sábado, janeiro 16, 2021

Séc. XV - De coutada de caça a berço de Ponta Delgada

 



“E de Vila Franca vinham correndo a costa em barcos, e saindo na Ponta Delgada, cinco léguas de Vila Franca, na Ponta de Santa Clara, iam a montear, e, entrando por terra adentro um tiro de besta, e tiro e meio, sem poder mais entrar nela, pelo mato ser muito maninho e espesso, estavam dois dias e três, em que carregavam de porcos monteses, com que se tornavam para suas casas bem providos.”

(...)

“Os porcos do monte eram tantos e tão bravos que davam grande trabalho aos monteiros. Havia infinidade deles além (...), para aquela banda de Santa Clara, e até à casa de Francisco Ramalho, onde os iam montear os moradores de Vila Franca, levando mantimentos em seus bateis para alguns dias, nos quais, fazendo salga neles, se tornavam com muitos para a mesma Vila."

Frutuoso, Gaspar; Saudades da Terra, Livro IV





Século XV



Um Natal em Março

 

 

 

 

 – Serafim… – gritou exausta Maria de Fátima!

O pujante brado, misto de gemido de dor e clamor de alívio, foi o ponto final de um longo e difícil parto: o primeiro a acontecer no "lugar da ponta delgada".
"Serafim…Serafim… ….Serafim…" voltou a ouvir-se, agora de forma repetida e arrastada.
Era como se as paredes do algar que servia refúgio ao jovem casal, morada adoptada praticamente desde o primeiro dia que chegaram aquelas paragens, propagando a exclamação da aliviada mãe, também dessem as boas vindas ao novo habitante do lugar.

Dissipado o eco fez-se um momento de silêncio, permitindo voltar a ouvir o habitual som do mar, em especial quando percorria, umas vezes calma outras furiosamente, a longa restinga ali existente, até bater nos contrafortes da rocha onde, quatro ou cinco metros acima, a natureza vulcânica da ilha esculpira a gruta que abrigava Serafim e Maria de Fátima, acolhendo a partir daquele momento, também, o filho do casal.

Aproveitando a quietude da ocasião, não mais que um ápice embora não o parecendo, o jovem pai, também extenuado, fechou os olhos e iniciou uma oração de agradecimento, até ser interrompido pelo primeiro choro do recém-nascido, um entoado pranto logo ali entendido como uma bênção em resposta às suas preces.
Suspendendo a reza, ao reabrir os olhos Serafim pôde pela primeira vez ver o filho de corpo inteiro.
Ali estava ele, aconchegado ao peito da mãe, ainda com os olhos fechados mas com a boca muito aberta, entretanto já liberto da maioria dos vestígios de tão rudimentar quão eremítico parto.
Nascera o primeiro habitante daquela até ali desabitada zona da ilha, milagre que estava atraindo o olhar embevecido de ambos os progenitores, jovens quase imberbes, que finalmente se podiam regozijar com o motivo da sua tão radical mudança de vida, autêntica aventura, fruto de uma decisão tomada sem grande ponderação, depois muitas vezes repensada, porém nada que, quatro meses passados, levasse ao arrependimento o casal fugitivo, fazendo-os voltar atrás. Ali estava a razão de terem abandonado tudo e todos, deixado o razoável conforto da família, amigos e conhecidos; a causa de terem deixado o já então promissor povoado onde cresceram e haviam concebido o fruto que agora apreciavam. Ali estava a razão de se terem refugiado naquele ermo, da enorme labuta que encetaram para ali criarem condições mínimas de subsistência, o objectivo visível da transformação de um lugar que em consequência do seu esforço e determinação, em menos de meio ano, se tornara habitável, até aqui só para ambos, agora também para o seu filho, no futuro para os demais vindouros.

 

 

Regressando à realidade, com o choro do filho emprenhando os ouvidos e o impetuoso chamamento: – "Se..ra..fim…Se..ra..fim…" –, não lhe saindo da memória, o jovem pai acariciou o filho, afagou os cabelos da ainda esgazeada mãe, beijou-lhe os lábios e, como que respondendo ao suposto apelo feito minutos antes, disse-lhe ao ouvido:
 Fatinha, que queres de mim?
 Nada - respondeu ela ainda ofegante -, foi só para saberes que é um menino. Mais um Serafim!


Fora longo e esgotante aquele dia. Inesquecível também. Acontecesse o que acontecesse e aquela data, para mais coincidindo com o equinócio da primeira Primavera que passaram no "lugar da ponta delgada", ficaria indelevelmente marcado nas suas vidas enquanto estas durassem, literalmente com sangue, suor e lágrimas.

Findava o dia, aproximava-se a noite. Também ela distinta, singular. Ímpar pelo natal ocorrido ao longo do dia, mas sobretudo por ser a primeira, desde que ambos se fixaram naquela latitude da ilha, em que já não contavam apenas um com o outro.
Como se tudo isso já não fosse suficiente, acrescia ainda que para quem como eles ali tinham chegado em Novembro do ano anterior, a noite que se aproximava seria também, não obstante o equilíbrio que o Equinócio de Primavera lhe conferia, uma das mais curtas de todas as noites até então ali passadas, o que não era de somenos importância e acrescentava diferença.

 

 

As noites daquele Inverno, além de frias, ventosas e quase sempre adereçadas com o assustador barulho das poderosas vagas de Sudoeste, tinham sido muito longas. Compridas porque se seguiam a um dia curto para o muito que havia para fazer, infindáveis pelo desconforto, a cada dia que passava minimizado é certo, mas ainda assim sempre incomodo dormir no rude estrado que lhes servia de leito, paredes meias com a boca da caverna, entrada esta onde até de madrugada ardia fumando a lenha que os aquecia, iluminava e simultaneamente ajudava a afastar algum animal que também quisesse usar aquele algar como refúgio.
Foi também a extensão, desconforto e ócio daquelas duras noites de Inverno o que lhes permitia pensar e programar com detalhe aquilo que havia para fazer nos dias vindouros, incluindo decidir os nomes a dar ao filho ou filha que estava para chegar.
Aliás, nesta prévia definição residia a razão da primeira palavra pós parto da jovem mãe ter sido “Serafim”, forma de apresentar na hora o filho, e não de intimar o pai, como por ele chegou a ser entendido!

A escolha do nome dos filhos, pelo menos dos dois primeiros, imaginando e desejando que um fosse menino outra menina, tinha sido o tema mais presente e usado no ocupar do pouco tempo livre até ali existente, por regra no início da noite.
Certo é que os nomes há muito estavam escolhidos, com as longas conversas noturnas ali mantidas apenas consolidando as opções feitas, ou acrescentando pormenores às razões pelas quais haviam acontecido.

Na verdade, ainda no povoado de origem, já quase vila como diziam alguns dos mais informados, em especial quando estavam num recanto do ancoradouro onde, longe de olhares alheios, passavam algum tempo juntos depois de que ficou confirmada a imprudente gravidez de Maria de Fátima, ambos os jovens amantes, com os olhos perdidos no horizonte ou fixos no ilhéu que se erguia um pouco mais à frente inspirando-os para a fuga, como que dando continuidade às brincadeiras infantis com que começaram a relacionar-se, logo iniciaram a escolha dos nomes a atribuir aos seus descendentes, com Fátima e Serafim ganhando fácil e rápido consenso: Serafim por já ser o nome do pai, tal como do avô e de todos os primogénitos daquele ramo familiar; Fátima por ser um dos nomes da mãe, Maria de Fátima, já acrescentado ao da avó, simplesmente Maria, a “Maria Bela” que tantos corações despedaçara desde que se tornara mulher, mas também para reabilitar o singelo e significativo nome da bisavó, Fátima, a “moura encantada”, vinda ainda menina para os Açores, chegada a Santa Maria inserida na família que a adoptara em Portugal, recém provinda de Ceuta, tinha aquela praça africana sido acabada de conquistar.

 

 

 Amores pueris

 

 

 

 

Separados em idade por menos de três anos, Serafim e Maria de Fátima conheciam-se praticamente desde criança, tendo brincado juntos muitas vezes enquanto cresciam, meninos e moços, quase sempre na praia contígua ao pequeno ancoradouro onde o Serafim, pai, passava quase todo o seu tempo, ora aprontando os apetrechos de pesca com que garantia regularmente o sustento da família, ora fazendo reparações na sua e em outras pequenas embarcações, ali varadas para conserto ou conservação.


Desde muito cedo que Serafim ajudava o pai nestas tarefas, pois preferia claramente as actividades ligadas ao mar: a faina da pesca ou mesmo o auxílio na reparação de embarcações, às do amanho da terra ou dos animais, funções para as quais era amiúde convocado e as executava com desembaraço, mas a desgosto.
Maria de Fátima também muito cedo conheceu o trabalho. Desde criança era a mais próxima colaboradora da cozinheira de uma das famílias poderosas daquele povoado, nem mais nem menos que a sua progenitora, Maria, “Maria Bela” como era conhecida a afamada filha da “moura encantada”, também como ela mãe solteira, e que por isso desde há muito encontrara, no servir os mais abastados, a melhor forma de subsistência.
Mesmo tendo em conta a esforçada ajuda que prestava à mãe, Maria de Fátima podia considerar-se uma protegida, até mesmo privilegiada, desde menina apresentando-se melhor e mais cuidada do que todas as outras crianças da sua classe e condição.
Sempre com a mãe por perto, mulher que não passava despercebida, um ser de beleza estonteante, mulata que apesar de manter a tez morena já muito dificilmente denunciava a sua origem africana, Maria de Fátima, era visita regular do mercado próximo da enseada a Poente da foz da ribeira, onde praticamente todos os dias mãe e filha iam aviar o necessário para as refeições da abastada família que serviam.
Ambas sempre vistosas era contudo em “Maria Bela”, perenemente bonita, alta e esbelta como nenhuma outra por ali residente, que todos os olhos se concentravam. No mercado, só Serafim, o filho, tinha os seus olhos exclusivamente fixados em Maria de Fátima.

A esta proximidade quase diária, sobretudo ao longo do Verão, acrescia uma outra, a proporcionada pelas brincadeiras de Domingo à tarde na praia, onde habitualmente o povo se juntava para tirar partido das poucas horas de ócio semanal que possuíam. Foram umas e outras ocasiões o que, ao longo dos tempos, cimentara a forte amizade e cumplicidade entre os dois enquanto crianças e jovens adolescentes.
Assim fora, mas agora, com ambos mais crescidos, a caminho de adultos, sobretudo apresentando-se Maria de Fátima já como uma mulherzinha e transformando-se a inocente cumplicidade infantil de ambos numa forte e biunívoca atracção, até para eles difícil de explicar, assim deixava de o ser.
Aquela amizade há muito que se tinha transformando em algo mais consistente e inflamado, difícil de conter e de esconder!
Se assim era para quase todos, por maioria de razão também o era para a “Maria Bela”, mulher vivida, que desde cedo se fizera à vida já que como mais ninguém podia contar para se sustentar, a si e à filha, destinatária única do seu instinto de protecção e razão principal de todo o seu esforço.
E assim, agindo hábil e consequentemente, “Maria Bela” era a primeira a proceder para que progressivamente os dois jovens amigos se vissem menos vezes. 

