"A terceira freguezia, novamente feita, de Santa Clara, antes de ser acrescentada, tinha sessenta e dois fogos e almas de confissão duzentas e noventa e sete, das quais eram de comunhão duzentas e três. O primeiro vigário foi o bacharel Ascêncio Gonçalves; o segundo, Francisco Fernandes, a quem o ilustríssimo Bispo D. Pedro de Castilho, acrescentou os fregueses que tirou de S. Sebastião, partindo a freguezia pela Rua da Cruz; e tem agora duzentos e dez fogos e seiscentas e seis almas de confissão (afora duzentos e oitenta soldados que estão na Fortaleza) das quaes são de sacramento seiscentas e quinze"
"(…) o governador, vendo que não havia remédio senão
fazel-a (à nau que estava ao largo)varar em terra, havendo por menos mal
perdel-a que levál-a o inimigo (...)
(...) Estando assi suspenso, disse em voz alta: quem me dera saber nadar que eu fora desenganal-a. Nenhum dos presentes respondeu, senão um moço de 16, 17 anos de idade, que posto diante d'elle disse: eu me atrevo a chagar á nau a nado, e dar-lhe recado (…)"
Trecho de uma carta de Gonçalo Coutinho, então governador de S. Miguel, enviada ao Rei Filipe I de Portugal II de Espanha, datada 15 de Outubro de 1597; Archivo dos Açores, volume XX, página 137.
Século XVII
Não foi melhor a freguesia ficar maior, crescendo para Nascente
Se fora ainda sob domínio português que se concretizara a
criação da freguesia de Santa Clara, foi já com D. Filipe como Rei de Portugal
que a mesma foi acrescentada para Nascente até ao Recolhimento da Trindade,
e no enfiamento deste para Norte quase até meio da ilha, englobando a Ermida de
Nossa Senhora da Piedade, construída junto à quinta de João Dias Caridade, nos
Arrifes.
Tendo a criação da freguesia beneficiado de um alargado agrado da população do antigo “lugar da ponta delgada”, o mesmo já não
aconteceu com o seu acrescento, que não se mostrou assim tão consensual.
As razões eram várias, a primeira das quais porque sendo a ermida já de reduzido tamanho para as não mais de duzentas almas que a
frequentavam, minúscula se tornaria tendo em conta que depois de aumentada mais
que duplicara o número dos paroquianos, seus potenciais utilizadores. Mas, pior
que o desagrado causado pelo tamanho da ermida, tendo em conta o enorme aumento
de fregueses que o templo teria de servir, era o descontentamento que tinha a
ver com a notícia que circulava, falando-se com cada vez maior insistência que
iria ser construída uma nova igreja, o que para além de significar um
substancial aumento de custos para o povo, com as fintas que certamente lhe
estariam associadas, também ser voz corrente que a igreja a construir se localizaria
já na cidade, para além da Rua da Cruz, de modo a bem servir os novos
habitantes, todos claramente de melhor condição social do que aqueles que
viviam em volta da velha ermida.
Os problemas não tardaram a aparecer confirmando as suspeitas havidas, mesmo aquelas que provinham dos melhor intencionados e menos críticos quanto ao acrescento da freguesia para Nascente. O batizado do bisneto de Leonor, Apolinário de seu nome, pelo número de pessoas que reuniu, foi um destes momentos de tensão.
…
O Inverno naquele ano estava a ser muito rigoroso.
Ao Padre Ascênsio Gonçalves, pároco a quem coube em sorte ser o primeiro líder espiritual da então recém criada freguesia de Santa Clara, tinham chegado dois pedidos para batismo que, segundo a forçada insistência dos patriarcas de ambas as famílias, qualquer uma delas de respeitável estatuto, coincidiam quanto ao dia pretendido.
Se uma das famílias fazia depender a sua condição do invejável pecúlio económico que entretanto acumulara, a outra, mais modesta mas nem por isso menos insigne, entre o mais, devia a sua grande aceitação por, além de ser muito numerosa, ter profundas raízes na freguesia.
