domingo, janeiro 17, 2021

Séc. XVIII - Por fim a Igreja nova e com ela o regredir de Freguesia a Curato

 




“Decorreram os quatro anos pré-estabelecidos sobre a mudança da pia batismal de Santa Clara, para o Convento dos Franciscanos, sem que a construção da nova Igreja tivesse o desejado andamento.

Só por provisão régia, datada de 18 de Setembro de 1584, a petição do Padre Francisco Fernandes, vigário de Santa Clara, com informação de D. Manuel Gouveia, eleito Bispo de Angra Filipe II de Espanha e I de Portugal ordenou a construção da capela-mor, mandando meter a obra em pregão (...)”
 

 Ferreira, Manuel, “As voltas que Santa Clara deu”; pág. 45



“Ponta Delgada disponha então de belos e vários espaços vagos. Foi escolhido, quase em campo aberto e próximo do canto da Rua da Cruz, um excelente lugar para a construção do novo templo, mas, desde o início, a obra parece que nasceu enguiçada, levando décadas e décadas num confrangedor impasse!”

Ferreira, Manuel, “As voltas que Santa Clara deu”; págs. 47 e 48. 


“Quando os sinos começaram a repicar alegremente, na sua azáfama diária, o o órgão recém colocado ressoou pelo templo, nos seus primeiros acordes, de certo, não ressuscitou nenhum dos paroquianos de Santa Clara, fintados em 1595 e passados mais de cento e cinquenta anos...”

Ferreira, Manuel, “As voltas que Santa Clara deu”; págs. 73 e 74.





 Século XVIII

 

 

 A malfadada Nova Igreja

 

 



Prometida desde que em 1581 o acrescento da freguesia de Santa Clara se fizera, a mal-aventurada nova Igreja de Santa Clara no início de 1700 continuava a ser uma jura por cumprir na sua plenitude, muito embora, entre 1674 e 1705, com apenas uma capela e a sacristia construídas, de forma  provisória,  umas vezes em simultâneo, outras em substituição da Ermida de São Mateus, para onde ainda regressaria novamente, na Nova Igreja, mesmo em precárias condições, ao longo de mais cinco lustros se ouviu missa.


Entre os habitantes da freguesia de Santa Clara, quando mais de um século já tinha passado, geração após geração, fora transmitida a informação, originada no seu muito querido e bem informado primeiro pároco, o Bacharel Ascênsio Gonçalves, dizia-se, que a nova Igreja não ficaria próxima da ermida ou mesmo da zona original do povoado. Isso, recordavam os mais antigos, fora dito pelo Padre Ascênsio logo que o acrescento da freguesia aconteceu e a promessa da Nova Igreja foi anunciada. Aliás, sábio e homem que dava grande atenção aos detalhes, com isso muito ajudando a que a população nele confiasse em pleno, o então pároco cedo dissera que a igreja a construir seria o mais perto possível do centro da cidade, para lá da Rua da Cruz, pois só assim fazia sentido que o acrescento da freguesia, inicialmente dito para acontecer até àquela rua, posteriormente fosse anunciado mais para Nascente, chegando à Trindade, no enfiamento do Paço dos Condes da Ribeira Grande.

Já naquela altura, apesar de informados e preparados para a mudança, nas conversas dos habitantes da recém criada freguesia a localização da Nova Igreja passou a ser assunto de acesa discussão, dividindo uns e outros. 
A maioria estava contra, mas a alguns, aos mais empertigados, até parecia boa ideia:  “Estariam mais próximos do Senhores da cidade, nem que fosse só ao Domingo”, diziam …!
Dos que se opunham com grande veemência à deslocalização do templo da zona litoral de Santa Clara para perto do centro da cidade, destacava-se um ermita, misto de feiticeiro e adivinho, que por ali se tinha fixado sem ninguém saber bem de onde provinha, embora pelas vestes e trejeitos se assegurasse ser sobrevivente do naufrágio de um barco de piratas do Norte de África.
O “profeta”  assim o apelidavam aqueles que recorriam aos seus serviços  todas as vezes que lhe perguntavam pela nova Igreja dizia invariavelmente: 
 – “Vamos todos morrer antes deste templo se erguer e quando estiver de pé não durará muito tempo até que o fogo lhe abrase”.