 

 

Agora era outro o mercado preferido para as compras diárias, pois contrariando o que sempre fizera, nos últimos tempos, só mesmo o peixe raro ou o marisco a forçavam a vir mercar à praça junto à enseada da foz da ribeira, poiso habitual dos seus velhos fornecedores, de muitos admiradores, e dos Serafins. 
Assim, a cada dia que passava era exigido maior esforço a Serafim para poder estar com Maria de Fátima, por mais breves que fossem os instantes conseguidos, a custo, pelo jovem casal.
Para agravar a situação amplificava-se o falatório sobre a possibilidade de um dos filhos do patrão de “Maria Bela”, o varão da família, mais velho que Serafim dois ou três anos, como que inebriado pelas belas formas que a neta da “moura encantada” já exibia, indiciando em breve tornar-se tão ou ainda mais bela e atraente do que a mãe, não deixar a roda da saia de Maria de Fátima.

Tudo isso amargurava Serafim, mas era o brusco e estratégico afastamento patrocinado por “Maria Bela”, muito visível nos últimos tempos, aquilo que o torturava verdadeiramente.
De certa forma Serafim via em “Maria Bela” a mãe que já não tinha, progenitora que perecera na tentativa de lhe dar o irmão que o pai tanto desejara e que ele próprio sentia falta; a mãe que lhe afagava a cabeça e oferecia uma guloseima ou um simples naco de pão durante as habituais brincadeiras de Domingo, por vezes logo após estas, já a caminho de casa, depois de o mandar, tal como a Maria de Fátima, retirar do corpo a maior parte da areia acumulada em consequência das brincadeiras na praia daquela tarde. Uma mãe que agora parecia estar transformada em madrasta, em defesa da filha, de um bom e seguro futuro para a filha, como cada vez mais por ali se ouvia dizer!

 

 

Ainda a meses de completar os dezasseis anos de idade, não obstante exibir um fácies imberbe e não ser detentor de uma estatura física muito desenvolta e robusta, Serafim era já porém um homem feito.
Um rapaz que ainda precisava de assentar, diziam os mais próximos; um moço que todos vaticinavam como senhor de um futuro promissor, consensualmente apontado com virtuoso e já granjeando rasgados elogios; como exemplo de quem cedo ganhara a sua independência e já se bastava a si próprio; como jovem corajoso e determinado; como bom profissional e brioso mestre no ofício que tinha aprendido com o pai. Enfim, como o filho que todos desejavam ter e o marido que muitos gostavam de destinar para a s suas filhas!
Era porém a fama de ser um marinheiro exímio, destemido mas que inspirava segurança, assaz desembaraçado no maneio de qualquer embarcação, em especial da que construíra, aquilo que mais o embevecia!

 

 

 O mar, os barcos, o berço, o destino

 

 

 

 

A reputação de Serafim como marítimo bem-sucedido e muito conhecedor de todo aquele mar aquém e além ilhéu, levava dianteira a todas as outras formas de notoriedade que ele coleccionava, sendo a vários níveis invejável. Extraordinária mesmo, sabendo-se ter como destinatário um moço com aquela idade. 
Era uma fama que levedava a cada vez que ele era visto entrar pela praia adentro, retesado e de semblante cerrado, sentado numa das extremas do leito da popa do seu batel, com a cana de leme numa mão e o cabo da retranca na outra, lutando para manter mais de meia embarcação fora da água, um aparatoso maneio que aproveitando uma onda escolhida à medida, trazia-lhe a embarcação até areia firme.
Aquela tão vistosa quanto arriscada manobra até já ganhara nome: “carreira louca à Serafim”.

 

 

Começando a ir ao mar muito cedo, praticamente desde que terminara a pequena e original embarcação que ele próprio construíra, fazia-o muitas vezes sozinho.
Também desde muito novo Serafim se começara a identificar com os segredos da arte de marear, em especial a requerida por aquele mar, o mais das vezes inconstante e bravio, mas que o banhara e acompanhava desde menino.

A experiência e destreza que Serafim exibia no desempenho das diversas tarefas náuticas, herança de família, que o pai uma vez lhe contara ser oriunda de um lugarejo à beira mar, perto de um tal “cabo do fim do mundo”, em terras de Santiago de Compostela, no Reino de Aragão, além da fama, valia-lhe elevada consideração por parte dos companheiros mais velhos.
A poucos escapava a sua capacidade de manobrar de forma a deixar a seco o seu batel, praticamente varado, em muitas das calhetas e enseadas daquela zona da costa.
Fora esta sua reputação, tal como a inata aptidão para tudo o que tivesse a ver com marear o que, pela primeira vez, ainda praticamente uma criança, lhe valera o convite para integrar, como moço auxiliar ao serviço a bordo e em terra, a equipagem de um dos barcos que aproveitando o “Verão de São Martinho” rumavam até ao “lugar da ponta delgada” para dar caça aos muitos porcos bravios que por ali existiam.

Como para além da fama a competência de Serafim com facilidade sobressaía, logo no ano seguinte ele voltou a ser contratado para a mesma empreitada, desta feita não como “moço para todo o serviço” mas sim já para capitanear uma das embarcações da frota, a que transportou o sal e os demais e necessários apetrechos para desmanchar e conservar a muita e boa caça que aquele local da ilha proporcionava. É que, quanto mais pesado estivesse o barco, maior conveniência havia em o levar bem para seco, até ao mais longe possível da linha de água, reduzindo ao máximo o esforço de o arrastar sobre os “parálos”.
Além do mais, ali, tão longe do porto habitual, era maior a dificuldade que revestia aquela tarefa, também por ter de ser efectuada sobre os calhaus rolados daquela enseada, não muito profunda mas acentuadamente inclinada.
Por tudo isso e embora naquela longínqua enseada faltasse a areia que noutras paragens a facilitava e garantia alguma segurança, para ali também a “carreira louca à Serafim” se prestava como uma manobra vantajosa.

 

 

Já se tornara hábito. Por altura das vindimas os feitores começavam a recrutar a companha, e com ela uns quantos auxiliares, que a meio do Outono permitia a uns quantos senhores irem montear ao “lugar da ponta delgada”, onde tinham diversão e farta caça garantida, tal era o número porcos bravios que por ali existiam.

Mais uma vez repetiu-se o que já estava a estabelecer-se como praxe, e, assim, findas as colheitas, já com a vindima feita, restolho recolhido e estrumadas as terras, começava a contagem decrescente para a viagem a Poente, até àquela última enseada onde era possível desembarcar antes da costa se tornar alta e alcantilada, uma pequena mas segura reentrância protegida dos mares e ventos vindos de Sudoeste pela extremidade de pedra não muito comprida, esguia e baixa, quase ao nível do mar, que caracterizava e dava nome ao lugar.

Se a Ponta Delgada, apesar de rasa e estreita podia ser avistada à distância, praticamente desde que dobrada a Ponta da Galé, já a enseada que a precedia só era convenientemente notada de muito perto, nela sobressaindo um gigantesco penedo, arredondado, como que lá colocado de propósito para balizar o melhor local para a ela aceder, definindo em simultâneo a extrema Sul de uma outra pequena mas ainda melhor protegida enseada de areia, e dando conta do mais adequado nível de maré para o necessário desembarque, a etapa prévia para o acesso à pródiga coutada ali existente.

Porque o grupo crescia em cada ano a olhos vistos, confirmada que fora a disponibilidade dos veteranos, o alargar da comitiva fazia-se sob criterioso e atempado recrutamento, uma escolha muito disputada entre os potenciais candidatos já que aquela viagem de apenas três ou quatro dias, com alguma antecedência apalavrada, era em regra generosamente recompensada, tal era a quantidade de carne salgada que a jornada proporcionava, também moeda de troca da empreitada.

 

 

Naquele ano, e ao contrário do que acontecera nos dois anteriores, o jovem Serafim foi um dos primeiros a ser contactado, em dia que, por mais anos de viva, jamais esquecerá!


A bem dizer, o encadeamento de acontecimentos que dão a verdadeira importância ao dia teve o seu início no princípio da noite anterior, marcando o começo de um novo tempo, o alfa daquela que seria uma vida nova, para ele e toda a sua descendência.
De facto, na véspera, Serafim tinha recebido a notícia que lhe mudaria para sempre toda a vida e, na sequência da inusitada novidade, a noite fora praticamente de vigília, um velório em que os acontecimentos dos últimos meses passavam em memória a uma velocidade estonteante.
Depois, cansado de estar na cama sem dormir, ao decidir levantar-se cedo para arejar a cabeça e assentar as ideias, foi surpreendido pelo pai, a quem não conseguiu disfarçar a angústia que o atormentava.
Contornara porém a situação para se dirigir ao porto e, agora que finalmente chegara ao destino, à proximidade do mar e à possibilidade de se manter isolado por algum tempo, aparecera na sua frente o feitor do patrão de “Maria Bela”, o arrogante “Tio António Cafua”, duro e circunspecto, como quem vinha acertar contas com ele. Que susto!

Sim, por mais anos de viva, Serafim jamais esquecerá este dia e a noite que o precedeu!

 

 

 Benquerença e consequência

 

 

 

 

Era Domingo. O primeiro Domingo de Setembro. A manhã nasceu limpa e fria prenunciando um bom dia, agradável, fresco, desanuviado, como o eram em regra todos aqueles que o povo apelidava de “dia de tempo Norte”.
Já não era sem tempo. O mês de Agosto fora muito quente e abafado, pino de um estio bom para amadurecer fruta, em especial as muitas uvas em que aquele ano havia sido pródigo, mas difícil, muito difícil, para quem da vinha, das árvores de fruto e da terra tinha que cuidar.


Serafim acordou cedo. Despontavam os primeiros rasgos da aurora quando, inesperadamente à porta da rua, se cruzou com o pai que, tento acordado ainda mais cedo que ele, já regressava a casa após uma primeira visita ao Cerrado das Faias, uma bem cuidada quarta de terra que ambos, em horas que não as empregues no trabalho que lhes garantia o dia-a-dia, faziam mesmo ali junto a casa.