Perante a impossibilidade de fazer os dois batizados no mesmo dia, a decisão tomada, para insatisfação dos mais endinheirados, foi dar primazia ao neto de Leonor, filho de Catarina, descendente, já na sexta geração, do mítico Serafim, "Peixinho Voador", por ali mais que respeitado, quase mesmo venerado.
O filho de Leonor que casara na Lagoa e em cujo batizado do seu primogénito, também o primeiro neto da antiga dama de companhia, já então quadragenária, esta conhecera pessoalmente o Padre Gaspar Frutuoso, depois da criança naquele ano batizada, foi pai de mais quatro filhos.
O segundo dos seus cinco rebentos, uma menina, ganhou o nome de Catarina, em homenagem a Catarina de Bragança, então já destinada a desposar D. João I, Duque de Bragança, seu primo, como que antecipando uma possível solução para a desgraça que mais ou menos quinze anos depois aconteceria em Alcácer Quibir.
Catarina, a neta de Leonor, por sua vez haveria de casar, tinha sido a freguesia de Santa Clara acabada de constituir, com Manuel Serrão, militar, mais tarde capitão de uma das companhias da defesa de Ponta Delgada, homem destemido e corajoso, características que transmitiria a seu filho, Apolinário Serrão, cujos genes em muito ficaram enriquecidos com os do lado materno, bisneto que era de Leonor e Serafim, sendo este último bisneto de outro Serafim, o primeiro a nascer naquelas paragens.
Se, passados que estavam cerca de sessenta anos, no velório de Serafim "Peixinho Voador, a ermida quase se encheu, para o batizado de Apolinário, seu já longínquo descendente, aquele templo encheu-se por completo, qual ovo, deixando quase outros tantos convidados e familiares do lado de fora da porta, no enlameado adro, tal era o número dos presentes. E pior não foi por grande empenho do diplomático bacharel Ascênsio Gonçalves, já que o sábio, bondoso e carismático pároco, com grande esforço, conseguiu convencer a outra família, não obstante as generosos ofertas prometidas, a batizarem o filho oito dias depois, o que foi aceite, mas com enorme relutância, e gerando ressentimentos que durante muito tempo permaneceriam.
Depois disso não demorou muito tempo para que, uns mais que outros, se começassem a queixar da exiguidade e falta de condições da ermida, cuja pia baptismal, diga-se em abono da verdade, sendo já de difícil gestão enquanto a freguesia manteve o seu original tamanho, de nenhuma forma suportaria as outras tantas almas a baptizar que o aumento da freguesia acrescentaria.
Tanta foi a insistência no mal-estar criado que, mesmo tendo de recorrer ao responsável pelo governo dos mosteiros nas ilhas, Frei Gaspar Branco, a destinar tudo o que aqui se passava a partir da cidade do Porto, foi solicitada autorização para que uma das capelas do Convento de São Francisco fosse a paroquial da freguesia de Santa Clara. Em consequência, fruto de uma rigorosa negociação, ficou assente que seria usada parte da igreja do convento,
acordo este que, mesmo que bem untado com duas arrobas de azeite, apenas seria válido por quatro anos, o suposto tempo necessário
para a construção de uma nova Igreja.
Foi uma cedência feita sob difíceis condições,
segundo as quais só era praticamente possível realizar as Eucaristias
obrigatórias e, mesmo assim, tudo sujeito a horários e controlos muito
apertados.
De tal forma assim era que os outros sacramentos, como os
baptizados por exemplo, continuavam sendo ministrados na ermida de Santa Clara e, como complemento, na Igreja
Matriz de Ponta Delgada, dependendo da preferência, mas sobretudo do contexto
social, da família que os solicitava.
Decorrido o prazo estipulado, não tardou nada e a paroquial de Santa Clara, saindo da Capela de São João do Convento de São Francisco, iniciaria um longo e demorado périplo, começando por se ir aconchegar na Ermida do Corpo Santo, tendo como anfitriã a tão pujante quanto generosa Confraria de São Pedro Gonçalves, protector de pescadores e marinheiros, cujas afinidades com o núcleo original dos habitantes da Freguesia atenuou, muito, o desgosto causado pela perda de importância da velha Ermida de Santa Clara.