No caso da nova Igreja a “profecia” foi uma certeza. Tal como o exótico vidente vaticinou, tanto ele como nenhum dos seus crentes estava vivo quando a nova Igreja se abriu para as funções a que estava destinada, já que entre 1674 e 1705, 1714 ou 1730, consoante a data que se queira considerar como a certa para o uso inicial daquele templo, passaram respectivamente noventa e três, cento e trinta e três ou cento e quarenta e nove anos anos. 
E se, quanto ao tempo que demoraria a construção da Nova Igreja a “profecia” foi acertada, certa também foi ela quanto ao anormal pouco tempo a que a igreja como tal funcionou.
Já no que ao fogo que a abrasou possa dizer respeito, incêndio que também se confirmou, este ocorreu no mesmo local mas já depois de profanada e demolida a igreja, só restando saber se, no juízo do estranho benzedeiro, templo e teatro seriam sinónimos!
Razão também tinham os contemporâneos e fieis seguidores do bruxo – “Maldito profeta, vira esta boca para lá…” –,  diziam-lhe sempre que as adivinhações eram desagradáveis de ouvir.
Mas que ele acertava muitas vezes, disso ninguém duvidava!

 

Confirmado ficou que, quando se iniciou o século XVIII, ia já para cento e vinte anos desde que a sede da paróquia de Santa Clara saíra do pequeno templo onde a freguesia fora instituída, andando num autêntico curropio, mudando-se de templo para templo vezes sem conta: da histórica ermida para o Convento de S. Francisco, deste para a Ermida do Corpo Santo, desta para a Ermida das Chagas, passando depois das Chagas para São Mateus, indo daí, embora provisoriamente, para a incompleta Nova Igreja, regressando ainda mais uma vez a São Mateus já a meio da primeira década do século, cabendo depois ao Padre Cristóvão Soares de Melo fazer a derradeira passagem da paroquial de São Mateus para a Nova Igreja, onde se manteria ao longo de todo o século das luzes.

 

Os tempos continuavam difíceis. Ainda não se encontrara compensação para a enorme perda que fora o facto das frotas da Índia terem deixado de parar nos Açores, privando-os da riqueza que estas escalas sempre proporcionavam. Tampouco a população se tinha recomposto, completamente, da horrenda epidemia que fustigara os Açores, São Miguel e Ponta Delgada em especial.
Como se tal já não bastasse, seguiu-se-lhe a saída em massa de açorianos para ocuparem diversas partes do Império, com tudo isso provocando enorme carestia de alimentos e muita fome, que grassava, pois a falta de trigo em Portugal continuou a obrigar a grandes restrições ao consumo e comércio do que era produzido nos Açores.
Valeu aos açorianos o milho!

 

Foi com este panorama como pano de fundo que, por fim, embora ainda em construção, pois só a capela e a sacristia podiam ser usadas, a nova Igreja de Santa Clara iniciou a função para que estava destinada. Mas foi sol de pouca dura, pois por volta de 1705, por motivos de segurança, a paroquial de Santa Clara teve de regressar novamente a São Mateus.
Enquanto tal, praticamente abandonada, a histórica ermida decaída de dia para dia.

Para tornar estes tempos mais difíceis a crise sísmica de 1713, com grande incidência na zona Poente da ilha, veio agravar mais ainda o que já de si era pungente. Em Santa Clara, onde os abalos de terra foram sentidos com grande violência, mesmo com a porta fechada, de dia e de noite, o minúsculo adro da ermida era local de peregrinação, com os devotos da Santa em busca de protecção e de dádivas acrescidas, prometendo pagar o rogado em azeite, que seria usado na candeia do Santíssimo logo que a ermida reabrisse.
A oração à Santa que o velho Franciscano criara e que Serafim popularizara não fora esquecida, ouvindo-se em coro, mais chorado que rezado, agora numa noutra variante: 

 – Santa Clara querida, Santa milagreira, nossa protectora nossa padroeira … muito, muito obrigado por todas as graças que nos tens concedido mas agora, Santa Clara querida, protege estes teus filhos desta medonha aflição… .
E a crise logo amainou sem fazer grandes estragos!

No ano seguinte, 1714, por fim, embora ainda em acabamento, já que só em 1730 o templo foi dado por concluído, a Nova Igreja começou a servir.
Não seria  definitivamente, pois como antecipara o adivinho com cento e cinquenta anos de antecedência, o malfadado templo teve menos tempo de uso do que aquele que levou ser construído e, nem um século passara, já estava em clara ruína, para logo ser  profanado e mais tarde demolido, obrigando a errante paroquial a transitar, mais uma vez, para outro templo, agora de novo para a igreja do antigo convento dos Franciscanos, desta vez já não o ocupando com restrições de espaço e tempo, mas sim totalmente e em  definitivo.

