sábado, janeiro 16, 2021

Séc. XVI - A Ermida que deu nome à freguesia, cedendo esta o seu à cidade que a englobou

 


“Além, pouco espaço da Fortaleza para loeste, está uma ponta que se chama dos Algares (…)   Defronte da qual está um baixo, entre o qual e terra passam barcos, e logo está uma pequena baía de areia, defronte das casas do em tudo grandioso Francisco Arruda da Costa, merecedor de grandes coisas, por toda a sua indústria, e com grande custo seu cercada de muros e cubelos, com sua porta para o mar, tudo muito defensável, e pegado com a porta, chamada de Santa Clara, por ali estar a igreja paroquial desta Santa, onde se acaba a principal costa da cidade (...)"

Frutuoso, Gaspar; Saudades da Terra, Livro IV



"Esta Ermida (referindo-se à de Santa Clara), no extremo oeste da cidade, já existia em 1522 (...)

(...) construída por devoção de Mathias Tavares, Pedro de Sousa, João de Medeiros e Roque Gonçalves. (...)"

do Canto, Ernesto; imprensa local (1955) e reproduzido na Insulana, Vol. 56, 2000



"Com este alto propósito (enveredar pela vida religiosa) e celestial pensamento, a dita Maria de Jesus, filha de Jorge da Mota, e sua companheira e Maria dos Anjos determinaram ir fazer vida santa e recolhe-se em uma ermida de Santa Clara que estava na vila  da Ponta Delgada (...)" 

                                          Frutuoso, Gaspar; Saudades da Terra, Livro IV



"Era, então (Ponta Delgada inicialmente), uma cidade com poucas ruas, mas extensa, ao longo do litoral, porque ia desde Santa Clara à Pranchinha, agrupando, assim, três freguesias distintas. (...)"

da Costa, Francisco Carreiro; trecho de uma das suas últimas palestras no Emissor Regional dos Açores, 5 de Abril de 1974






Século XVI



O sábio Frade devoto de Santa Clara

 

 

 


Três décadas entretanto já haviam decorrido desde que tinham chegado os primeiros habitantes ao “lugar da ponta delgada”. Muitas das crianças que agora por ali brincavam eram já a segunda geração nascida naquele lugar, com o agregado populacional que disforme e desordenadamente para aquela banda se formara a somar já quase meia centena de pessoas.
Serafim e Maria de Fátima, que só à sua conta tinham contribuído com cinco das novas vidas que despontaram no povoado, trinta anos antes um longínquo ermo, já refletiam no corpo e nos olhos a aproximação do ocaso de uma vida duríssima.
Ele, que à actividade da pesca e da reparação de barcos com o decorrer do tempo, e já para o fim, era como carpinteiro, marceneiro e tanoeiro, com trabalhos mais leves, que ganhava a vida, acabou falecendo em consequência de uma infecção provocada por um acidente de trabalho, ainda nem cinquenta anos tinha.
Ela, embora muito desgostosa que ficou depois da morte do companheiro de toda a vida, ainda viveu praticamente mais uma década, sendo, quase até ao dia da sua morte, quem, por aquelas bandas, ajudava a nascer a maioria das crianças que no "lugar da ponta delgada" foram geradas.

Foi Serafim, o filho mais velho, que também como o pai além dos segredos do mar dominava os de trabalhar a madeira, quem se encarregou das exéquias de ambos, devolvendo os seus corpos à terra sem grande cerimonial, mas deixando ambos no mesmo local, um sobre o outro, numa das clareiras do mato onde todos se encontravam um vez por ano no mês de Agosto, mas mais a Noroeste daquela já quase ajardinada que servia de local de convívio comunitário.
Os cinco palmos de terra com que Serafim cobriu os pais ficaram devidamente marcados por uma pesada pedra, na qual, espetado num orifício para tal de propósito aprofundado ele fixou um crucifixo de madeira, que foi tão cuidada e ensebada a ponto de permanecer como nova e acabada de colocar enquanto Serafim, o primeiro ali nascido, viveu. 


Era Domingo, o único dia em que os humildes habitantes do “lugar da ponta delgada” se permitiam a algum ócio. Mesmo assim só alguns, não todos, já que para os pescadores, como o eram na sua grande maioria, também o Domingo era dia de faina, até porque a Segunda-feira, geralmente, prometia boas vendas.
Como pequena comunidade que eram, onde todos se conheciam, ao Domingo, depois da refeição do meio-dia, em especial no Verão, como o era naquela altura do ano, as mulheres e as crianças reuniam-se à “beira da rocha”, umas cavaqueando, falando de si e sobretudo dos outros, com os mais novos dando largas à alegria e energia próprias da idade.

Companhia esporádica destas amenas tardes de Domingo era um velho franciscano. Só o era lá de vez em quando porque o mais das vezes, sobretudo se o tempo não estava de feição, fresco e sem promessa de chuva como ele gostava, o dedicado religioso depois de cumprir o ofício que o levara àquela extrema do povoado já em franco crescimento, ainda antes do Sol estar a pino já estava recolhido.
Descalço, de hábito coçado e quase tão roto como remendado, o monge era muito querido e bem recebido pelas gentes do lugar e, apesar de se apresentar como um dos demais, imponha respeito e cerimónia, que mais não fosse pelo muito que pacientemente ensinava.
O único senão a ter em conta quando o frade se deixava ficar por ali era, além de alguém ter de partilhar com ele o pouco que tinha para a refeição da família, que as conversas, geralmente animadas e maldizentes, tinham de ser moderadas, logo sem o tempero que as caracterizava noutras circunstâncias, tornando assim as tardes menos divertidas.
Em contrapartida, era tanto o que se aprendia com as sábias e bem colocadas palavras do visitante que o tempo passava num repente, tornando muito curtas aquelas tardes de Verão. 