…
Tal como a vivência dos santaclarenses após o acrescento da
Freguesia de Santa Clara, também os primeiros anos do reinado de Filipe I de
Portugal, II de Espanha, em concreto os dois iniciais, não foram pacíficos, com
a guerra civil que se lhe seguiu deixando marcas também nos Açores.
Derrotado em Portugal, o Prior do Crato, com o forte suporte
francês que obteve para a sua causa, e a predileção que por ele tinham os Franciscanos, já então bem disseminados pelas ilhas, tentou reconquistar Portugal a partir dos
Açores, onde, sobretudo na Terceira, reuniu significativos apoios.
Os aliados
do Prior do Crato, procurando, a partir da Terceira ocupar também São Miguel,
fizeram várias tentativas de desembarque dando azo a algumas batalhas, umas bem
mais violentas do que outras. A que se realizou ao largo de Vila Franca acabou sendo a
segunda grande tragédia para aquela localidade em pouco mais de meio século.
Os diversos desembarques de tropas, embora nem todos bem sucedidos, obrigaram a rever as defesas da costa, inicialmente apenas constituídas
por tapumes e trincheiras ao longo dos locais mais atreitos a desembarques,
sendo que, mais tarde, alguns destas mesmas zonas à ribamar foram servidos por
uma rede de pequenas fortificações.
Tudo isso interferiu com o modo de viver e estar das
populações que residiam nas proximidades dos lugares mais propícios a fundear
barcos e por tal a possíveis ataques dos invasores.
Santa Clara foi uma das áreas que exigiram cuidada protecção ao seu litoral.
…
Pejada de militares quase em permanência nas trincheiras à beira
mar e havendo rondas regulares aos pontos de reunião dos soldados, em Santa
Clara, a “beira da rocha” rapidamente deixou de ser um lugar adequado para as
reuniões familiares de Domingo à tarde.
Com a orla marítima de Santa Clara, antes usada como local de passeio e arejo, por aquela altura já mais parecendo uma fortificação militar do que o aprazível espaço de lazer que fora, para mais sendo espanhóis a maioria da tropa por ali estacionada, por mais apetecível que estivesse o dia as mulheres e crianças privavam-se da distração
semanal que, umas em grupo sentadas sobre mantas, outras mais espalhadas a circular no espaço que mediava entre as traseiras da ermida e a plataforma de basalto que encimava a entrada dos algares, já se tornara na tradicional ocupação das tardes de Domingo.
Mas, se assim acontecia com elas, já os rapazes, mancebos, aproveitavam a
ocasião para se exibirem, com as suas brincadeiras expondo destreza e valentia,
num mal disfarçado propósito de mostrarem que qualquer dia também queriam
integrar as bandeiras de defesa da ilha.
Além de outras, uma das actividades dos rapazes de Santa
Clara que mais chamava a atenção aos milicianos para ali destacados eram as
porfias a nado que entre si faziam, exigindo estas enorme força e resistência, já que
nas mesmas eram percorridas longas distâncias.
De todas estas disputas, aquela que mais atraía a
atenção dos estrangeiros, era a que transitava, por duas vezes, já que iam e
regressavam, a distância entre o “Calhau da Areia” e a “Ponta das Entradas”,
iniciando-se a competição com um mergulho do topo do “Cunhal da Maré”, manobra
que só por si já era um feito, pois a água em seu redor era pouco profunda.
Dois a dois, mergulhando simultaneamente, os rapazes depois
de chegados à água nadavam velozmente até ao outro lado da enseada, com o
primeiro a regressar ficando apurado para repetir a proeza com o vencedor da
parelha seguinte, até se estabelecer o vencedor dos vencedores, o que por vezes
significava fazer o percurso três ou quatro vezes num reduzido espaço de tempo.
