agravava sobremaneira os impostos
que incidiam sobre aquele produto.
Como se já não bastassem as tentativas de acabar com moeda
própria dos Açores e a tentativa de extinção do Tribunal da Relação dos Açores, que tinha
sede em Ponta Delgada, o garrote agora insidia sobre a industria do álcool. Porém, se quanto à moeda própria houve um recuo – Salazar, mais tarde, encarregar-se-ia
disso – tal como, apesar do assunto não mobilizar todos os açorianos, ter também havido um retrocesso, por pouco tempo, quanto ao Tribunal da Relação, já a questão do
álcool a todos lesava e quase todos mobilizava,
A questão do monopólio do álcool sensibilizou a generalidade dos
açorianos, mesmo os que viviam nas ilhas mais afastadas e por regra menos
impelidas para a discussão e solução de problemas que não lhes dissessem
directamente respeito.
A atitude dos próprios micaelenses e terceirenses, saindo do
seu habitual registo de moleza e passividade, como que aquebrantados, estava a
causar estranheza na capital do Reino, onde os jornais, até muito recentemente,
pretendendo troçar dos açorianos, tratando-os com desdém, mais não faziam que
mostrar a sua atrevida e costumeira ignorância, já que cometiam erros crassos
quase a cada linha que escreviam sobre os Açores. Era tal o desconhecimento que
a própria Sociedade de Geografia remeteu correspondência localizando Angra do
Heroísmo em Ponta Delgada.
Co m tempo, chegaram por fim a Lisboa as duras criticas que os jornais
dos Açores já há muito faziam.
Um comício efectuado no Teatro Micaelense,
aquele construído sobre as ruínas da nova Igreja prometida a Santa Clara mas que
depois de pronta passou a ser de São José, amplificara enormemente o clima de contestação, elevando-o já quase ao nível de
levantamento geral. Até os principais partidos, esquecendo o que os dividia,
cerraram fileiras em prol da LIVRE ADMINISTRAÇÃO DOS AÇORES PELOS AÇORIANOS.
Apelava-se à criação da Liga Açoriana, de um Partido
Autonomista e a Comissão de Propaganda da Autonomia, integrando republicanos,
progressistas e regeneradores liderou o processo.
Aristides Moreira da Mota já abrira caminho, mas então, com a pretendida
eleição de Jácome Correia, Caetano de Andrade,
Francisco Athaíde e Mont’Alverne de Serqueira, cresciam as esperanças numa
solução a contendo dos açorianos. Claro que todos contavam com a colaboração de
Hintze Ribeiro, prestigiado açoriano em grande destaque na política portuguesa.
Já se acenava com a independência quando, para aplacar os
ânimos, a 2 de Março de 1895, chegou a Ponta delgada o célebre "Decreto Autonómico", que adoptou como nome aquela data.
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Em Santa Clara a discussão era mais terra a terra.
A emigração voltava a ser uma saída desejada e muito
debatida. Mas era a questão do álcool e o desemprego que ameaçava os
trabalhadores, fabris e rurais, aquilo que continuava a inflamar as
conversas nas “lojas”, agora mais frequentadas que o adro da renovada ermida em
ocasião de fazer preces.
Do original mato de faias e loureiros só sobrara uma tira, a
Nascente. Esventrado, quase todo ele estava transformado numas
barrocas, agora conhecidas como “Pedreiras da Doca”.
Habitual começava a ser, sobretudo aos Sábados, ver uns meninos
da cidade que, autorizados pelos seus familiares e amigos, gente importante,
que até mandavam nas obras do porto, irem para ali praticar um novo jogo, o
“foot-ball”. Faziam-no bem equipados e calçados, usando uma bola como
nunca ninguém até ali vira igual.
O Engenheiro Kopke autorizara, estava autorizado. O
severo vigia, encarregado de zelar por aquele espaço, nada mais tinha a, ou podia, fazer.
Aliás, com a continuação, pois aqueles jogos mantiveram-se nos anos seguintes,
até faria: chamar amigos e família para assistirem aos mesmos.
Já praticamente no fim o século, em Maio de 1898, foi
transladado da “Igreja de São José” para a nova Ermida de Santa Clara o
Santíssimo Sacramento.
Assistindo à cerimónia, de joelhos no chão e cabeça coberta
por uma mantilha preta, interrompendo a reza calada duas vizinhas já entradas na idade cochichavam:
– Maria, será agora
que vai haver missa aqui todos os Domingos?
– Sagrada – replicou
a outra – a imagem já para cá veio há vinte anos, se houver que esperar o mesmo
tempo, com certeza não será já para a vida da gente…
E não é que tinha razão?
Só na segunda década do século XX
Santa Clara teria direito a um cura adstrito.
Mais ano menos ano também teria oportunidade de ver futebol com regularidade nas “pedreiras da doca”.
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