 

 

Por aquela altura, se alguns dos habitantes do lugar ainda faziam dos algares e das grutas circundantes o tecto onde se abrigavam, e serem ainda também predominantes as cabanas e outras pequenos abrigos construídos de pedra sobre pedra, num e noutro caso cobertas de colmo, outros já ocupavam habitações construídas por mestres pedreiros vindos da capital, Vila Franca, contratados de propósito para as edificar com maior critério e segurança, casas que já proporcionavam razoável conforto.

A construção destas moradias criou novas oportunidades de trabalho, atraindo ainda mais pessoas para o lugar, que crescia a olhos vistos, com a maioria dos que trocavam Vila Franca por esta zona da ilha a espalharem-se para Nascente, ocupando a enorme parte da costa que ia desde o “lugar da ponta delgada” até ao ilhéu que sinalizava o local que iria ficar conhecido por “Rosto de Cão”.
A qualidade e o valor das novas moradias começou também a originar novas necessidades, tal como a sorte e fortuna que trouxeram os novos residentes, alguns deles senhores de grandes posses, acabou também gerando novas dinâmicas e fazendo sobressair, ainda mais, o que desde a primeira hora por ali escasseava.
Uma destas carências, por quase todos sentida e por muitos tida como de grande urgência remediar, era a de substituir por um templo de pedra e cal o barraco de madeira onde, quando podia, o carismático franciscano vinha consolar e confortar aquela humilde comunidade piscatória, dando-lhe um apoio moral e religioso muito apreciado, mas também, sobretudo para os mais atentos e interessados, informações e ensinamentos sobre o que se passava para além do mar, no reino e até em outras partes do mundo.

Era tão miserável a capela ali improvisada que nela sobressaia, como se joia fosse, o único ornamento que possuía: um crucifixo em pau-preto construído com madeira recolhida no calhau.

 

 

Mesmo muito vagarosamente o tempo ia passando.
Decorridas outras duas décadas, quando já contava mais de cinquenta anos de idade o primeiro nado naquele lugar, “Peixinho Voador”, Serafim de seu nome próprio, agora um ancião muito respeitado, patriarca de uma enorme família e líder natural da comunidade a quem todos recorriam para se aconselharem ou resolverem uma demanda, a população do lugar mais que duplicara.
Também crescera, e muito, o número de habitações devidamente edificadas, destas destacando-se, pelo tamanho, forma e robustez, a que estava a ser construída para o em tudo poderoso Francisco Arruda da Costa. 
Apesar de apenas iniciada, já se mostrava imponente a moradia que para aquele importante senhor da ilha estava a ser erguida, cuja localização dominava toda a enseada desde a Ponta Delgada até à ponta onde se localizavam os algares, um grande e vistoso edifício, protegido com muralha e cubelos, quase uma fortaleza.

Com o número de fogos a ganhar grande incremento, agora algumas das habitações começavam a ser construídas mais a Norte, no interior, já afastadas da costa, onde, à semelhança de Francisco Arruda da Costa também o abastado Francisco Ramalho construía a sua, também enorme, incluindo alojamento para os muitos escravos que possuía: a necessária mão de obra para amanho da sua extensa propriedade.

As casas multiplicavam-se mas questão do templo, porém, continuava por resolver para descontentamento de quase todos.
Desgosto este, diziam, que teria provocado a morte ao velho frade, falecido sem ver melhoradas as condições de celebração religiosa destinada à pobre gente do local, já que a outros, aos mais abastados, não faltavam meios para irem assistir missa nos templos entretanto construídos a Nascente, para onde o povoado se estendera sem planeamento, ao longo de uma via que serpenteava como que acompanhando o perfil da costa.


O pequeno núcleo de pescadores que se haviam fixado no “lugar da ponta delgada” já se transformara numa povoação que, embora crescendo sem plano prévio, fazia-o porém com pujança e a grande velocidade.
De tal forma assim foi que, ainda nem trinta anos haviam decorrido desde que vira a luz do dia o primeiro humano ali nascido, Ponta Delgada, por alvará assinado pelo punho do venturoso D. Manuel I,  já obtivera o estatuto de vila, albergando então quase tanta população quanta a que vivia na capital, Vila Franca, pouco tempo depois acometida da enorme catástrofe, desgraça que mudaria para sempre a sua história, mudando também a da vila que tomando o nome do local onde se iniciara, Ponta Delgada, agora despontava a olhos vistos.