Ver aqueles rapazes a nadar daquela forma, para mais com o corpo coberto de grosseira roupagem, que depois de encharcada pesava quase tanto quanto quem a vestia, causava admiração, sobretudo a quem comandava os soldados, capitães e sargentos vindos do interior da Península Ibérica, que provavelmente viram o mar pela primeira vez quando entraram nas naus que os haviam trazido.
Depois de terminada a disputa com D. António e seus aliados
franceses, a contenda pelo domínio dos mares entre a Invencível Armada, dos
Filipes, e a Armada Real Inglesa, continuou a exigir grande preocupação na
defesa da costa.
Também, sobretudo durante o Verão, as disputas a nado entre
o “Cunhal da Maré” e a “Ponta das Entradas” mantiveram os rapazes de Santa
Clara em grande actividade, anos a fio.
Foi o Apolinário, podia ter sido um qualquer Serafim
Mais de uma década tinha entretanto decorrido sobre a criação da freguesia
de Santa Clara.
A sua paroquial neste período já conhecera três templos, pois deixando a histórica ermida já passara pelo Convento dos Franciscanos e estava então na
Ermida do Corpo Santo, estes dois últimos mais próximos do centro da cidade como era
pretendido pelos novos fregueses, os resultantes do acrescento pomposamente
efectuado em 1581.
Mesmo que, por devoção a São Pedro Gonçalves, os habitantes
da zona nuclear de Santa Clara fossem mais vezes à Ermida do Corpo Santo do as que tinham ido à Capela de S. João do Convento Franciscano, o certo é que as idas à cidade pouco acrescentavam quanto ao acrescentar de informação para além da corriqueira.
Na verdade, desde que Leonor
falecera já não havia em Santa Clara quem contasse, com a certeza e o detalhe com que ela o fazia, as
novidades que se passavam fora da ilha, no mundo, mas em especial no amplo espaço onde a
Monarquia Hispânica exercia a sua soberania: em todo o Império espanhol,
Portugal incluído.
E, se a morte de Leonor representava também neste sentido
uma enorme perda, esta ainda era mais notória com a segregação que a ampliação da
freguesia representara para as camadas mais humildes, onde a informação era sempre mais difícil de chegar, já que os restantes habitantes, por tendência e
snobismo, tendiam cada vez mais afastarem-se do núcleo original da freguesia
para, como novos burgueses, se integrarem cada vez mais na sociedade citadina, evitando em simultâneo a convivência com os mais modestos que assim, além de
ignotos, ficavam cada vez menos informados.
A cada ano que passava o núcleo originário de Santa Clara mais se assemelhava ao "lugar da ponta delgada" que o originara.
…
Um acontecimento porém, dada a sua envergadura e
espetacularidade, além de ter deixado registo nos anais da história, manteve-se
também na memória do povo. Tratou-se de uma carta, toda melosa, suplicando
graças para si e para os seus, contando verdades mas também mentiras, enviada
pelo então Governador, Gonçalo Vaz Coutinho a sua Majestade Real, D. Filipe, I
de Portugal II de Espanha, de quem era fervoroso súbdito.
Se era verdade que as questões relacionadas com defesa da
costa, em especial na zona original de Santa Clara, apesar do significativo
investimento feito em Ponta Delgada pela Monarquia Católica, continuavam a ser
de grande premência e a exigir cada vez mais cuidado e investimento, certo era
também que a intenção da missiva ia bem para além da inventariação das fragilidades da
defesa, enaltecendo descaradamente o desempenho do Governador e do seu amado
filho durante a batalha contra um célebre corsário inglês, num explícito e aveludado criar das condições propícias ao recebimento de
desejadas mercês reais.
Este caso, num misto da sua versão popular e oficial,
contava-se rápida e agradavelmente, deliciando quem o ouvia, sendo assim relatando:
Já não estavam em causa as investidas de D. António Prior do
Crato, entretanto falecido em Paris.
Na ocasião era a Armada da Rainha D. Isabel de
Inglaterra, capitaneada por Robert Devereux, Conde de Essex, "o favorito" da importante Monarca, que não dando descanso à poderosa
armada de Espanha, tinha escolhido os Açores para saquear as naus da India que,
no Mar dos Açores, faziam, então, passagem obrigatória.