 

Embora considerada como concluída em 1730, o certo é que a Nova Igreja, quatro anos depois ainda estava a em acabamentos interiores, destes sobressaindo pintura, douradura e montagem de azulejaria no seu corpo principal e, mais delicado ainda e por tal muito mais caro, em concreto mais de seis vezes mais caro, a pintura e douradura da capela-mor, como o confirmam os 2.640$000 réis que ficaram registados em conta.
E porque as obras realmente pareciam nunca mais acabar, ainda em 1738 a sua torre estava em fase de conclusão, para depois, nela, se colocarem o devidos sinos.

Dez anos depois, e, aí sim, já talvez com as obras definitivamente acabadas e todos os repenicos tratados, foi adquirido um órgão. Era então chegada a hora de dar música aos paroquianos que já vinham contribuindo para a igreja, entre fintas, donativos e esmolas, havia mais de cento e cinquenta anos.
Para que toda a verdade seja dita, este órgão, pelo seu custo, 600$000 réis, não devia ser um grande e bom instrumento já que só o valor pago para os acabamentos da capela-mor daria e sobrava para comprar quatro instrumentos a ele semelhantes.

 

No entretanto, consagrada que a Nova Igreja fora ao patrono dos operários, e, em consequência, renomeada a freguesia para São José, em 1728 foi eclesiasticamente criado o curato de Santa Clara (só cerca de 150 anos depois, já a Nova Igreja estava demolida há mais de um quarto de século, era primeiro ministro o Regenerador Fontes Pereira de Melo, o governo reconheceria o Curato de Santa Clara), subordinado porém à recém-renomeada Freguesia de São José, mas com sede na original ermida.
A nova situação, apesar de se apresentar como uma despromoção do ponto de vista da organização urbana e social, para a maioria dos residentes no lugar, sobretudo os que habitavam o seu núcleo original, era bem melhor e mais edificante do que integrarem uma freguesia cuja paroquial estava longe de suas casas.
Remetendo para o domínio do sobrenatural a justificação que mais lhes interessava, não faltou quem na altura dissesse que tudo assim tinha acontecido porque a Santa não queria sair do seu berço original, até porque, como discípula de São Francisco de Assis que era, mais lhe interessava zelar pelos humildes santaclarenses a viver em redor do seu humilde templo do que dos altaneiros frequentadores da Nova Igreja.
E, como se comprovava, era muito importante beneficiar da protecção da Santa!

 

  

Regresso ao passado

 

 



De novo agregados à volta da velha ermida, que se degradava a olhos vistos, mas agora já não como freguesia, porém tendo eles almejando o que para si consideravam mais importante: a vizinhança à sua Santa protectora, os habitantes do lugar, já então definitivamente chamado de Santa Clara e que os locais insistiam em chamar-lhe "a sua freguesia", reforçaram o sentido identitário e de solidariedade comunitária que os caracterizava.

 

A vida simples e humilde do curato como que regressara aos primeiros tempos, os do “Piedoso” D. João III, logo após o falecimento de Serafim “Peixinho Voador” e da construção da ermida.
As familiares idas à “beira da rocha”, agora que, embora o “Castelinho” permanecesse em bom estado, os milicianos por lá já não estavam em permanência, voltaram a ser rotina das estivais e solarengas tardes de Domingo. Até as confrarias do segundo Domingo de Agosto, numa grande clareira da mata fronteira ao lugar que os santaclarenses, apesar de tudo, continuavam a chamar “a sua freguesia”, tornaram a ganhar o relevo e a alegria de outrora.

Porém, a vida, esta, é que continuava penosa, tão difícil que a solução para muitos, em especial para os mais jovens, era sair da ilha. Saiam rumo a Portugal, para a capital do reino ou para povoar zonas pouco concorridas como o Alentejo, mas sobretudo saiam para o Brasil: uns legal, outros clandestinamente. Até a salto nas baleeiras norte-americanas que passavam nos Açores muitos saíram.
Foi tal o volume desta evasão que o Governo Português, para controlar este imenso movimento migratório, viria a introduzir a obrigatoriedade do uso de passaportes, mesmo para o destino Portugal, onde na chegada a Lisboa, ainda com os barcos ao largo, eram verificados os passageiros quase um por um, não sendo incomum os casos em que viajantes e mestres dos navios iam parar à prisão por incumprimento ou falsificação de documentos.