 

 

Além dos domingueiros ajuntamentos à “beira da rocha” também já constituíra tradição para os habitantes do “lugar da ponta delgada” reunirem-se, uma vez por ano, no segundo Domingo de Agosto, numa das clareiras do mato de faias, loureiros e vinháticos que, iniciando-se um pouco além da zona habitada, confinava com os férteis terrenos do planalto que se lhe seguia, agora quase todo ele transformado na enorme fazenda de Francisco Ramalho.
Estas anuais confrarias, tardes inteiras de comer e divertir, para as quais cada um levava o melhor que tinha e com todos se partilhava o que cada qual trouxera, eram momentos de abundância e diversificado nutrimento, onde não faltavam melancias, as primeiras uvas da época e os bolos e biscoitos confeccionados com a farinha do cereal acabado de colher e moer. Uma alegria e fartura para todos, em especial para as crianças que não se faziam rogadas perante a fruta e as lambarices.
A festa terminava à luz da fogueira onde ao longo da tarde tinham sido assados um ou dois borregos e, ao entardecer, grelhados vários e variados enchidos, mas que à noite era mantida apenas para iluminar, enquanto os mais velhos desfiavam contos.

As histórias mais aguardadas eram as do decano dos habitantes do local, Serafim, por todos conhecido como “Peixinho Voador”, alcunha que herdara do pai que também lhe legara a arte, o saber e os genes de lobo-do-mar, mas que agora, com o peso do meio século de vida que carregava, já não ia ao mar.
As narrativas de “Peixinho Voador”, o primeiro habitante a nascer naquele lugar, mesmo que  repetindo-se ano após ano, tinham o condão de acrescentar sempre pormenores, o que as enriquecia e as tornava no mais completo relato sobre o “lugar da ponta delgada”.

 

 

“Peixinho Voador”, evocando o pai e aquilo que ele lhe dissera, lembrava sempre que naquele mesmo mato onde se encontravam, antes de ele nascer, havia mais porcos selvagens do que os cerdos que todos eles, por junto, tinham em seus currais.
Falava também, acrescendo sempre novos e interessantes pormenores, do tempo em que por ali, vivendo sabe bem Deus como, não haviam mais que cinco famílias, uns doze adultos e meia dúzia de crianças ao todo, contando com ele próprio.
Mas o que todos aguardavam, até porque a cada vez que “Peixinho Voador” contava o sucedido ficavam-se a conhecer novos detalhes, era o caso dos piratas, que tendo vindo a terra para pilhar, perante a penúria que testemunharam, sem fazerem nenhum estrago e para tal não dando nada em contrapartida apenas levaram água, pois para compensar os poucos víveres frescos que embarcaram acabaram deixando roupas e agasalhos de valor muito superior ao dos alimentos que em terra carregaram.
A esta história “Peixinho Voador” juntava imediatamente uma outra, a do velho frade franciscano com o qual chegara a conviver e a aprender muito do que sabia, recordando as sessões de doutrina que ele ministrava na improvisada capela com a cruz de pau-preto, reuniões estas nas quais o sábio religioso insistia para serem devotos, rezarem muito e pedirem protecção a Santa Clara, uma Santa milagreira que sozinha, empenhando uma custódia, havia afugentado o grupo de assaltantes que pretendia invadir o convento onde se encontrava recolhida.
O velho franciscano teimava – não se cansava de o dizer “Ti Serafim” – que a Santa pela qual tinha grande devoção era protectora dos mais humildes, que nunca faltava às preces que pelos mais desfavorecidos lhe eram dirigidas, concluindo sempre que fora milagre Dela os piratas que ali foram para roubar terem procedido como procederam, já que noutros lugares não só roubavam como violavam as mulheres sem piedade nenhuma.
Assim fora, insistia com solenidade o franciscano, porque a visita que ele fazia ao povoado nunca terminava sem, com aqueles que iam ouvir as suas práticas, todos em coro, dedicarem uma oração à Santa que ele tanto venerava pedindo-Lhe protecção. Ela, claro, atendera-os!

E, terminando o serão a repetir a oração do velho frade, “Peixinho Voador” convidava os presentes a acompanhá-lo na prece que o franciscano ensinara:
– “Santa Clara querida, Santa milagreira, nossa protectora nossa padroeira….”.

 

 

“Peixinho Voador”, ao invés do velho franciscano que falecera sem realizar o seu maior desejo: ver construir em alvenaria de pedra rebocada a barro um templo que substituísse o barracão no qual juntava para oração e pregação aquela humilde gente, viveu o suficiente para assistir à concretização do sonho que, além dele, já contagiara muitas das pouco mais de cem humildes almas que habitavam o “lugar da ponta delgada”.
Tal como com certeza faria o sábio frade caso ainda fosse vivo, “Peixinho Voador” atribuia a construção daquele templo a um milagre da Santa.
Era pequeno, singelo, completamente despojado de qualquer ornato nobre, muito pobre mesmo, mas bem construído, robusto, austero, com a sua porta orientada a Norte oferecendo as firmes empenas dos alçados posterior e laterais aos ventos ali predominantes, sobretudo o de Sudoeste.

 

 

 A construção da Ermida

 

 

 


Já com Ponta Delgada como vila ia para duas dezenas de anos, também no "lugar da ponta delgada" os tempos começavam a ser outros.
Não que os mais desfavorecidos melhorassem muito de vida, já que os pobres continuavam pobres, mas os mais abastados enriqueciam com facilidade e, porque de alguma forma tinham de empregar ou até ostentar a riqueza que acumulavam, faziam-no custeando obras religiosas, desta forma sempre garantiam algumas indulgências divinas. Assim pensavam!