Assim, a Real Armada Inglesa, depois dos êxitos obtidos nos
mares da India, de Espanha e Portugal, e até já depois destes, de ter tomando a
Cidade de Cádis e de seguida saqueado Faro, no Algarve, dirigiu-se aos Açores
passando à vista da Terceira com cerca de cem embarcações, metade destas
navegando por Sul e a outra metade pelo Norte da ilha, numa ufana manobra de exibição
do seu poder e capacidade de mal fazer, pouco tempo depois comprovado com o ataque feito às
ilhas do Faial e Pico, onde provocaram medonhos danos, com o saque e os
incêndios que perpetraram nas principais localidades de ambas as ilhas.
Na posse desta informação, trazida da Terceira por um
pequeno barco de cabotagem, o Governador de São Miguel, sem perder tempo,
mandou tocar a rebate começando de imediato a tomar medidas para, caso a Armada
Inglesa, como seria expectável, vir também saquear São Miguel, a protecção da
ilha estar devidamente organizada, preparando-se os defensores para atacar os
invasores na hora do desembarque, momento em que estes se encontrariam expostos
a maiores dificuldades e, por conseguinte, mais fragilizados para enfrentar uma bem organizada carga contra eles, vinda de terra.
Embora contrariados, os Capitães e Oficiais do Governo da
Cidade mandaram vir, de várias partes da ilha, gente para melhorar e guarnecer as
trincheiras de Ponta Delgada, dando instruções para a população de Vila Franca
abandonar a vila, refugiando-se no interior e nas localidades da costa Norte, de mais difícil acesso por mar, já que
perante o poderio dos ingleses seria impossível dividir as tropas e
proteger ambas as frentes.
A contragosto de alguns foi assim que se procedeu à defesa
da ilha, com o método utilizado revelando-se eficáz.
Com a protecção da baía e do cais da cidade deixada por
conta da artilharia do Castelo de São Brás, as trincheiras de Santa Clara e as do
Rosto do Cão, incluindo as das praias que se lhe seguiam, ficaram bem
guarnecidas e, com rondas de cavalaria a circular entre elas, e grandes
fogueiras acesas durante toda a noite, deixavam aos invasores a ideia de serem
muitos mais os defensores em terra do que os que realmente eram. Mas, e sobretudo, ficava patente que na ilha não se temia a invasão, pois até a esperavam!
A estratégia resultou e, embora Vila Franca fosse ocupada,
felizmente sem grandes danos, em Ponta Delgada todas as tentativas de
desembarque foram rechaçadas, com os invasores pouco mais fazendo do
que manterem-se ao largo descarregando sucessivas bombardas, mas sem grande
eficácia, causado portanto poucos estragos, porém exigindo grande esforço e
atenção dos defensores, já que a contenda se prolongou por longas duas semanas.
A segunda semana do conflito teve início com a maioria das
naus comandadas por Robert Devereux fundeadas ao largo de Vila Franca,
abrigadas pelo ilhéu, e com o próprio Conde de Essex a repousar em terra principescamente.
Continuaram porém outras embarcações, mais de duas dezenas, navegando ao longo de quase toda a costa Sul e no mar ao largo, como que esperando presa que
sabiam estar para aparecer em breve.
Um dia, de manhã, muito cedo, ao Governador, que estivera a
assistir a uma missa na Igreja da Madalena, em São Roque, chegou o recado de que tinham avistado uma
nau, em tudo parecendo ser uma das da Carreira das Índias, muito provavelmente
o alvo de que os corsários ingleses esperavam.
Recebida a noticia, o Governador mandou aprontar a sua
montada, galopou para a cidade, cruzou a entrada da fortaleza sem ali se deter
e, passando velozmente pelas trincheiras de Santa Clara, só desmontou do animal
junto da ermida, onde, depois de observar com atenção, pode realmente confirmar
tratar-se de uma nau da Índia, cuja tripulação provavelmente ainda não se
apercebera que as embarcações que a seguiam pelo barlavento eram inimigas.