O inesperado encontro matutino apanhou pai e filho de surpresa, perturbando visivelmente o jovem Serafim, que saindo àquela hora, entre o mais, esperava também esgueirar-se às tarefas de amanho da terra sem ter de dar grandes justificações ao progenitor.
Se duvidas houvessem, mesmo com a ocasional penumbra matinal escondendo as características expressões corporais do jovem quando apanhado naquelas circunstâncias, o tom embargado da voz de Serafim encarregou-se de denunciar o espanto causado.
Foi assim que, baixando a cabeça, balbuciou:
 Bom dia. “Pá s'abence”! – Titubeou com reverencia Serafim.
– “Dêstabençômêfilhe”. Um bom dia também para ti! – Retorquiu Serafim pai, questionando-o de imediato:
 – Vens hoje para a terra comigo?
Sem levantar os olhos, nem dar possibilidade para que a conversa prosseguisse, Serafim respondeu:
 – Não senhor meu pai. Não posso. Estou atrasado com a entrega do bote ao “Ti Zé Lanchinha”. O arranjo acabou sendo mais complicado do que pensei, vou ter de aproveitar o dia de hoje: “e même assim se calhá nã vá dá para acabá …”!
 “Pous é”. “Távac'ma adivinhando”. “Vá coagraça de Dês!” – Respondeu o “velho Serafim” não querendo também ele prolongar mais a conversa, mas percebendo, pelo embaraço, que, mais do que o trabalho, algo de grande importância se passava.


A recusa de Serafim em acompanhar o pai não era de todo inesperada.
Aquela não era a primeira vez que, ao Domingo, dia por regra em grande parte destinado a transformar o Cerrado das Faias, com a sua farta cerca de galinhas e curral para porcos, no garante de parte substancial do alimento da família, Serafim encontrava um pretexto para fugir àquele tipo de tarefas, trocando-as por outras, sobretudo as ligadas ao mar.
Era verdadeira a alegação da delonga com a reparação da embarcação do “Zé Lanchinha”, sendo porém outra a grande verdade.
Aliás, as verdades eram mais do que uma. Haviam outras verdades.

 

 

Serafim não tinha pregado olho naquela noite. Chegara tarde como sempre acontecia quando visitava Maria de Fátima mas, ao invés das outras vezes, que quando cansado e extasiado dormia como um justo toda a noite tendo até dificuldade em levantar-se cedo no dia seguinte, aquela tinha sido uma noite de insónia. 
E não era para menos, tal fora o impacto da novidade que Maria de Fátima lhe participara!

 

Pouco tempo depois de “Maria Bela” passar a evitar frequentar o mercado da foz da ribeira, primeiro Serafim e logo também Maria de Fátima, facilmente se aperceberam da estratégia que, de início apenas dificultando os encontros entre ambos, mas depois, e claramente, tudo fazendo para os evitar, mais não pretendia do que os afastar um do outro. Assim, após confirmarem aquilo que mais do que uma suspeita já era sentido como dura realidade, logo os dois jovens encontraram forma de contrariar o estratagema montado, fazendo-o até com vantagem para a sua relação.

Superar as dificuldades que lhes criaram, aproximou-os ainda mais, dando também início a uma relação menos infantil, mais cúmplice, comprometida, transformando a ligação inocente e quase fraternal que sempre fora, numa união cada vez mais concupiscente.
E tudo aconteceu muito aceleradamente. Estabelecidos os sinais combinados e os códigos que passariam a adoptar, os dois jovens começaram a encontrar-se duas a três vezes por semana, mas agora a coberto do escuro da noite e entre muros, no interior da propriedade do “senhor” que “Maria Bela” servia, não muito longe do aposento que mãe e filha partilhavam.

Para Serafim, ágil como era, de forma nenhuma os três metros de altura que tinham os muros que vedavam a propriedade eram obstáculo custoso de transpor. Difícil sim, era determinar o momento certo para o fazer e aí a cumplicidade de Maria de Fátima, que não só facilitava como reduzia muito o risco da intrusa e perigosa visita, diminuía o perigo e, gradualmente, aumentava o conforto em que a mesma decorria: ora dirigindo o seu amado com ligeireza ao refúgio escolhido para a ocasião; ora transformando aquele escaninho, por regra no granel do feno, numa acolhedora alcofa, um ninho de amor.

 

 

A visita daquela noite começou como muitas outras. Assimilados desde há muito os códigos combinados, cada saltada tinha de ser precedida da verificação dos sinais que indicavam já estar tudo preparado e haver caminho livre. Feito isso, o que era conseguindo com uma discreta passagem junto à porta principal da residência, Serafim dirigia-se ao muro do fundo do prédio, escalava-o com a facilidade habitual, e já no interior, apoiado na figueira existente naquela esquina do quintal, ainda mais facilmente o descia, seguindo depois rapidamente para um telheiro.
Neste já o esperava Maria de Fátima, indo juntos depois, já após o fogoso beijo do primeiro encontro, para o granel de feno contíguo ao alpendre, única testemunha dos cada vez mais apaixonados momentos de cada um dos já tão frequentes quanto arrebatados encontros do casal.

Mas, se naquele dia o início da visita não destoou das demais, cedo Serafim se apercebeu de uma inquietação pouco habitual em Maria de Fátima, perguntando-lhe:
– Fátinha, querida, que se passa contigo? Pareces-me triste. O que te atormenta?
– Sabes Serafim. Penso que estou prenha. Este é o segundo mês consecutivo que … – respondeu-lhe Maria de Fátima num misto de alegria e preocupação sem terminar a frase.

Fez-se um longo silêncio. Tão extenso que os segundos pareciam minutos e estes, horas, e tão emudecido que o som dos grilos naquela calma noite de Verão, de um momento para o outro, se tornou ensurdecedor.
Passado algum tempo, uma eternidade pareceu a ambos, Serafim pegou na mão de Maria de Fátima, puxou-a para si, envolveu-lhe o corpo com os braços e disse:
– Não te preocupes. Tudo se hà-de resolver. Encontraremos uma solução para a nossa vida. Vais ver!

A bem dizer, foi o som do silêncio o que predominou naquele encontro. Para além das iniciais não houve praticamente outras palavras. Ainda trocaram alguns beijos, outros tantos carinhos, mas ao contrário do que vinha sendo hábito nada mais aconteceu.
Após Serafim ter dado conta que algo de incomum acontecia, feita que foi a pergunta e dada de pronto a resposta, mesmo que incompleta, a conversa começou e terminou ali.

 

 

Após aquele tão inusitado quanto inesquecível encontro, Serafim regressou a casa muito cedo, dormir é que não conseguia; a cama parecia um molho de espinhos e ele não parava sossegado, virando-se constantemente de um lado para o outro. Só de barriga para o ar e olhos bem abertos no escuro conseguia parar um pouco.
Cansado, fechava os olhos e até dormitava, mas apenas por breves instantes; ao longo de toda a noite não dormiu uma hora que fosse.
Aos primeiros alvores do dia quis terminar aquela difícil vigília: levantou-se, vestiu-se, e já estava “porta fora” quando se cruzou com o pai…Uff, naquele dia faria tudo, menos ir trabalhar a terra em companhia do pai!

 

Recomposto do espanto que aquele inesperado momento matutino lhe causou, Serafim saiu directo para a foz da ribeira.
No mercado já havia alguma azáfama, mesmo bastante significativa, sobretudo tendo em conta aquela hora do dia. Porém Serafim parecia não ver ninguém, tampouco retribuía os muitos “Bom dia/Haja saúde” que recebeu enquanto atravessou o recinto.
Na verdade não os ouvia! Na sua cabeça ainda martelavam as palavras de Maria de Fátima: “Sabes Serafim. Penso que estou prenha. (…)”.
Sempre a passo rápido Serafim atravessou a ribeira, só se detendo à porta do barracão que com o pai usava como oficina. Ainda removeu a tranca da porta e girou a tramela que a fixava aos batentes, mas nem a abriu. Virou-lhe as costas, encostou-se à ombreira e ali ficou olhando o mar, a cismar.

Àquela hora também o ancoradouro fervilhava de actividade.
Dois barcos, entretanto já varados, descarregavam o produto da pesca nocturna com um terceiro a aguardar vez para ser puxado rampa acima, já que mesmo sobre “páralos” bem ensebados só com a ajuda de alguns dos que estavam ocupados com a descarga, a companha da embarcação ainda a manobrar sobre a rebentação podia ser colocada a seco.
Ao som da actividade sobre o cais misturava-se o do mercado, também já em frenética labuta àquela hora, embora só mais tarde atingisse o frenesi que o caracterizava a sua laboração domingueira. A esta mistura de sons associava-se a dos aromas, o da maresia e do peixe, mesmo ali tão próximos, com a das verduras e da fruta mais ao longe, em ondas sucessivas, como a incensar os pensamentos de Serafim, que continuava com o olhar fixo no horizonte, profundamente tomado pela inesperada revelação de Maria de Fátima na noite anterior.


Na verdade, há já algum tempo que Serafim temia que aquilo acontecesse.
Há muito que ambos andavam arriscando bem mais do que deviam: mas como poderia ser de outra maneira? A tentação era cada vez maior; o momento de parar cada vez mais difícil de avaliar e o fazer e, tudo isso, numa alcofa que Maria de Fátima cada vez mais caprichava em cuidar: até lençóis de linho já havia no granel do feno, guardados numa pequena arca escondida a um canto.

Recordar tudo isso levava Serafim a uma introspecção cada vez mais profunda. Mais do que cisma, era um ensimesmar em busca de soluções para aquilo que ele já tinha percebido ser consequência do atrevido aproximar do filho mais velho do patrão da mãe de Maria de Fátima, um aconchego que parecia ser consentido, se não mesmo protegido, por “Maria Bela”. Desfechos que, alguns dos quais, já lhe tinham ocorrido ainda antes da confidência de Maria de Fátima: sair dali; fugir com ela… mas para onde? Talvez para o pequeno povoado lá para a extrema Oeste da ilha de onde tinham vindo quase todos o que agora habitavam o mais importante núcleo habitacional de São Miguel? Talvez para o interior, na encosta Norte do alto maciço montanhoso que marcava a orografia da ilha para aquelas bandas, para onde, dada a fertilidade do solo, já se começavam a deslocar alguns colonos?
Talvez mesmo para Santa Maria, quem sabe, pelo menos lá o mar estaria sempre muito presente!

Para algum lugar seria: permitir que o atrevido varão e “Maria Bela” os separassem é que nunca!