A riqueza dos mais favorecidos, permitindo-lhes ter uma vida mais confortável, tornava também menos carenciada e penosa a dos mais desfavorecidos que nas casas e propriedades dos afazendados encontravam trabalho e, com este, a forma de melhorarem, pouco que fosse, as suas condições de subsistência.
Eram sobretudo das mulheres, servindo na cozinha ou costurando em casa dos mais nobres, que provinha este novo complemento de rendimento para aquelas gentes. Mas esta era também uma boa forma de ganhar conhecimento, como acontecia com “Marquinhas”, jovem e irrequieta serviçal, muito inteligente e curiosa, que absorvia muita da informação trocada nas longas tardes e serões que pareciam ser o único trabalho dos patrões, que preenchiam com lanches e longas tardes de conversa a maior parte do seu tempo e do tempo dos amigos que convidavam e com quem amiúde conviviam.

"Marquinhas", cerca de vinte anos mais nova que Serafim, "Peixinho Voador", era filha de uma amiga de peito da mãe dele, Maria de Fátima, já que ambas passaram em comum as agruras dos difíceis primeiros tempos do "lugar da ponta delgada". Fora Maria de Fátima quem ajudara a mãe de "Marquinhas" a trazê-la ao mundo, o mesmo acontecendo com os seus dois irmãos mais novos, e foi com Maria de Fátima por perto que a sua amiga viria a falecer quando se preparava para dar à luz o quanto filho, também uma menina, mas que não sobreviveu.
Maria de Fátima e Serafim, pai, criaram "Marquinhas" e os seus dois irmãos como se seus filhos fossem, a ponto de muitos pensarem ter Serafim "Peixinho Voador", filho, sete irmãos, e não os quatro de sangue que efectivamente tinha.

 

 

Era “Marquinhas”, quando vinha a casa no Domingo, o que nem sempre acontecia, quem na “beira da rocha” caso fosse Verão, ou em casa no aconchego do calor da cozinha ao longo das outras estações do ano, em especial no rigor do Inverno, que, repetindo o que ouvia na casa onde servia, deliciava uma ou outra vizinha, também como ela curiosas e interessadas em saber sempre mais com as notícias acabadas de chegar de fora, novidades que de outra forma não tinham modo se serem do conhecimento de tão humilde comunidade.
Foi “Marquinhas” quem trouxe a notícia de que Pedro Alvares Cabral, pouco depois de ter sido elevado a Cavaleiro no Conselho do Rei, D. Manuel I, agonizava no leito de morte.
O nome do navegador tinha-lhe chamado à atenção pois lembrava-se ter ouvido “Peixinho Voador”, numa das tardes à “beira da rocha”, dizer que velho franciscano lhe havia contado que o descobridor do Brasil tinha mais ou menos a mesma idade dele, quase seu irmão, então já afamado “lobo-do-mar”, o primeiro nascido no “lugar da ponta delgada”.
Sem ter bem a noção da importância que a informação representava caso fossem outros os seus ouvintes, foi também “Marquinhas”, alguns anos depois, a informar os amigos e vizinhos que as escalas das viagens para a India tinham acabado de ser reguladas a favor da "Provedoria das Armadas e Naus da Índia" regimento que as obrigava a passar sempre nos Açores, viagens estas que trazendo enormes riquezas, tal como as vindas do Brasil, que em busca da India o tal Pedro Alvares Cabral, havia descoberto, faziam o Império Português prosperar, mas canalizando alguma desta abundância apenas para uns poucos, o que, feliz ou infelizmente, directa ou indiretamente, também chegava aos Açores.

 

No “lugar da ponta delgada” os terrenos continuavam a ser arroteados transformando mato em terra fértil, muito produtiva, porém agora cada vez mais longe da costa, bem mais para além do que as propriedades de Francisco Ramalho.
Novos senhores, mesmo que a residir noutras paragens, vieram explorar as mais recentes áreas de cultivo criadas. Estes, cuidando dos seus interesses, rapidamente ficaram também ao corrente dos anseios das gentes do lugar, onde a construção de um templo, pequeno que fosse, garantiria enorme agrado a quem o financiasse.
Assim, juntando-se quatro beneméritos: Mathias Tavares, Pedro de Sousa, João de Medeiros e Roque Gonçalves, rapidamente apareceu o dinheiro necessário e foi dado início à obra tão desejada, que não demorou muito a ser erguida.

Se a verba necessária para os mestres pedreiros, pedras de cantaria e outros materiais teve proveniência nas dádivas dos quatro altruístas que agindo por gratidão também obtinham paz de espírito e algum reconhecimento, os anónimos habitantes do local, homens, mulheres e crianças, não se pouparam a esforços, contribuindo com todo o trabalho braçal e menos especializado necessário.
“Peixinho Voador”, dada a sua provecta idade e o já frágil estado da sua saúde, pouco pode ajudar nesta empreitada, mas como que ganhava semanas de vida a cada metro que as paredes subiam, extasiando-se de alegria na primeira missa ali celebrada, no fim da qual, com voz trémula e embargada, fazendo com que todos o seguissem, rezou em voz alta:
– “Santa Clara querida, Santa milagreira, nossa protectora nossa padroeira… muito, mas muito obrigado mesmo por mais esta graça que me concedeste”!

 

 

Intempestivo e sem fazer adivinhar o que consigo traria, chegou o ano da graça de 1522, annus horribilis para toda a ilha de São Miguel, em especial para Vila Franca, então ainda briosa capital da ilha. Foi o sismo, foi a epidemia de peste que se lhe seguiu, foi tanta desgraça consecutiva que no “lugar da ponta delgada” o falecimento de “Peixinho Voador”, o primeiro nato ali parido, só não passou completamente despercebido por ser muito numerosa a sua prole, filhos, netos, irmãos e sobrinhos, que com os respectivos conjugues e outros familiares chegados praticamente encheram a ermida pela qual em vida ele tanto pugnara e que naquela triste ocasião, perante os entes queridos, lhe acolhia o féretro.