Pensativo e preocupado, até porque aos sinais enviados de terra para bordo os marinheiros retribuíam como se fossem saudações, ao Governador, já imaginando a
nau perdida para o inimigo, ocorreu-lhe que a única solução seria fazê-la
encalhar antes de ser abordada pelos corsários, pois assim, pelo menos, não
iria enriquecer, até em numero de navios, o inimigo. A grande
questão no entanto era: como fazer chegar à nau o necessário aviso?
Aprisionado nos seus pensamentos o Governador
acabou dizendo em voz alta:
– “Quem me dera saber nadar que eu próprio a ia desenganar”!
Em resposta pronta, um rapaz, com não mais de dezasseis,
dezassete anos, aproximou-se dele dizendo-lhe:
– Eu sou capaz de chegar a nado aquela nau e dar-lhe o V/
recado, só necessito saber o que pretendeis que diga.
E, de seguida, sem
esperar resposta, despiu-se ficando apenas com uns grosseiros calções, pronto a
fazer aquilo com que se comprometera. Ainda surpreso, mas feliz pela possibilidade oferecida para
salvar a nau, o Governador, colocando a mão na cabeça do voluntarioso jovem,
disse-lhe:
– Então vai meu filho com a bênção de Deus, que por teu
intermédio irá salvar aquela nau. Diz-lhes que a armada que veem e os barcos
que os seguem são inimigos, que estamos cercados, e que o que têm de fazer é
encalhar a nau por aqui, para assim se proteger o que for possível salvar.
De imediato o jovem atirou-se à agua nadando energicamente,
afastando-se de terra cada vez mais, a ponto de desaparecer nas ondas que o
cobriam, para, assim que os de terra julgavam que com o cansaço ele já se tinha afogado, voltar
a aparecer.
Algum tempo depois, já muito afastado da costa que estava, o
mensageiro desapareceu definitivamente da vista de quem o observava e, quando todos o
pensavam definitivamente afogado, deram conta que a nau tinha apontado a proa
para o local onde o Governador indicara ser o melhor para a fazer encalhar, o que
acabou acontecendo, mas ainda um pouco longe da costa, já que se estava na baixa mar e, por
ali, o fundo era raso e arrostado de línguas de lava solidificada que chegavam
quase ao nível do mar.
O jovem chamava-se Apolinário. Apolinário Serrão, filho de Manuel
Serrão, um miliciano então já falecido que integrara uma das companhias ao
serviço da cidade e exaneto de Serafim, "Peixinho Voador", o primeiro que nascera no "lugar da ponta delgada", era este ainda um solitário ermo.
Gente honrada e corajosa!
Foi o Apolinário, mas podia muito bem ser um Serafim, ou
outro qualquer “rapá do caiá” de Santa Clara.
Cumprida que foi a missão do Apolinário, colocada que estava
a nau quase sobre o baixio determinado pelo Governador, a peleja porém não acabou, já
que os corsários, colocando barcaças na água, procuraram mesmo assim aceder à
preciosa carga da embarcação.
A tripulação da nau, para mais com seu o Capitão doente,
desanimados que estavam, mais não se preocuparam do saltar para terra trazendo
o que com maior facilidade podiam juntar: dinheiro.
O Governador de imediato ordenou que regressassem a bordo,
que usassem a artilharia do navio contra os inimigos, enquanto outros
milicianos o iam descarregando.
Para tal, e mandando fazer fogo serrado das
trincheiras sobre as barcaças inimigas, instigou para que mais pessoal de
terra também fosse a bordo ajudar a proteger a nau e colocar a salvo a maior quantidade possível a sua carga.
Saltando das trincheiras, muitos dos que por ali estavam
assim fizeram e, no que respeita aos que em terra ficaram, foi tal a carga de fogo que deram com os seus mosquetes sobre
as barcaças que estas logo se apressaram a regressar aos navios de onde tinham vindo.
Foi então possível proceder à descarga: primeiro a pólvora,
que já faltava em terra; depois desta as armas e munições, e só após o
dinheiro e a preciosa carga.