 

 

Estava Serafim envolto naquele novelo sem fim de pensamentos que lhe tolhiam o discernimento desde a noite anterior quando, como se fosse uma assombração, na sua frente apareceu “Tio António Cafua”, o tão soberbo quanto sisudo feitor do patrão de “Maria Bela”, cumprimentando-o e secamente iniciando uma conversa, o que para Serafim, também por não ser nada habitual, o deixou inicialmente como que petrificado.
– Bom dia, haja saúde – começou por dizer “António Cafua”, homem que até tinha fama de pouco falador.
– Não me pareces bem – continuou ele –, vejo-te aí olheirado, com ar de combalido, como que matutando em todos os problemas desta santa terra. Tu não tens idade para isso!
Serafim tentou disfarçar mas, suspeitando que “Tio António Cafua” ali estivesse, a pedido de “Maria Bela” ou até do patrão de ambos, para acrescentar ainda mais razões à sua já enorme preocupação, nem conseguiu pronunciar nenhuma palavra, limitando-se a abanar a cabeça, num sinal pouco expressivo, que tanto podia ser “um não” como um “ai que agora é que são elas”, para logo tirar os olhos do horizonte e baixá-los até à calçada que arrematava a entrada do barracão que servia de oficina ao pai.
 “Eh home” – continuou “António Cafua” –, trago uma notícia que espero te venha animar.
Pela primeira vez Serafim ganhou coragem para encarar o seu interlocutor olhos nos olhos, balbuciando ainda de forma insegura:
– Diga lá então “Tio António” o que o trouxe aqui logo pela luz da manhã!
 Sabes – respondeu o carrancudo feitor –, estamos este ano novamente a contar contigo para integrar o grupo que vai caçar para as bandas da ponta delgada. Foi o meu patrão quem pediu para avisar-te com antecedência pois pretende que, desta vez, sejas tu a pilotar a “barca grande”.

Serafim, que de início estranhara e até temera aquela aproximação, começava por fim a sossegar. Na verdade, por a considerar extemporânea, até sentiu algum receio quando o feitor do patrão de “Maria Bela” dele se acercou. Agora, mais tranquilo, até se sentia lisonjeado, pois aquele convite, para mais feito com aquela antecedência, também representava o reconhecimento das suas capacidades.

 

 

A “barca grande” era a que transportava até ao "lugar da ponta delgada" os cómodos que permitiam facilitar a estadia por aquelas bandas dos senhores que organizavam a caçada.
Nela se transportavam as tentas e os demais apetrechos para montar o acampamento daqueles que, nem mesmo a divertirem-se, prescindiam do conforto a que estavam habituados. Aquela era a embarcação que chegava primeiro, um dia antes de todos as outras, partindo também quase um dia após as demais.
A sua companha era escolhida a dedo, até por ser gratificada bem para além do habitual, incluindo um generoso quinhão em dinheiro.
O antigo timoneiro da “barca grande” fora mestre “Zé Peixinho”, reputado homem do mar, entretanto gravemente achacado. Substituir mestre “Zé Peixinho” era honroso, mas, e tão importante quanto esta honra, naquele delicado momento, seria a oportunidade de, com aqueles dois dias a mais de estadia lá para Loeste, verificar e pensar melhor numa ideia que, em consequência do turbilhão de pensamentos que o atormentavam, com a proposta de “Tio António” lhe ocorrera de imediato e cuja aceitação da mesma lhe poderia proporcionar.

 

 

Serafim agradeceu terem-se lembrado dele. Aceitou de imediato a incumbência e, mesmo não o deixando transparecer, vislumbrando uma solução para o seu problema, começou a ganhar a tranquilidade que nas últimas horas havia perdido.
Sim, ocorreu-lhe que fugir com a sua amada para “o lugar da ponta delgada” poderia ser melhor que furtar-se com ela para qualquer um dos outros locais que lhe calhara lembrar: lá mar havia; peixe também e muito; o mesmo acontecia com carne, encontrasse ele forma de apanhar, amiúde, nem que fosse só uma das muitas crias de porcos monteses por lá existentes; água potável também sabia Serafim existir, quer numa pequena ribeira mais a Poente da enseada em que varavam, quer numa outra, exactamente em sentido contrário, um pouco mais longe mas de acesso mais fácil e com maior caudal; e, sobretudo, sossego não faltaria… pelo menos durante um ano, até regressarem de novo para ali irem caçar.
No entretanto o tempo ajudaria a encontrar uma melhor alternativa.

Parece que, finalmente, Serafim tinha encontrado a solução para a sua enorme inquietação, com aquele antecipado convite ajudando-o em muito.
Com o novo encargo e a delonga na viagem que o mesmo exigia, tempo não faltaria para ver, verificar e acertar eventuais pormenores.
Agora a decisão estava nas mãos de Maria de Fátima: quisesse ela embarcar na aventura. No momento certo logo se haveria de ver!  

 

 

 O aproveitar da ida à coutada de Loeste

 

 

 

 

Aproximando-se o São Martinho, chegou o, por quase todos, ansiado dia da partida para mais uma caçada.
Rapidamente carregada, a “barca grande” fez-se ao mar ainda o Sol não tinha nascido. Com o bom tempo e os ventos favoráveis que se faziam sentir, tudo indicava que, ainda antes do meio-dia a embarcação já estivesse fundeada no lugar onde em cada ano habitualmente ficava: ao largo da pequena baía que precedia a Ponta Delgada, o seu lugar de destino, o último naquelas paragens que permitia desembarcar e até colocar a seco pequenas embarcações.


A enseada, que para quem vinha de Nascente precedia a Ponta Delgada, era singular. Delimitada por duas pontas que só mesmo próximo se tinha a verdadeira noção das mesmas, aquela calheta, a Poente, protegida pela Ponta Delgada, continha no seu interior uma segunda enseada, mais pequena mas muito segura porque recortada terra adentro, esta sim com o fundo todo em areia, ali retida por um penedo oval, depois baptizado de “Cunhal da Maré”, que na preia-mar parecia flutuar como que a indicar ser por ali a melhor forma de chegar a terra e recolher as embarcações.
Na outra banda, a Nascente, a Ponta das Entradas, também dita “dos Algares” e mais tarde “das Aringas”, mais curta e bem mais alargada, mesmo mais larga que comprida, era retalhada por um conjunto de poças e poceirões, devendo o seu nome às duas entradas, enormes, para outras tantas grutas vulcânicas que até ali, outrora, tinham canalizado a lava que a constituíra e agora, como se fosse a borda de um naperon, a guarnecia, prolongando-a depois abaixo do nível do mar com dois baixios, entre os quais e a Ponta das Entradas propriamente dita era possível navegar.
Outra das suas singularidades eram as duas nítidas plataformas que a constituíam, ambas separadas por outras tantas falésias, não muito altas, mas suficientemente celsas para tornarem perfeitamente distintos e visíveis os patamares que delimitavam: um, desde o mar até à primeira arriba, constituído por alguns, poucos, penedos, vasto calhau rolado que aumentava de calibre à maneira que se afastava do mar e muita areia grada, sobretudo na extrema Poente, recortada pela tal enseada de areia, a mais profunda no recorte da costa, como já se disse. O outro, já em terra matosa, tipo planalto amplo e generoso, repleto de vegetação rasteira, ponteado ao fundo, já no sopé do segundo talude, por dois ou três bosques, onde predominavam faias e loureiros.
Apesar de baixa, esta segunda falésia, a que separava o calhau propriamente dito da terra já consolidada, aumentava em altura, quase para o dobro, à maneira que se afastava da Ponta Delgada e se aproximava da Ponta das Entradas.

 

 

Serafim, chegado a terra firme num dos primeiros bateis que efectuava o transbordo, antes de mais nada, colocou-se sobre a extrema Poente da primeira falésia para, de frente para o mar, e aproveitando a forma como o Sol, naquele dia, àquela hora, iluminava toda aquela zona, confirmar as lembranças do que vira pela última vez há cerca de um ano, as mesmas que nos últimos dias, com esforço, tentava recordar.
E, sim, a sua memória não o traíra: à sua direita lá estava a pequena enseada de areia, completamente protegida; a seus pés, dois ou três metros abaixo, estendia-se uma série de penedos e fragas redondas de grande calibre, seguindo-se, alguns metros mais à frente, o calhau rolado, primeiro grado mas que quanto mais se aproximava do mar mais miúdo se tornava, em cuja borda direita, a delimitar a segura enseada, exibia-se então, com alguma imponência, o “Cunhal da Maré”, naquela ocasião, com a maré cheia, com o mar a banhar-lhe a base, reforçando a ideia de parecer flutuar. E, estivesse a maré vazia, com certeza também viria, como a memória lhe recordava, a generosa faixa de areia muito fina que naquela zona da enseada – e só nela – ficava a seco na vazante.
Bem mais lá fora, já em mar profundo, como que cuidadosamente alinhada com a Ponta Delgada, lá estava a “barca grande” que, com aquele mar sereno, nem balançava.
Varrendo o olhar para a esquerda, e seguindo uma linha recta imaginária iniciada no “Cunhal da Maré”, lá estava do outro lado a Ponta das Entradas, com os entremeies de basalto que a caracterizavam, ora em falta, formando poças, ora em excesso, pulverizando de penedos e até criando os dois baixios a ela fronteiros.

 

Revista que fora toda a panorâmica, confirmadas as memórias que acalentava, faltava agora seguir, como lhe haviam sugerido, pela borda daquela falésia até ao outro lado da enseada, para, aproximando-se deste, concentrar a sua atenção numa terceira gruta, a única que ainda não conhecia, e que, sendo seguras as informações recolhidas, estava dissimulada num pequeno bosque loureiros e faias a umas cem braças para o interior, no exacto enfiamento da primeira língua de basalto que marcava a face Poente da Ponta das Entradas.

Seria este o passo seguinte, mas não para agora.

 

 

Serafim já tinha decidido.
A ideia, desde que lhe haviam incumbido a nova tarefa para a campanha daquele ano, a cada dia que passava ficava mais consistente, reforçando a convicção de que “o lugar da ponta delgada” seria o melhor destino para a fuga que teria de encetar com a mãe do seu futuro filho, o mais rapidamente possível. Daí que, no entretanto, mas sem dizer para onde, Serafim já tinha, aos poucos, iniciado a fase de habituação de Maria de Fátima à ideia de que, antes de começar a ser notada a sua gravidez, deveriam sair daquele povoado, para mais, porque em breve, como se anunciava, o mesmo iria passar a ser a segunda vila dos Açores, reforçando o poder de quem nele, e neles, mandava.

Sim, estava decidido: seria para “o lugar da ponta delgada” que fugiria com Maria de Fátima. Mas, e ela… como reagiria, sabendo tratar-se de um lugar ermo?