Tratou-se do primeiro velório que naquele templo se realizou, uma vigília onde os carpidos choros, pungentes brados e vagidos lamentos só eram interrompidos por uma variante da oração que “Peixinho Voador” popularizara, reza naquela noite várias vezes repetida:
– “Santa Clara querida, Santa milagreira, nossa protectora nossa padroeira… sê indulgente para com este teu fervoroso devoto intercedendo por ele junto ao Pai do Céu para que Lhe destine um bom lugarinho”.

E assim foi até à manhã seguinte, quando o corpo de “Peixinho Voador” acabou sendo devolvido à terra.

 

 

 As noviças que ficaram pelo caminho

 

 

 


Tal como o Verão que o precedeu, aquele Outono, o de 1522, estava a ser extraordinário.
As colheitas foram abundantes, ao contrário do que habitualmente vinha acontecendo, a pesca foi farta e o peixe teve sempre bom preço. Mais estranho ainda: a muita uva que vingou também produziu muito e bom vinho!
Tudo corria  de tal forma bem que, quando o vidente local, afamado pela certeza das suas "adivinhações", disse não ter gostado nada de ver o alinhamento do Sol no Equinócio de Outono daquele ano, para logo rematar a conversa acrescentando:
– "Algo de muito ruim vai acontecer ainda antes desta Lua mudar" –, ninguém o levou a sério.
Mas mais uma vez ele estava certo, infelizmente!


A terra tremeu com violência na noite de 21 para 22 de Outubro. 

No “lugar da ponta delgada”, onde ainda estava muito fresco o luto pela morte do seu primeiro habitante, além do susto poucos foram os estragos. O "diz-que disse" no entanto foi fértil, havendo logo quem relembrasse o que tinha previamente anunciado o "feiticeiro", já que assim, nas suas costas, chamavam a "Ti Bento Aranha", o reconhecido vidente, cuja clientela vinha de uma estrema à outra da vila de Ponta Delgada, quando não mesmo de outros lugares da ilha. 
– Afinal a desgraça não foi só a morte de "Ti Serafim" – ouvia-se por aqui e por ali, com os mais céticos acrescentado  –, mas também, além da morte de "Peixinho Voador" não se viu desgraça de maior, foi mesmo só mais o susto, poucos ou nenhuns estragos há por aí. 
E, de facto, apesar do forte abalo de terra sentido, no “lugar da ponta delgada” foi praticamente só o susto.

Medonho, medonho mesmo, foi o que aconteceu em Vila Franca, já que depois do sismo as suas réplicas, ali sentido de forma bem mais violenta e causando danos como nunca antes se vira, repetiram-se ao longo da madrugada e manhã só dando algum sossego aos sobreviventes por volta do meio-dia.

Uma enxurrada de terra e lama cobriu parte significativa da vila, destruindo tudo por onde passava, arrastando consigo os destroços de tão grande desgraça.
Foram mais os mortos que os sobreviventes, com os primeiros na sua maioria a serem soterrados ou arrastados até ao mar pela avalanche e, os segundos, que só não pereceram porque não tinha ainda chegado a sua hora ou viviam nos arrabaldes da localidade, a ficarem estupefactos quando a primeira luz do dia mostrou a enorme devastação ali ocorrida.

Entre os que escaparam estava Jorge da Mota e sua filha Petronilha, jovem devota de Santa Clara que perante tal flagelo logo prometeu entregar-se a Deus abraçando a vida religiosa.
Petronilha da Mota, que como freira adoptaria o nome de Maria de Jesus, acompanhada por Isabel Afonso, que depois de professar a vida religiosa passaria a chamar-se Maria dos Anjos, idealizaram recolher-se no eremitério que complementava a recém-construída ermida de Santa Clara, no longínquo “lugar da ponta delgada”, onde pretendiam, seguindo a regra de Santa Clara, descalças e vestidas de burel, jejuando o mais das vezes a pão e água, rezar, meditar e ajudar os mais desfavorecidos, propósito que acabou não se realizando como desejavam.

Dado que Jorge da Mota se opunha determinantemente à decisão da filha, e tendo por esta razão a ida para a ermida do “lugar da ponta delgada” de ser feita à revelia do pai, para Petronilha e a sua companheira de aventura a solução premeditada foi fazê-lo às escondidas, combinando fugir ambas em determinado dia depois do Sol se esconder completamente.
Na noite da fuga, sob grande tempestade e muita chuva, estando as duas candidatas a noviças acompanhadas de quatro crianças, irmãs de Isabel Afonso que por dependerem dela não as podia deixar para trás, por vontade de Deus, – aceitou-o resignadamente Maria de Jesus para o resto da vida – tiveram de interromper a caminhada nos arredores de Água de Pau, procurando abrigo em Vale de Cabaços, onde permaneceram até regressarem mais tarde a Vila Franca, para um convento no qual Maria de Jesus acabou como Abadessa.

O “lugar da ponta delgada” perdeu assim duas virtuosas Clarissas com hábito, mas nunca lhe faltou fieis devotos de Santa Clara!