Em Santa Clara, poucas que fossem, as ausências dos descendentes de Serafins ou Apolinários faziam-se notar, muito. Eram os braços de que careciam as terras, era a gente de coragem e saber que faltava nos mares, e, acima de tudo, no caso dos idos para o Brasil, a carência de casais jovens que ajudassem a inverter a tendência decrescente do numero de habitantes do lugar.


 

Estava a chegar ao fim o mês de Outubro de 1755.
Já se cuidavam das flores com que, no dia dedicado aos fieis defuntos, era habito cuidar das campas dos entes queridos falecidos. 
Apesar da aproximação do dia apropriado, mais do que para encomendar um bom lugarinho para a alma dos que recentemente haviam partido do mundo terreno, as preces à Santa por aqueles dias destinavam-se
 maioritariamente a pedir protecção e obtenção de boas notícias daqueles que tinham saído da ilha em busca de uma vida mais afortunada.

 

Os Açores tinham acedido recentemente à categoria de província. Não por muito tempo pois rapidamente voltaram  a ser despromovidos à condição de colónia –  ventura que a alguns consolava –, para um dia, em conjunto com a Madeira e Cabo Verde, serem também designados "ilhas adjacentes" a Portugal.
Mas nada disso melhorava a vida dos açorianos. Nem isso, nem, nos primeiros tempos, a cultura da laranja que se já iniciara mas só mais tarde geraria verdadeira riqueza, pelo menos para alguns. Para outros, também poucos, o contrabando e a muita moeda falsa que circulava atenuava a desgraça quase geral.
Nada que, pouco tempo depois, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, com mão dura e pesada não solucionasse, de forma tão imperial e quase tão radical como resolveu a questão dos Jesuítas e dos Távoras.

 

  

O maremoto do 1º de Novembro de 1755

 

 



Chegou Novembro, era o primeiro dia daquele mês, o de todos os Santos, um Sábado no qual corria fresca aquela manhã, que já ia a meio.


Estavam dois pescadores sentados “à beira da rocha”, quase em frente ao “Cunhal da Maré”, a arengar sobre o tema que desde há algum tempo a todos preocupava: a falta de gente que se fazia sentir.
Já haviam discorrido sobre o facto das terras começarem a ficar abandonadas por falta de quem as cuidasse, estando agora empolgados com outro assunto, para eles bem mais candente: o caso de alguns dos barcos varados no “Calhau da Areia” já estarem com pouco uso e a degradarem-se, por não haver quem os usasse, menos ainda quem os conservasse.
Ia a conversa escorreita quando um deles chama a atenção ao outro para a o enorme recuo das águas que dali se observava, vendo-se o fundo do mar ao longo de umas cem braças para além da normal borda de água, deixando a seco, já lutando pela vida, caranguejos, peixes grados e miúdos e até lagostas.
Olha aquele mistério – gritou o mais velho, apontando para o mar. E continuando, disse:
Nestes meus já mais de cinquenta anos de vida n
unca vi nada disso. Nunca pensei ver isso em dias de minha vida…"o findmunde tá perte"!
Incrédulo com o que estava a ver, o companheiro respondeu-lhe:
Temos que sair já daqui, avisar esta gente e encontrar quem nos ajude a colocar estes barcos aqui em cima, é que depois desta vazante deve vir mar grosso e será uma desgraça…mar grande, mar pesado…uma desgraça!

Dito isso ambos se levantaram dirigindo-se apressadamente para a zona habitada a fim de dar o alarme.
De pouco serviu o aviso que deram: não só o tempo para actuar foi escasso como não havia homens para os ajudar a retirar dali os barcos.

Felizmente não morreu ninguém, mas dos barcos só sobrou lenha, com a vaga de mar que se lhe seguiu, na verdade as vagas, pois foram mais de uma, espumando costa adentro apesar da arriba ali até nem ser muito baixa.
Os três vagalhões, já que foi este o seu numero e dado o seu tamanho ser este também o nome adequado a dar-lhes, penetraram terra adentro mais de duas centenas de metros, inundando por completo o “Castelinho” e as casas mais próximas.
O mar chegou mesmo até ao adro da ermida, destruindo casas, encharcando o seu mísero recheio, e deixando um rasto de pedras roladas e peixes em terra firme.
 “Nunca tal se havera visto!”, era a frase que naquele dia mais se ouvia!