Fora já com estas ideias a agitar-lhe o pensamento que, naquele dia, horas antes de ir para o porto, Serafim tinha colocado numa caixa algumas das ferramentas que dispunha e, para além destas, enrolado numa trouxa de espadana meia dúzia de alfaias, aquelas que entendia poderem vir a ser indispensáveis nos próximos tempos: uma enxada, um alvião, um machado, uma foice, e outras. Também, e ainda antes de qualquer outro companheiro aparecer no cais, Serafim tinha já acomodado na “barca grande” aqueles seus pertences. De facto, todos estes utensílios já lá estavam, devidamente ajeitados sob a cobertura da ré, ainda antes de na “barca grande” começar a entrar a mercadoria que lhe estava destinada.
Com a inquietação cada vez mais premente, fora também pensando onde e como, já no “lugar da ponta delgada”, haveria de acautelar aqueles dois volumes que Serafim, com a aragem do mar soprando-lhe na cara como que a alimentar a imaginação, fez toda a viagem. E, claro, foi na sequência de tudo isso que ele, como que obcecado, enquanto o restante grupo descarregava a “barca grande”, esquivou-se desta tarefa, foi direito a terra, subiu a falésia até à chã que a encimava e, posicionando-se por forma a rever, agora com outra finalidade, as reais características daquela zona, ali estava preocupado em, entre o mais, garantir o lugar mais adequado onde deveria deixar a preciosa primeira remessa dos bens que para ali havia transportado.

Como tinha calculado à partida, antes da paragem para a refeição do meio-dia já toda a principal carga tinha sido colocada em terra a modos de se iniciar a montagem das tendas e outras acomodações que, a partir do dia seguinte, haveriam de garantir, no “lugar da ponta delgada”, o repouso dos senhores que toda aquela empreitada patrocinavam.
Para todo o grupo seguiu-se-lhe de imediato a refeição e os momentos de descanso que esta proporcionava. Não para Serafim. Apesar do dia para ele ter começado bem antes do que para todos os restantes companheiros de viagem, Serafim não parou para se alimentar, tampouco descansar. Em vez disso, aproveitou o momento e o sossego proporcionado por aquela paragem colectiva para continuar a esmiuçar aquele vasto espaço, em especial a sua extrema Nordeste, onde diziam existir a terceira gruta.

Em anos anteriores Serafim já tinha estado na proximidade da entrada das duas grandes grutas que davam nome à ponta que a Nascente definia a enseada, e, sabia também, não por a conhecer mas porque dela já ouvira falar, da existência de uma terceira caverna, com a entrada bem menor que as outras, localizada a Poente destas e um pouco mais no interior, já sobre terra firme, e não sobre as rochas banhadas pelo mar como acontecia com as duas grandes.
Interessava-lhe agora, mais do que nunca, conhecer em detalhe todo o local, para assim avaliar da possibilidade de em algum lugar poder deixar os volumes que trouxera, bem como considerar da sua valia como área de apoio para a ousada empreitada que planeava executar. Para isso, enquanto todo o grupo retemperava forças com a refeição, Serafim sacrificava aquele tempo de descanso de que tanto necessitava para, cirandando ao longo do topo da baixa falésia que definia a Norte a baía, procurar, de início sem sucesso, a caverna que ele desconhecia mas muitos diziam existir.

A refeição terminou. Seguiu-se-lhe de imediato, como em anos anteriores, a limpeza do terreno para montagem das tendas.
Serafim continuava indiferente a tudo isso, calcorreando todos os recantos daquela chã, em especial os situados a Nordeste e destes, de forma muito cuidada, aqueles que tinham combros onde as faias e ou loureiros medravam. A tarde passou, já se falava em cear e dormir e, apesar do esforço, a terceira caverna ficou por encontrar.
Foi neste altura que ele fez então uma pausa. Chegou-se para o grupo mas manteve-se cabisbaixo e sem dirigir palavra a quem quer que fosse. Esta diferença de comportamento foi muito notada, mas logo justificada pelo grupo com o facto de Serafim já andar assim há algumas semanas, acrescentando alguns deles que devia de ter a ver com algum conflito existente com o pai, já que também, de algum tempo para cá, ele deixara de ser visto diariamente na oficina, como era seu hábito.

Também era habitual que na noite que precedia a chegada dos senhores todo o grupo usufruísse do conforto das tendas. E assim foi, recolhidos à abrigada, uns mais cedo, outros depois de algum assarapanto causado pelo forçado convívio, ainda mal fechara por completo aquela noite de Novembro e já todos dormiam.

 

 

No dia seguinte, a meio da manhã, chegaram os restantes barcos e já mesmo naquela tarde o grupo de caçadores com os homens que lhes apoiavam e os cães que tinham trazido iniciaram a caçada anual que tanto os entusiasmava.

A batida do primeiro dia fazia-se sempre cobrindo a zona a Nascente, terreno mais fácil de calcorrear por ser plano e ter mato menos denso, desde que não se afastassem muito da orla marítima. Em contrapartida, era também uma área menos farta em porcos monteses, já que estes pareciam preferir as zonas mais altas que havia no interior mais a Poente, anos mais tarde assenhoreada por Francisco Ramalho, de quem viria a ganhar o nome: Ramalho. 

Como sempre, aquela primeira jornada, que durou até o Sol se pôr por completo, apesar do entusiasmo e da muita energia nela colocada, não rendeu mais que dois ou três exemplares.

 

 

Serafim optou por não acompanhar os caçadores continuando em busca da caverna de que lhe haviam falado, a terceira daquela zona, a única que não conhecia e na qual colocava a grande esperança de na mesma fazer o seu principal ponto de apoio quando por ali começasse a viver com Maria de Fátima.
É que, as outras duas cavernas, embora grandes e aparentemente seguras, eram por demais conhecidas por todos, até por serem uma das fontes de água potável naquelas paragens, com os poços que a acumulava ao pingar da abobada e de algumas paredes, sempre arejados naturalmente que estavam, a serem fartos em água fresca e límpida, como nem a da povoação principal. Água esta que estava mais próxima e era bem mais fácil de aceder do que a de qualquer uma das duas ribeiras, na prática grotas, que havia por perto: uma a Poente, a pouco menos uma légua de distância, mais tarde chamada “Grota da Nordela”, talvez porque a água que na sua parte final corria, principalmente de Inverno, ter um curso Norte/Sul quase como que alinhado a régua e esquadro; e a outra, a Nascente, depois chamada de “Valverde”, condizendo o seu nome com a verde e luxuriante vegetação que a ladeava ao longo do pouco acentuado vale onde corria, ribeira esta que, para a ela se chegar, exigia andar um pouco mais.

 

Insistindo na procura, por fim Serafim encontrou a terceira, e bem camuflada, gruta.
Sim. Lá estava a dita caverna, cuja boca, embora permitisse a entrada de um homem à vontade, nada tinha a ver com a grandiosidade das outras duas. Nem a entrada nem o seu interior. Era muito mais baixa e pequena, nem dois metros de altura tinha e, quanto à sua profundidade, terminava numa garganta afunilada, seis ou sete metros depois da entrada.
Muito, muito mais tarde, provavelmente dada a alcunha de alguém que durante algum tempo a habitou, esta gruta e as arribanas que em sua volta foram construídas ganharam o nome de “Casa da Meloa”.
Tal como também lhe tinham dito, a gruta estava bem dissimulada numa frondosa moita de faias, tendo a sua entrada ligeiramente orientada a Nascente, não para Sul quase em esquadro com o mar como as demais, justificando-se de certa forma assim a dificuldade que tivera em a encontrar.

Mas já a achara e isso ajudara-o a definir o lugar onde deixar a caixa e o fardo com os seus pertences, pois não havia dúvidas que ali estes ficavam bem acomodados. Depois, o resto logo se veria como resolver.
Estava decidido. Agora era esperar pelo momento certo e, principalmente, pela reacção de Maria de Fátima a tão inusitada gesta.

 

 

 O regresso à povoação franca

 

 


 

A caça naquele ano foi farta. Superou a de todos os anteriores. Não era de admirar, foram também muitos mais os caçadores e os seus aios.
Mas tudo isso como que passou despercebido a Serafim. Ele já só pensava no dia de regresso; no que Maria de Fátima lhe diria quando a informasse para onde seria a fuga; na segurança que o seu pequeno batel podia garantir para fazer aquela viagem, sobretudo por, além de trazer Maria de Fátima, ter de o carregar como nunca até ali o fizera.
Ele pensava, acima de tudo, já no dia em que regressaria ao “lugar da ponta delgada”, para por ali se estabelecer e passar a viver, mas no seu barco, com a sua família e o mais que pudesse trazer para tornar mais fácil aquela vida nova.

 

Estava Serafim ainda envolto nestes pensamentos quando, embicados à Ponta da Galé, começaram a regressar os primeiros barcos.
A meio da manhã ali já só restavam dois: o que transportaria os porcos já desmanchados e salgados e a “barca grande”, por ele comandada, a primeira a chegar e última a sair, pois só o poderia fazer depois de todo o acampamento estar desmontado e o material que o constituía embarcado.
Já se carregavam as últimas peças de carne na “barca da salga” quando a Serafim ocorreu a ideia de, por ali, no “lugar da ponta delgada”, deixar parte do seu quinhão da caça.
Tão depressa pensou nisso como logo passou à acção.
Usando uma das vasilhas empregues para transportar água potável durante as viagens, retirou-lhe com jeito a tampa mais pequena, aquela onde estava o orifício que tapado com um batoque garantia dentro dela o líquido para cujo porte fora concebida, encheu-a com algumas peças de carne e outros tantos bocados toucinho, usou sal para acucular todo o restante espaço interior e voltou a colocar a tampa, agora trancada com três espessos galhos de louro que, atravancados contra as bordas do casco, garantiam a fixação daquela improvisada cobertura.
De seguida, ainda imbuído pelo mesmo impulso, voltou à gruta onde tinha deixado as ferramentas e as alfaias, depositando nela este terceiro volume, com o qual, de certeza, mesmo a desgosto, se necessário fosse, garantiria algumas refeições de carne enquanto se não ajeitasse a caçar ele próprio, já que quanto a pescar não teria problemas.

Colocada na água a “barca da salga”, deu-se e de imediato início à tarefa de carregar, batel a batel, a “barca grande”.
Não era pouco o material que garantia algum conforto aos caçadores. Quanto aos aios e aos outros contratados para a empreitada, cada um que se desenvencilhasse como melhor pudesse. Dormir às estrelas envolto numa manta de lã era a regra. Os barcos varados em terra também acomodavam alguns. Isso sem contar com a primeira noite, nesta, todos os que chegaram mais cedo para garantir as comodidades de alguns, também eram beneficiados com o conforto que a outros se destinava.