 

 

 Ponta Delgada, cidade

 

 


 

Pelo enorme impacto causado, a calamidade que em 1522 assolou Vila Franca acabou tornando-se decisiva para que Ponta Delgada passasse a ser a capital de São Miguel.


Foi de novo "Marquinhas",  agora já casada, bem casada por sinal, quem, numas das suas cada vez menos habituais vindas ao “lugar da ponta delgada” para visitar amigos e familiares, dera conta, com todos os pormenores, como lhe era habitual, do sucedido em Vila Franca.
Informara também que, "nan'tarda nada"  e Ponta Delgada passaria de vila a cidade:
–  É disso que agora muito se fala na casa dos senhores , acrescentava baixando a voz como que indicando ser um segredo a guardar.

Facto era que, já muito antes da dura adversidade ocorrida em Vila Franca, a urbe que, quase espontaneamente, tivera origem no “lugar da ponta delgada”, já se estendia majestosamente para Nascente, esprairando-se ao longo da costa desde a Ponta Delgada até ao ilhéu do Rosto de Cão, tendo como principal eixo a via mestra que zigazeando entre aquelas duas saliências da costa as unia.
Facto também fora que, a já Vila de Ponta Delgada, tinha sido recentemente dotada da tão desejada Alfândega, estrutura que sendo uma importante fonte de receitas rapidamente lhe acrescentou importância e a faria sobressair como cabeça da ilha.
Mas facto também foi que, para haver a tão desejada elevação a cidade, ainda os seus habitantes teriam de esperar cerca de mais um quarto de século, e "Marquinhas" já não estava viva para o testemunhar.


Na verdade, a contenda pelo domínio da arrecadação de impostos já há muito se começara a manifestar entre os homens de condição nobre e de poder das duas localidades.
O caso mais aparatoso desta disputa havia ocorrido cerca de vinte anos antes, durante a procissão do Corpo de Deus em Vila Franca, para onde, obedecendo à tradição, foram alguns senhores de Ponta Delgada.
O incidente com um archote, de que resultou queimar a capa de um dos integrantes no percurso processional, desencadeou uma enorme briga entre os de Ponta Delgada e os de Vila Franca, com os primeiros, como retaliação, a apressarem um pedido, feito à socapa mas rapidamente concedido, para a obtenção do alvará que haveria de fazer de Ponta Delgada igualmente vila, conjuntamente com Vila Franca também colectora de impostos e derramas, e ainda decisora das suas próprias festas religiosas e júbilos profanos.
Na sequência, ainda naquele ano, Ponta Delgada fora elevada a vila para, quatro anos antes do sismo que arrasou Vila Franca, a nova vila ser também senhora da sua Alfândega.

A obtenção do Carta Régia que elevaria Ponta Delgada a cidade, assinada em Almeirim por El-Rei D. João III a 2 de Abril de 1546, ainda estava a quase três décadas de acontecer.  

 

 

“Marquinhas” casou tarde. Muito tarde para a época, pois já tinha quase trinta anos quando o fez. Casou só depois da morte de Maria de Fátima, de quem se ocupou ao longo dos últimos anos de vida, mas casou bem, muito bem, já que desposou um sargento de uma das defesas da ilha capitaneadas por Francisco Arruda da Costa, cerca de dez anos mais novo do que ela.
Ao casar com quem casou permitiu-lhe criar e educar com esmero as três filhas do casal, a mais nova das quais, Leonor, nome da Rainha de Portugal que "Marquinhas" tanto apreciava, viria a casar com um bisneto de "Peixinho Voador”, também Serafim de seu nome, já então um aprumado mestre calafate de profissão. Ficou assim feita a efectiva ligação à família da qual "Marquinhas" desde muito cedo se sentia parte. 


Tal como a mãe, Leonor, além de impulsionada por uma enorme curiosidade, tinha uma inteligência e ânsia de saber notáveis, estando capacitada para ler em mais de uma língua, dominando perfeitamente o latim.
Também como a mãe tinha o privilégio de frequentar duas ou três casas senhoriais, não como serviçal, como a mãe o fora, mas como recomendada dama de companhia.
A Leonor se devia agora o conhecimento mais profundo que chegava ao “lugar da ponta delgada”, onde o casal residia, embora numa moradia já a condizer com o seu estatuto.

Anos mais tarde, seria Leonor, já avó, com um neto ao colo e rodeada por alguns dos sobrinhos e de outros familiares afastados e amigos mais chegados, quem informou, como se de uma aula de história se tratasse, sobre a série de ocorrências dos últimos anos, acontecimentos um tanto ou quanto infelizes e que tinham levado Portugal a chegar aos tristes dias que então se vivia. Em voz serena e muito pausada foi dizendo:
– Estou certa que o predomínio português no mundo já atingiu o seu apogeu, iniciando-se a sua decadência.
Ora prestem atenção, pontuava, antes de um significativo momento de silêncio:
– Se não estou em erro, a D. Manuel I sucedeu-lhe D. João III que, herdando um vasto Império, tendo mesmo durante o seu reinado chegado ao Sul da China e ao Japão, foi quem iniciou o declínio do grande poderio português, entre o mais, com a introdução da “Santa” Inquisição. Sendo que aqui, nestas ilhas, porque uma desgraça nunca vem só, a tragédia de Vila Franca e o surto de peste com que tivemos de lidar nos sete ou oito anos seguintes, só veio trazer ainda mais escuridão à já de si negra noite que a Inquisição iniciara!
E, voltando a pontuar com um novo momento de silêncio, lá continuou:
A D. João III seguiu-se-lhe o neto, D. Sebastião, coroado Rei aos três anos de idade e que morreu em Alcácer Quibir com vinte e poucos e sem deixar descendência, e disso não resultará nada de bom, estou certa! 
Prolongando tanto o silêncio que deu tempo para trincar uma bolacha de centeio depois de embebida em leite, prosseguiu:
Agora, como todos sabemos, temos o Cardeal D. Henrique como regente e D. Filipe, de Espanha, exigindo anexar Portugal. Só D. António, Prior do Crato, entretanto aclamado Rei, nos poderá valer. Determinado ele é, mas não se auguram bons tempos!