E não sabiam da missa nem pela metade!
Mais a Nascente, no centro da cidade, onde a costa é bem mais baixa do que em Santa Clara, o mar galgou várias ruas e inundou muitos edifícios, alguns muito importantes. E, na Terceira, soube-se dias depois, os estragos ainda foram maiores. Até mortos houve. 
Constava ainda que em outras ilhas também houvera grandes infortúnios.
Os dias seguintes foram de romagem à ermida, que continuava de porta fechada, mas sem que isso impedisse os apelos à Santa. 
No meio das rezas, e perante tamanho castigo, não faltou quem colocasse em causa se os seus pais e avós sempre haviam pago à Santa as promessas em azeite efectuadas já há mais de quarenta anos, por ocasião da crise sísmica ocorrida ao tempo da abertura definitiva da nova Igreja de Santa Clara.



Fora os enormes estragos feitos nas humildes casas mais próximas da “beira da rocha”, o que não foi pouco mas felizmente não se registaram mortos nem feridos graves –“fou melagre da Santa nãn tê merride ninguâm nim havâ frides d'jeite, nunca se esqueciam de dizer os seus devotos.
Com muito trabalho e a ajuda conseguida de vizinhos e familiares, rapidamente tudo voltou ao normal, nalguns casos com as habitações aumentadas e melhoradas. 
Doze anos depois, se algo por ali destoava, era que entretanto uma das peças de bronze que guarneciam o “Castalinho” já lá não estava. Para onde fora, ninguém sabia, tampouco tinham dado conta da saída de algo que não era facilmente deslocado.
Sabido era que, entretanto, dada a preocupação de a qualquer momento a armada francesa poder atacar o arquipélago, todas as fortificações da ilha estavam a exigir um cuidado especial no seu reforço e guarnição.
Para os habitantes de Santa Clara, conformados que já estavam com o desaparecimento da peça de bronze que praticamente desde que ele existia guarnecia o “Castelinho”, o que então lhes alegrava as vistas era ver como tinha sido cuidada e estava reluzente a que ainda lá restava, brilhando como se nova fosse.

 

Na recta final do século XVIII as culturas de grande rendimento conheceram um significativo incremento.
A par da proliferação da laranja, que já garantira importância económica, o cultivo do linho e do milho ganharam também relevância, para pouco depois o mesmo acontecer com a “batata inglesa” e com as primeiras pastagens, importadas entretanto que tinham sido as sementes apropriadas e especificamente a tal dedicadas. A Norte e Poente de Santa Clara, nos Arrifes e na Relva, agora era o verde reluzente dos prados, cercados por um rendilhado de baixos muros de pedra e ondulantes combros de canas, aquilo mais se avistava.

Apesar de tudo, incluindo serem muito centralizadoras e autoritárias, foram as reformas pombalinas o que veio ajudar a dar alguma ordem à governação dos Açores e reorientar a sua economia, que a localização do arquipélago incentivaria à sua internacionalização, com as rotas marítimas inglesas ligando a Europa às colónias das Américas potenciando-a.
Em Santa Clara, que então, trinta anos volvidos após o maremoto que tanto a danificou, conhecia uma fase importante da sua afirmação e crescimento com o rasgar do Foral do João do Rego, que mais tarde daria lugar às ruas: João do Rego de Baixo e João do Rego de Cima, a ligação aos comerciantes britânicos ficou indelevelmente marcada com o cemitério por eles lá estabelecido, desde o ano trinta e quatro do século seguinte, o chamado “Campo da Igualdade”, cemitério Judaico.

Muito danificados pelo maremoto de 1755 e por outras tempestades depois dele ocorridas, sendo por isso várias vezes reconstruídos e reforçados, foram o porto natural do "Areal de São Francisco" e o cais da cidade, ambos importantes pontos de apoio para as cargas e descargas das cada vez em maior número embarcações que fundeavam ao largo.   
Se o transbordo nas barcaças era uma função geradora de emprego, nela se ocupando muitos dos santaclarenses, este trabalho, além de duro, exigia grande risco e bastas vezes provocava vítimas.
Cada vez se falava com mais insistência na necessidade de construir um porto artificial, sendo que eram os embarcadiços ingleses aqueles que mais pareciam interessados nesta empreitada, tal era a frequência com que se queixavam das difíceis condições de carga e descarga ali existentes para os navios em que trabalhavam.

Com o decorrer do tempo, a possibilidade de se construir uma doca em Ponta Delgada já se tornara assunto de discussão no povoado. 





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