O Sol ainda estava a pino quando todos já tinham deixado o “lugar da ponta delgada” rumo à grande povoação que, não tardava nada – nunca se fartavam de o dizer os senhores –, seria vila, pois o seu foro já estava em mãos de D. Pedro, regente de D. Afonso V, então imberbe Rei de Portugal e dos Algarves.

 

 

A chegada ao destino da “barca grande” aconteceu ainda o Sol iluminava abundantemente, naquele momento, o espelhado canal entre o Ilhéu e o povoado.
Descarregar e colocar tudo nas carroças de cada um dos proprietários levou algum tempo, mas ainda não era noite quando os quinhões se distribuíram e os feitores fizeram contas com os contratados.
Serafim era um deles. Não disse que já tinha ficado com a parte do seu quinhão que antecipadamente guardara, apesar de, no “lugar da ponta delgada”, ter a certeza que ninguém dera pela sua última manobra, porém recusou-se a ficar com tudo o que lhe cabia e, do pouco que ficou, quase de imediato foi entregar a um dos vizinhos, ademais alguém necessitado.

Na verdade, além do que tinha feito ainda no “lugar da ponta delgada”, e que só ele sabia, Serafim também estava certo que em sua casa a carne de porco não era muito apreciada. Por um lado o peixe não faltava, por outro, Serafim pai, mesmo que o não fizesse com grande rigor, mantinha a tradição familiar de não comer carne de animais não ruminantes. Os porcos que criava eram para engrossar o “pé-de-meia”, não prioritariamente para alimentação!
E, se assim acontecia com o pai, com Maria, mãe de Maria de Fátima, tanto pior. Para ela, comer porco só mesmo quando era obrigada – para não ser sujeita a criticas da família que servia – e, mesmo não fora por isso, na presente ocasião, com tudo o que estava a acontecer, quer porque ambos estavam cada vez mais afastados um do outro, quer, e sobretudo, porque não lhe interessava nada levantar suspeitas, quaisquer que fossem, estava completamente fora de causa fazer-lhe chegar em oferta a sua parte do quinhão.
Quanto ao dinheiro, este sim, estava destinado. Bem destinado!

 

 

Após ter recebido o que lhe competia, Serafim saiu do porto directo a casa dos patrões da mãe de Maria de Fátima. Tinha que falar com ela rapidamente!
Passou nos locais de costume com a esperança da amada, caso já soubesse da sua chegada, tivesse deixado por lá os sinais combinados, o que lhe permitiria saltar o muro em segurança para caírem nos braços um do outro. Mas não haviam sinais…
Depois de permanecer por ali mais um pouco na expectativa de ser visto e ainda ser possível estar com Maria de Fátima naquela noite, o que não aconteceu, Serafim dirigiu-se finalmente a casa, onde o pai, depois de o abraçar, colocou-lhe as perguntas óbvias sobre como tinha corrido a viagem e a caçada.
Mais do que respostas, Serafim disse ter oferecido o seu quinhão de carne ao vizinho que ambos sabiam além de necessitar também apreciar e, logo ali, entregou o dinheiro acabado de receber por conta da jornada.
O pai, como sempre acontecia, sugeriu-lhe que ficasse com algum para si. Serafim recusou, pedindo-lhe em troca dois favores: primeiro que acabasse em seu lugar o trabalho para o “Zé Lanchinha”, já que a tarefa, além de atrasada, parecia nunca lhe sair a jeito, tantas foram as vezes que fizera e desfizera o mesmo trabalho sem ainda o considerar em condições. O segundo, adiantou logo ele – "mais fácil mê pai" –, é que eu pudesse levar da capoeira duas galinhas e um galo, promessa que tinha feito a alguém e queria honrá-la, detalhou.
O pai estranhou, mas acedeu. Nas galinhas nem pensou mais, mas o facto do filho, orgulhoso como era, lhe pedir para terminar um trabalho do qual não dava conta era coisa nunca vista.
– Há sempre uma primeira vez –, murmurou, quase verbalizando, a modos de ser ouvido.

 

 

Já recolhido na cama, Serafim começou a passar em revista o que teria de fazer com urgência:
Tinha de encetar a viagem para “o lugar da ponta delgada” nos próximos dias, antes que a lua mudasse e com ela se fosse aquele prolongado “Verão de São Martinho”, onde o “mar chão” e as suaves brisas que se sentiam tudo facilitaria; tinha que falar imediatamente com Maria de Fátima, não só para lhe dar conta dos detalhes do seu plano mas, e fundamentalmente, para ela ter tempo de se preparar e aprontar o que pudesse levar consigo; para as galinhas já tinha solução, mas ainda havia que ver como levaria consigo uma das ovelhas, de preferência aquela que estava já para ter cria; não podia faltar uma saca de trigo e outra de cevada, quer os animais, quer eles próprios necessitariam dos cereais; nem se esquecer do moinho de mão, duas rústicas pedras que engrenadas uma na outra em movimentos giratórios transformavam o grão em farinha, instrumento que o pai deixara de usar por ter conseguido um com o granulado das pedras em melhor estado. Isso tudo e o muito mais que ele temia poder esquecer.
Ainda pensou em levar um pipo de vinho, o que misturado com água e farinha, depois de cosido, daria sempre uma refeição muito energética. Mas o seu batel não tinha espaço para tanto. Levaria sim uns galhos de videira, o que, correndo tudo bem, daqui a uns dois ou três anos lhe proporcionaria ter o seu próprio vinho. Tal como, para além dos cereais, levaria também umas sementes de legumes e leguminosas: com sorte, e se colocadas em lugar apropriado, não tardaria nada e mesmo no “lugar da ponta delgada” já comeria couves, feijões e outras novidades por si semeadas.
Porém, o mais urgente era falar com Maria de Fátima. Não havia tempo a perder. O dia que se seguia era de enorme importância.

E foi assim, cansado do corpo e da mente, que Serafim começou a dormir naquele dia.

 

 

Já o sol ia alto quando Serafim acordou na manhã seguinte.
Ainda estremunhado, saltou da cama, refrescou a cara, passou rapidamente água nos sovacos, vestiu-se e foi rondar a casa senhorial na ânsia de ver e falar com Maria de Fátima.
Não encontrando, nem a ela nem os sinais que lhe permitiriam guindar o muro para ir ter com ela em segurança, ocorreu-lhe ir às pias da ribeira, onde uma das serviçais da casa, “Rosa Branca”, diariamente lá costumava ir lavar roupa.

“Rosa Branca” era uma negra albina, de nome Rosa e alcunha Branca, pois branca era a sua pele, tal como também alva se exibia a carapinha que, sempre bem penteada e presa, lhe acrescentava aquele ar de flor exótica que ostentava. “Rosa Branca” era uma das poucas criadas daquela casa na qual Serafim confiava. Assim era porque nela também muito confiava Maria de Fátima, que “Rosa Branca” ajudara a criar e a fazer crescer.

 

Como imaginara, e era habitual, lá estava “Rosa Branca” esfregando roupa contra a pedra que servia de escorredouro à água que diluía a abundante barrela de sabão por si sempre usada.
Sem perder tempo, Serafim aproximou-se discretamente dela e, murmurando, fez-lhe um pedido que poucas horas depois veria que fora concretizado.
De facto, ainda era dia, embora já esmorecido e a escurecer, Serafim voltou a passar em frente à casa que abrigava a sua amada para, depois de confirmar que ela deixara visíveis os sinais combinados, dirigir-se ao muro do fundo, escala-lo, descer pela figueira e ir esconder-se no telheiro aguardando por Maria de Fátima, desta vez ainda sem ela lá estar.
Mas não demorou muito a espera. Pouco depois de Serafim ter chegado apareceu Maria de Fátima que, correndo para ele, lhe envolveu o pescoço com os seus braços, iniciando-se mesmo ali, no telheiro, a abrasada união que até então só o granel de feno testemunhara.
Passados uns segundos, ainda arfando, Serafim sussurrou ao ouvido de Maria de Fátima:
– Fátinha, já decidi, é para o “lugar da ponta delgada” que vamos fugir para seguir com a nossa vida e criar o nosso filho.
Maria de Fátima como que congelou com a surpresa mas, decidida a tudo como estava, ainda para mais porque a mãe já lhe começara a fazer perguntas, estranhando o seu comportamento e modo de estar, apenas lhe respondeu:
 E quando saímos daqui?
– O mais depressa possível – respondeu-lhe Serafim – esta noite mesmo se assim pudesse ser, mas não pode, há coisas a terminar. Talvez na madrugada após a próxima noite, pois há que aproveitar o tempo para fazer a viagem em segurança. Vamos fugir no meu barco!

Só então Maria de Fátima começou a “cair em si”: iam e quando voltariam? Como viver longe, sozinhos? E a mãe, como ficaria?
Tudo isso lhe passou de rompante pela memória, mas Serafim, sempre seguro, de enfiada, mostrou-lhe como tudo já estava pensado e preparado.
Disse-lhe que já tinha deixado no “lugar da ponta delgada” utensílios e até alguns alimentos; que, já naquela noite e no dia seguinte se iria ocupar, transportando para perto do porto tudo aquilo que já tinha pensado como necessário e indispensável levar. E, aproveitando agora ele para a envolver nos seus braços num apertado abraço, suplicou-lhe:
 Maria de Fátima confia em mim. Tudo irá correr bem. Deves é preparar o que é teu e o que possas levar em duas ou três trouxas, fardos estes que deveriam ficar mesmo aqui, neste telheiro, para quando te vier buscar levarmos tudo isso connosco. Não te esqueças de juntar aos teus pertences uma trempe e uma panela que são utensílios que não consegui juntar. 
Despedindo-se depois abruptamente com um firme:
 Se não nos virmos antes, depois de amanhã, antes do dia clarear, estou aqui para te ajudar a levar as coisas para o porto…

 

 

 A migração

 

 

 

 

Ao dia seguinte, até ao Sol se pôr, parecia faltarem horas para o muito que havia a fazer.

O barco de Serafim, depois de visto e revisto, já havia sido antecipadamente colocado num lugar específico do ancoradouro, o mais inclinado de todo aquele perímetro, de tal forma pendente que, bastando gerir com perícia o cabo que o amarrava a um penedo, seria possível fazê-lo deslizar até ao mar sem grande esforço.
Desde amanhã, quase que de forma dissimulada, um a um, todos os apetrechos e embrulhos cuidadosamente pensados e por Serafim preparados, foram colocados, bem distribuídos em função do peso e do seu volume, ao longo do casco da embarcação. Estava tudo bem coberto pelo velame, devidamente ajustado pelo mastro da vela e pelo par de remos, o que permitia, além de proteger a carga, esconde-la dos olhares inconvenientes.
Só as galinhas e a ovelha tiveram de aguardar a sua ida até próximo do embarcadouro para depois do anoitecer. Mesmo assim, foram escondidas inicialmente na oficina do pai para, já só com a saída toda preparada, serem também embarcadas.