Como se viria a constatar, Leonor tinha carradas de razão!

 

 

Leonor e a ermida de Santa Clara, mais ano menos ano, partilhavam quase a mesma idade.
Sendo ainda criança de colo quando D. Manuel I faleceu, Leonor era no entanto já uma mulher no ano em que Ponta Delgada foi elevada a cidade e, se parte do muito que sabia se devia à forma como fora educada e aos privilegiados contactos que a vida lhe proporcionara, outro tanto tinha a ver também com os ensinamentos da mãe e à elevada atenção que a tudo dedicava, bem como à forma curiosa como lidava com os acontecimentos que vivenciava.
Tendo crescido durante o reinado de D. João III, não era boa a imagem que Leonor tinha deste monarca. Isto em muito se devia ao que a mãe lhe contara sobre a falta de piedade que em Espanha havia para com as vítimas da Inquisição que o rei, dito piedoso, trouxera também para Portugal.  E, se a D. João III Leonor devia uma das memórias mais agradáveis da sua vida de adulta, a elevação de Ponta Delgada a cidade, a cujas celebrações assistira, outra das suas memórias, neste caso uma triste memória, a tragédia Alcácer Quibir, da qual viria a resultar a perda de soberania de Portugal a favor da Espanha, embora indirectamente, para ela também a D. João III não podia deixar de estar ligada.

Elevada que foi Ponta Delgada a cidade, nem uma década decorreu para ser dotada de um juiz de fora, ficando a par do reduzido número de concelhos que tinham um oficial de carreira como magistrado.
Mas com isso o Povo pouco ganhou. Anos antes, custeada por pesados impostos, tivera início a construção do Forte de São Brás e, aqui sim, o Povo já foi chamado…, para pagar!

Ao longo da sua vida, um período muito rico em acontecimentos, Leonor foi deixando registo do que de importante vivenciava.
Fazia-o a conselho de uma das damas que acompanhava, recomendação esta que a menina por sua vez tinha recebido de um amigo da família, um filho de Frutuoso Dias, que já depois de Ponta Delgada ser cidade e Leonor ser mãe, soubera ter ele ido estudar para Salamanca. Tratava-se, pois, de Gaspar Frutuoso, que Leonor viria mais tarde a conhecer pessoalmente, era já ele pároco da vila da Lagoa, na freguesia de Santa Cruz, por ocasião do batizado de um dos seus netos. 

Das anotações de Leonor, resgatadas por um dos seus descendentes dentro de uma caixinha de cedro com embutidos a pau preto, destacavam-se alguns dos serões dançantes em casa das suas damas de companhia; as leituras que para elas fazia em latim ao longo de tardes infindáveis; a preparação e os mais solenes momentos do seu casamento; a elevação de Ponta Delgada a cidade, além de outras que, carcomidas pelas traças, tisanuros que vá lá saber-se como entraram naquela aromatizada caixa, danificaram algum do seu conteúdo.
Outro conjunto de notas, claramente menos cuidado e dando nítida ideia que haviam sido escritas de forma mais apressada, davam conta de factos bem mais recentes, tais como: o início das obras do Castelo de São Brás; a referência à vinda do Juiz de Fora para Ponta Delgada; com grande espaço a ele dedicado, ao batizado do neto, na Lagoa, com detalhes da conversa que então teve com Gaspar Frutuoso, de quem Leonor já há muito ouvira falar, eram ambos adolescentes, e que pouco depois do baptizado do neto haveria de regressar a Salamanca para se doutorar em Teologia; a tragédia de Alcácer Quibir, também mereceu uma longa e detalhada nota, reveladora do enorme constrangimento que lhe ia na alma provocado por aquele drama.
Separada do conjunto das anteriores, havia ainda uma outra longa e também muito generosa em palavras nota, em tudo dando a entender ser muito posterior às anteriores que versava a criação da novel freguesia de Santa Clara, a terceira a ser constituída na cidade de Ponta Delgada a partir da parte Este e Noroeste da grande freguesia de São Sebastião, a Matriz da cidade, acrescentando que o acontecimento muito dera que falar, uns a favor outros contra. Nesta mesma nota e escrito ao viés, o que não sendo para poupar espaço no suporte só poderia indicar vontade de deixar bem visível o registo, nitidamente o derradeiro, pelo menos o último ali guardado, completava o que anteriormente tinha escrito sobre Gaspar Frutuoso, acrescentando agora que ele em Salamanca fora discípulo do então já célebre e em fim de vida Frei Domingo de Soto, confessor de Carlos V e participante no Concílio de Trento.