 

 

Tudo isso feito, já só faltava o mais importante: ir buscar Maria de Fátima e as suas coisas!
É certo que tinham combinado que o faria de madrugada… mas quem podia aguentar até lá? Estas sim, ao contrário de todas as anteriores deste dia, seriam horas infindáveis.

Não contendo a sua ânsia, Serafim pôs-se a caminho da casa onde vivia a sua amada e, mesmo sem se preocupar em verificar os sinais que lhe garantiam alguma segurança para saltar o muro, galgou-o, tal era a agonia em confirmar se estava em andamento o combinado de véspera.
Não obstante a penumbra que preponderava no palheiro, Serafim sentiu um enorme alívio ao verificar que lá estava o combinado: uma saca, dois fardos e até os utensílios de cozinha solicitados à última da hora.
Sem perder tempo, o ágil jovem pegou num dos fardos, na trempe e na panela e, trepando pela figueira como se não necessitasse das mãos para o fazer, apressadamente seguiu em direcção ao porto para acomodar mais aqueles volumes no barco.
Terminada mais esta etapa, lá voltou à casa senhorial, guindou novamente o muro, mais uma vez dirigiu-se ao palheiro onde, além dos volumes que deixara para trás na primeira ida, estava agora também Maria de Fátima, com mais um pequeno saco na mão.

De início não houve troca de palavras. Maria de Fátima estava lívida de medo. Serafim abraçou-a, beijou-a, enxugou-lhe as grossas lágrimas que se lhe soltaram dos olhos e, só depois de sentir que ela parara de tremer e soluçar, disse-lhe:
 Fátinha, não vamos esperar mais tempo. A noite está clara, o mar como azeite, é sinal que os deuses estão connosco. Vamos, e é já. Será o que Deus quiser!
O silêncio manteve-se. Era sepulcral. Serafim encaminhou Maria de Fátima para a figueira, ajudou-a a trepá-la, de seguida escalou-a também ele, galgando de imediato o muro para, já do lado de fora, amparar com cuidado a futura mãe do seu filho na transposição daquele obstáculo.
Depois, quase em movimento continuo, voltou a subir o muro, voltou a descer pela figueira, foi buscar os volumes que ficaram atrás, colocou-os do lado de fora e, ele com a saca às costas e o fardo numa mão, ela com a pequena saca na mão, ambos sem olhar para trás, dirigiram-se decididamente para o início de uma vida nova.

 

 

Percorridos os primeiros metros a caminho do ancoradouro, logo que feita a transição da canada lateral à casa senhorial para uma das ruas principais do povoado, aproveitando a claridade da Lua, ali completamente descoberta, Serafim percebeu que Maria de Fátima vacilava, notando-se mesmo um forte cambalear.
Amparando-a e fazendo-a recuar de novo para a esquina da azinhaga, Serafim acariciando-a no rosto perguntou:
 Querida, o que se passa? Diz-me lá o que aflige? Já te pedi para confiares em mim!
Às sussurradas perguntas Maria de Fátima respondeu de pronto:
 Sabes que confio em ti. Mas não sei o que se passa comigo. Ultimamente tem sido assim, aparecem-me como que vidas do nada umas indisposições que nalguns casos só passam depois de lançar o pouco ou nada que tenho comido!
Serafim ficou como petrificado. Não sabia no que pensar, muito menos o que fazer. Naquela altura qualquer moléstia com Maria de Fátima era o pior que lhe podia acontecer. E, depois, dado que iam para onde iam, isolados como ficariam, tanto pior seria.
A bem da verdade tinha-lhe ocorrido que Maria de Fátima, durante a viagem, viesse a ter alguma indisposição. Mas ali, ainda em terra firme…o que seria?
Continuando a acariciar-lhe o rosto Serafim reparou que Maria de Fátima estava a recuperar as suas cores e já sorria, cobrindo-lhe a cabeça com a manta que ela trazia sobre os ombros, incentivou-a:
– Vamos lá, não podemos perder tempo nem ser vistos por aqui.
Ela como que ganhou alento suplementar. Recomeçou a caminhada e pouco depois deste pequeno percalço já estava a repousar da apressada estirada no barracão de Serafim, pai.
Para Serafim, filho, não havia tempo a perder. Após a acomodar o melhor possível na improvisada oficina do pai, foi logo acabar de acondicionar o resto da carga no barco, agora também já os animais, reforçando as amarras nas patas da ovelha, para melhor a imobilizar durante a viagem.
Já com toda a carga a bordo, Serafim, segurando com firmeza a ponta do cabo que dobrava o penedo dele fazendo moitão, deixou deslizar o barco até só a proa ficar em terra para, depois de Maria de Fátima nele embarcar, o deixar entrar completamente na água, saltando depois ele também para o seu interior.

Com o mar calmo tal como estava, bastaram duas enérgicas remadas para colocar o batel fora da restinga que enquadrava o ancoradouro e, já em mar aberto, depois de indicar a Maria de Fátima o melhor lugar a bordo, aconchegando-a na proa por forma a proteger-se da aragem de barlavento, colocou o mastro e içou a vela, aproando ao vento em direcção da Ponta da Galera.

Naquele mar azul esverdeado, aveludado como azeite, onde com o reflexo do luar até se via com nitidez o recorte da costa, a fraca brisa que se fazia sentir impulsionava lenta mas muito serenamente a embarcação, com o cadenciado ruído do rasgar da água assemelhando-se a um agradável sussurro.
Enrolada numa manta e aconchegada nas trouxas de roupa e outros tecidos, Maria de Fátima praticamente dormiu durante toda a viagem, que foi demorada, mas muito tranquila.
Já no céu, por detrás deles, a nascente, despontavam os primeiros raios de Sol quando cruzaram o pequeno ilhéu que a Poente sinalizava o início de um longo areal, onde, a partir dali, havia que guinar a estibordo por forma a embicar à Ponta Delgada.

Serafim chamou então por Maria de Fátima. Já pouco faltava para chegarem ao destino e, além de querer que estivesse bem alerta quando fosse hora de desembarcar, era também importante que ela começasse a conhecer aquela que seria, a partir dali, a sua terra.

 

 

Era já dia claro quando, com o “lugar da ponta delgada” à sua frente, Serafim arreou a vela, preparando-se para levar o barco até ao protegido “Calhau da Areia”. É que, sem vento e mar apropriado para o fazer recorrendo a sua manobra costumeira, a “carreira à Serafim”, que mesmo fossem outras as circunstâncias não seria adequada já que o barco estava demasiado carregado e tinha Maria de Fátima a bordo, restava-lhe colocar o barco em terra à força de remos.
E assim foi: baixou a vela, retirou o mastro do suporte que o sustentava e, com remadas enérgicas, pendendo para bombordo logo depois de passar pelo “Cunhal da Maré”, cravou a proa do pequeno barco na areia permitindo que Maria de Fátima saltasse sem molhar os pés e também ficasse facilitada a descarga daquilo que transportavam.

Após ter sido colocada em terra parte substancial do que para ali trouxeram, o casal dirigiu-se à gruta pequena onde Serafim tinha já havia deixado os pertences que acarretara na viagem anterior, bem como o quinhão de caça que separou para si. Tudo estava como fora deixado.
Ali, depois de lhe improvisar uma tão cómoda quanto possível tarimba, também ficou Maria de Fátima, que entretanto voltara a dar sinais de estar acometida da mesma indisposição que tivera antes de iniciar a viagem.
Já com a companheira em repouso, quase a dormitar sobre o estrado aconchegado de mantas rapidamente montado, Serafim voltou à recôndita enseada, pois a tarefa de descarregar o barco e acomodar tudo o que para ali deslocaram ainda o iria ocupar durante algum tempo.
Um a um todos os volumes foram transportados da beira-mar até ao abrigo que tinham optado ocupar, o mesmo acontecendo aos animais, para os quais também foi encontrada uma forma provisória de os manter por perto, evitando que fugissem.

Agora só faltava colocar o barco bem longe da linha d’água, de preferência também bem protegido das intempéries, mas isso seria tarefa para mais tarde: não só Serafim, que já não dormia ia para três dias, estava a acusar cansaço como, e principalmente, sentia a necessidade de estar o mais próximo possível de Maria de Fátima, até porque continuava confuso e muito preocupado, com aquelas indisposições repentinas… que só mais de um ano depois, com a segunda gravidez de Maria de Fátima, viria, por fim, a saber exactamente do que se tratava. 

Completada a tosca cerca onde colocou os animais Serafim foi directo à caverna onde tinha deixado Maria de Fátima a repousar quando, para seu espanto, ela já estava enérgica e bem-disposta limpando e arrematando o local e as redondezas daquele que por algum tempo haveria de ser o seu lar.
Para maior surpresa de Serafim, ao lá chegar, foi presenteado com uma refeição que apesar de simples: pão, queijo e pouco mais, lhe soube a banquete.
Aquela foi a primeira refeição feita pelo casal no “lugar da ponta delgada”, frugal é certo, ainda provinda de outras paragens, mas bem significativa do sentido de responsabilidade de Maria de Fátima, pois trazer o que comer para as primeiras horas fora coisa que Serafim nunca pensara.

Nos dias seguintes, enquanto Serafim criava condições de habitabilidade num dos dois grandes algares que, dada a sua amplitude, até mesmo só usando parte do perímetro da entrada possibilitava criar vários compartimentos, foi na pequena caverna que repousavam e passavam a noite, tão aconchegados que, por Maria de Fátima ter deixado de apresentar aqueles seus súbitos achaques, ele chegou a pensar que fora a falta dos seus afagos aquilo que os originara.

 

 

No “lugar da ponta delgada” o tempo começou a decorrer rapidamente.
Com o muito que havia para fazer, o Inverno, felizmente não muito agreste, temperava os curtos dias e as longas noites que se lhe seguiam, embora estas, pouco e pouco, reflectissem as condições de conforto do jovem casal ia conseguindo.
Logo, logo a entrada do grande algar ficou parcialmente protegida, demarcada e ordenada. Na zona mais ampla foi criada uma área comum, onde se confeccionavam e tomavam a maioria das refeições. A fogueira que as cozinhava, à noite mantinha-se acesa para, além de proporcionar aquecimento, evitar a aproximação dos animais que a tal se atrevessem.
Todo o requinte porém foi colocado no preparo da zona de dormir, como que recriando a “alcofa de amor” que tinham improvisado no velho palheiro da urbe principal, leito onde geraram o filho que Maria de Fátima trazia em si.