Nos seus apontamentos nada foi encontrado sobre o início da convivência humana nos arredores da ermida de Santa Clara, onde, já como paroquial da freguesia, Leonor ainda assistira ao batizado de uma sua bisneta. No entanto, até por ser casada com um bisneto de Serafim, “Peixinho Voador”, o primeiro parido no “lugar da ponta delgada”, Leonor tinha consciência que, quando Filipe II de Espanha, I de Portugal, se tornou também monarca do reino de Portugal e dos Algarves, o nascimento do bisavô do pai dos seus filhos já há mais de um século havia acontecido.

Na verdade, em pouco mais de cem anos o “lugar da ponta delgada” deixara de ser a longínqua coutada de caça dos senhores de Vila Franca, antiga capital da ilha, para se tornar no núcleo mais antigo e genuíno de uma das freguesias da, já principal, cidade da Ponta Delgada cujo reconhecimento do seu dinamismo, crescimento urbano e a importância do seu porto, até no apoio às naus da Índia, que o aproveitavam para descansarem as tripulações e se reabastecerem, para tal muito contribuíra.

Pouco depois Leonor falecia, deixando também numerosa prole, com os sessenta anos que se seguiram a serem vividos sob domínio dos Filipes, de Espanha.

 

 

 Santa Clara, a terceira freguesia de Ponta Delgada

 

 

 


Em Santa Clara, no seu núcleo original, junto ao mar ou à sombra das frondosas faias, loureiros e cedros existentes mais no interior, mantinha-se a tradição domingueira do cavaquear na “beira da rocha”, tal como a do anual convívio na mata sobranceira ao povoado, que ocorria no segundo Domingo de Agosto.


Já poucos se lembravam dos contos de “Peixinho Voador” e menos ainda eram os que se recordavam das sábias pregações do velho franciscano, descodificando e tornando claro como água para todos aquilo que à primeira vista não era de fácil entendimento aos humildes habitantes do lugar, proporcionando, a quem o escutava com interesse e atenção, a necessária ajuda para entender muitas das causas cujas consequências o Povo conhecia só por sentir sobre os seus ombros um custo que pagava muito caro.
Porém estes momentos de encontro comunitário continuavam a ser muito importantes já que, agora, com muita gente a trabalhar na cidade, os homens de uma maneira geral no cais do ancoradouro e as mulheres servindo, aqueles continuavam a ser um momentos de muita troca de informação.

Fora num destes Domingos à “beira da rocha” que as gentes do lugar ficaram a saber estar para breve a criação da freguesia de Santa Clara, tendo como paroquial a ermida consagrada à sua “querida Santa”, que assim acabava também por dar nome àquela nova circunscrição administrativa e religiosa.
Em ocasião similar, dois ou três anos depois, mas já não à “beira da rocha” porque agora por aí eram muitos os milicianos e soldados espanhóis que por lá andavam, foi também numa das prazenteiras tardes de Domingo que os já habitantes de Santa Clara tomaram conhecimento que a freguesia recém criada iria ser acrescentada, deixando de acabar na cerca dos frades para ir mais além, até à Rua da Cruz ou mesmo até à Ermida da Trindade.
Muito espalhada também estava a notícia que se iria construir uma nova Igreja para Santa Clara. “Esmola grande demais para ser verdade”, - diziam os mais cépticos!

 

 

Certo era que Santa Clara, antes lugar, a partir dos últimos anos da década de setenta do século XVI já freguesia, tendo como paroquial a pequena e humilde ermida construída passara então mais de meio século, foi, por decisão do Bispo D. Pedro de Castilho, a terceira freguesia a ser constituída em Ponta Delgada, para a qual foi enviado como seu primeiro pároco o bacharel Ascêncio Gonçalves.


Na sua versão original a freguesia de Santa Clara confinava a Nascente com as traseiras do Convento dos Franciscanos, antes do Castelo de São Brás, sendo composta por pouco mais de sessenta casas, nas quais viviam cerca de trezentas pessoas.
Porém, pouco mais de dois anos depois, novamente por decisão do Bispo D. Pedro de Castilho, mais tarde vice-rei de Portugal, que na altura se estabelecera em São Miguel a isso obrigado pela resistência que na ilha Terceira era oferecida ao Rei D. Filipe de quem ele era partidário, a freguesia foi acrescentada para Nascente até à Rua da Cruz, passando a englobar mais do triplo dos fogos que inicialmente abarcava e dobro dos habitantes, cerca de oitocentos, sem contar com os quase trezentos soldados espanhóis estacionados no Castelo de São Brás, que agora também integrava a Freguesia.

Como que adivinhando o que aconteceria mais tarde, este enorme acrescento não agradou à base popular e original dos habitantes do povoado. Entre o mais, a humilde ermida ficou pequena para o incremento da população ocorrido, começando logo a falar-se na necessidade de ter uma pia baptismal maior e mais lustrosa, uma Igreja Nova, a construir de raiz, mais perto do centro da cidade, mais próximo também da maioria dos novos habitantes que a freguesia passara a incluir com o acrescento decidido a 22 de Setembro de 1581.

Não tardava nada e começaria a longa peregrinação da paroquial de Santa Clara por diferentes templos, a alguns deles regressando uma ou mais vezes, originando depois a troca do nome da freguesia de Santa Clara para São José, cabendo à histórica ermida ficar como sede de um curato, resistindo no entanto com galhardia a identidade do lugar e dos seus habitantes, agora agregados ao curato de Santa Clara.

 

 

 


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