Além da vida bravia já por ali existente, outra, agora domesticada, assomava aos poucos no “lugar da ponta delgada”.
Já havia alguma terra desbravada e arada, aguardando a melhor altura para ser semeada; duas das galinhas que trouxeram tinham descascado pintos, alegrando-os com os pios sempre que de cada um deles se aproximavam; até a ovelha já parira, excepcionalmente um casal, obrigando-os a grande cuidado na partilha do leite para que fosse possível amamentar ambas as crias e ainda deixar algum, pouco que fosse, para tonificar Maria de Fátima que, dia após dia, exibia uma avantajada barriga, adentro da qual também já se sentia vida em movimento.

O muito peixe que havia por ali, pescado mesmo da pedra, algum não muito longe do algar que lhes dava abrigo, num grande e fundo poceirão até ao qual se chegava saltando duas ou três poças, contribuiu, e muito, para que o casal fizesse uma alimentação farta. A carne que Serafim deixou em salga e os cereais que consigo trouxeram também ajudou, tal como para isso ajudou a contribuir os ovos que as galinhas lhes proporcionavam e os dois ou três bácoros que, sem grande esforço, apanhou nas redondezas.

A sua vida naquele lugar como que já normalizava, ganhando as rotinas que preenchiam os dias ao casal.
Ainda lusco-fusco, Serafim, depois da primeira refeição, dirigia-se ao “Calhau da Areia” para verificar o seu barco, rectificar as amarras e ajeitar a cobertura que o protegia. De seguida, dependendo do estado do tempo ou da maré, pescava durante umas horas. Só depois vinham então as tarefas da terra, desbrava-la e cultiva-la tornando-a produtiva.
Por sua vez Maria de Fátima, após adiantar a ceia, tratava dos animais, alimentando-os depois de recolher os ovos e ordenhar a ovelha. Regressada a casa, continuava sem lhe faltar o que fazer, já que manter aquele espaço limpo, asseado e funcional a ocupava muito tempo.

Com o aproximar da Primavera a paisagem por ali já parecia outra. Muito do mato tinha dado lugar a um vasto espaço domado, algum já a produzir, sobretudo hortaliças que com os ovos e leite complementavam a dieta a que se tinham de sujeitar.

O casal respirava saúde, Serafim enxuto e sempre enérgico, Maria de Fátima cada vez mais bonita, mas agora roliça e com alguma dificuldade em movimentar-se, adivinhando-se que o nascimento do filho estava para breve.

 

Chegou por fim a Primavera e, com ela, o grande dia. Foi na madrugada do primeiro equinócio que passavam no “lugar da ponta delgada”!
Depois de algumas horas difíceis, chegou por fim, no meio de muitos ais e suspiros, o grande alívio, a que lhe seguiu, tipo grito de libertação, o sonoro e ecoante: "Se..ra..fim…Se..ra..fim…"
Tudo indelevelmente marcado com sangue, suor e lágrimas, a tudo acrescendo muita, mas mesmo muita, alegria.

 

 

 De coutada de caça a “lugar da ponta delgada”

 

 

 

 

Serafim, neto, o primeiro nado no “lugar da ponta delgada”, dia após dia revelava-se uma cria sadia e robusta. Bem cuidado e alimentado por uma mãe que o amamentou longa e generosamente, o bebé medrava como o fazem quase todos os carpos de uma Primavera afrutada.
Logo naquele Verão, ainda nem andava e, sob os atentos olhos da mãe, já se banhava chapinhando, com o corpo mergulhado até quase às axilas na límpida água de uma das poças que ficava entre a Ponta da Entrada e o “poceirão” onde o pai pescava.
Com água quase pelos joelhos, sentada numa ampla pedra lisa que parecia ali colocada exactamente para servir de banqueta, Maria de Fátima via orgulhosa o desembaraço com que o filho lidava com a água, bastando-lhe dar um dedo para ele se segurar e assim apreciar como, meio a flutuar, o rebento ensaiava os primeiros passos.

Ao início da noite, agora bem curtas, as conversas do casal, o mais das vezes não escondendo desacordo, versavam o se, e o quando, haveriam de regressar à urbe principal para mostrar o filho aos avós.
Para Maria de Fátima deveria ser o mais rapidamente possível. Serafim porém, com jeito para não a contrariar muito, encontrava desculpas para que esta viagem não se fizesse antes da próxima temporada de caça. É que, dizia ele:
– "Intê lá" continuamos em sossego e, depois de eles por aqui passarem novamente, como todos vão ficar a saber onde estamos, já nada perdemos em lá voltar. Mas – rematava sempre – olha Maria de Fátima; é ir e vir!
E foi assim que um dia aconteceu!

 

 

Tal como já se tornara hábito, no fim de Outubro, início de Novembro, os Senhores da povoação principal lá se destinaram a ir, novamente à caça dos porcos bravios.
Como sempre, um dia antes dos restantes barcos, chegou a “barca grande”, de novo comandada por mestre “Zé Peixinho”, que apesar da sua adiantada idade, recuperado que estava da maleita que o prostrara no ano anterior, perante o estranho sumiço de Serafim voltou ao comando da mesma.

Ainda antes de fundear “barca grande” ao largo da enseada, logo à primeira vista foi notória a enorme diferença que os visitantes tinham perante os seus olhos. Porém, o grande espanto, ou melhor, o esclarecimento sobre tamanha surpresa foi, ao chegarem a terra com o primeiro batel, verem Serafim esperando-os.
Mestre “Zé Peixinho” foi cumprimentado com mesura, mas aos velhos companheiros Serafim presenteou-os com apertados abraços e, a todos, quase de imediato, explicou o que se havia passado ao longo do último ano. Os
dois elementos mais jovens do grupo, pouco mais velhos que Serafim e ainda solteiros, não se contiveram perguntando:
 Serafim, depois da caçada podemos ficar aqui contigo?
Serafim sorriu!

 

 

A caça naquele ano, para mais tendo como comparação a fartura que apresentara a do ano anterior, foi decepcionante: com o mesmo número de homens e prolongando-a ainda mais um dia, nem redeu metade. Os porcos estavam arredios, esquivos. Para o lado Nascente não viram um animal que fosse e, para o interior e Poente, só mesmo nas encostas das serranias do meio da ilha apareceram os primeiros.

Só passara ainda um ano mas o “lugar da ponta delgada”, embora continuando um “solitário ermo”, estava no entanto a deixar de ser selvagem, a transformar-se de coutada de caça em berço de algo muito importante que surgiria alguns anos depois: uma nova e relevante localidade.

 

Depois de regressarem os caçadores a suas casas, na sequência das muitas conversas havidas até ali pelo casal e de outras entretanto tidas por aqueles dias com “Tio António Cafua”, o feitor do patrão de “Maria Bela”, estas ultimas roçando a intimidação e a ameaça de castigo severo, Serafim decidiu ser hora de regressarem à principal para “matar saudades” dos pais, mostrar o filho aos avós e assumirem perante a sociedade a sua relação.

A alegria do reencontro rapidamente esbarrou com a manifestação opiniões e atitudes diferenciadas.
“Maria Bela” de muito feliz à partida, rapidamente se voltou a fechar sobre si quando o casal lhe disse que, ao contrário do que ela desejava, pretendiam regressar ao “lugar da ponta delgada” pois tinham decidido, e já iniciado, uma vida nova para aquelas bandas.
Por sua vez Serafim pai, agora também avô, da frieza e distância que aparentou no primeiro momento, rapidamente passou para uma posição mais compreensiva e de total apoio à decisão tomada pelo casal, admitindo ele próprio, mais cedo do que tarde, também se estabelecer naquela zona da ilha onde, demonstrava o exemplo de Serafim e Maria de Fátima, dada sua a localização, a fertilidade do terreno e a enorme extensão de costa protegida que se estendia para Nascente desde o “lugar da ponta delgada” até pouco antes do pequeno ilhéu praticamente ligado a terra, a vida parecia ser mais fácil prosperar.

 

 

Feita que estava a visita, abastecidos de alguns dos bens essenciais que já faltavam, com mais cereais, mais sementes, outras ferramentas e utensílios, alguma roupa e demais agasalhos, agora também destinados ao filho, e ainda depois de terem conseguido mais alguns animais, entre os quais um casal de cachorros, a família regressou ao “lugar da ponta delgada” para dar continuidade ao que ali tinham iniciado.
Não muito tempo depois, os dois antigos companheiros de Serafim vieram para ali viver.
A estes dois jovens seguiram-se outros dois casais, e a estes outros mais.
Quando Serafim, o mais novo, completou um ano de vida, embora continuasse a ser o mais novo residente do “lugar da ponta delgada” já não era a única criança que por ali cirandava, e outras duas estavam prometidas nascer em breve.

Em pouco tempo, nas redondezas da enseada limítrofe da Ponta Delgada, nas grutas, em cafuões construídos com a madeira que o mar fazia chegar à costa ou em abrigos erguidos com pedra sobre pedra e cobertos de vegetação seca, já se contavam por ali a viver: seis casais com outras tantas crianças e ainda três indivíduos singulares.
Numa cadência cada vez mais rimada continuou a chegar gente aquelas paragens.
Serafim, o avô, também se veio juntar ao grupo e à sua família. “Maria Bela” não! Com o orgulho ferido manteve-se sempre na principal, entretanto já elevada a vila, Vila Franca.

Foi de tal forma profusa a vinda de ocupantes para o “lugar da ponta delgada” que ao longo das duas décadas seguintes este se tornou pequeno e, crescendo para Nascente, os novos moradores rapidamente foram fixando-se ao longo da costa, aproveitando todas as suas muitas enseadas.


Serafim, o primeiro que nasceu no “lugar da ponta delgada”, viveu cerca de cinquenta anos, os suficientes para contar um a um os já mais de cem habitantes do núcleo original do lugar e ver construir as primeiras casas a sério por aquela bandas, umas ainda “palhaças” mas outras já apresentando nobreza, em nada ficando atrás das do local de onde os pais, meio século antes, tinham fugido.

Mas, mais importante que isso, ainda antes do fim da sua vida, Serafim também viu nascer e nela assistiria a missa, a humilde ermida dedicada a Santa Clara, com ermitério junto, templo este que mais tarde estaria na origem do nome do lugar, que por sua vez o cederia à urbe que o englobou.

 

 

 


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