Passadas muitas horas de aturado esforço, e porque já se
aproximavam outros navios inimigos em socorro dos que por ali estavam,
avizinhando-se também a noite e dada por perdida como já estava a nau, o
Governador mandou incendiá-la, fogo que durou toda a noite.
Os ingleses, mesmo
assim, era tal a sua vontade de saque que tentaram apagar as chamas que
devoravam a nau. Não conseguiram!
No dia seguinte apenas restavam as madeiras do
pouco que ficara submerso.
Não alcançando o pretendido, os barcos ingleses reagruparam-se ao largo de Vila Franca, de onde alguns dias depois saíram definitivamente, permitindo que a vida na ilha, depois do muito que havia para refazer, voltasse a ter alguma normalidade.
Os rapazes de Santa Clara, estes, continuaram a ter o calhau
e o mar como elemento essencial para fazer deles homens. Nadando, pescando na
pedra ou embarcados, apanhando lapas e moluscos nas poças de maré baixa, assim
cresciam fortalecendo o corpo e a têmpera, uma marca de carácter que os
singularizava ao longo da vida e se manteve nas gerações subsequentes.
A nova Igreja: uma promessa adiada
Em Santa Clara, desde o início da sua ocupação, ainda como “lugar da ponta delgada”, a defesa da costa sempre fora preocupação primordial. A própria construção da ermida, localizada tão próximo da orla marítima como estava, mais não era do que uma demonstração desta inquietação, mesmo que apenas recorrendo à protecção Divina.
Foi porém Francisco Arruda da Costa, mais pragmático e
habilitado para a defesa do território e dos homens que nele comandava, que seria o
primeiro a dar um importante contributo para a defesa da costa de Santa Clara, ao edificar a sua casa,
sobranceira à enseada que ia da Ponta Delgada até à Ponta das Entradas,
fortificando-a com grossos muros encimados com cubelos.
Foi este o primeiro grande elemento para a efectiva defesa da costa de Santa Clara, assim como o
primeiro exemplo, prático, de como esta protecção por ali se conseguiria fazer.
Mais tarde, respondendo às cada vez mais repetidas visitas
dos corsários, mas sobretudo para conter as investidas de D. António Prior do
Crato, como primeira linha de defesa foram cavadas um conjunto de trincheiras
em Santa Clara, para assim dificultar qualquer possível desembarque naquela
acessível zona da costa Sul da ilha.
Foram estas trincheiras que o Governador
Gonçalo Vaz Coutinho, mandando vir gente de toda a parte da ilha, determinou que fossem alargadas e aprofundadas para impedir o desembarque dos que vinham a bordo da poderosa Armada de
Robert Devereux, Conde de Essex.
Só ainda mais tarde, já consolidado que estava o domínio dos
Filipes, a defesa da costa de Ponta Delgada passou a contar com uma série de
pequenas fortificações, cabendo em sorte a Santa Clara um pequeno forte, a competir em exiguidade com a ermida, chamado “da
Salvação de Santa Clara”, mas por lá mais conhecido como o “Castelinho”, reduto
que além das suas cinco canhoeiras podia alojar, em tempo de conflito, também
um pequeno destacamento.
Entre construções militares, religiosas e outras, os
sessenta anos de domínio espanhol foram pródigos no dotar e requalificar Ponta
Delgada de boas edificações. Uma porém só muito mais tarde foi além da provisão
régia imposta em 1584 e do alvará que onze anos depois, em Maio de 1595, se lhe
seguiu: a nova Igreja de Santa Clara, prometida desde 1581.
…
Depois da paroquial de Santa Clara começar a cirandar de
templo em templo, a ermida deixou de ter o uso regular de outrora, sendo
agora visitada com alguma regularidade por um Jesuíta, que por ali passava a
doutrinar, não só em nome de Cristo.
Com os Filipes de Espanha a reinar em Portugal,
intensificou-se a presença dos Jesuítas nos Açores.
Disto dava conta o facto da
nova Igreja de Santa Clara, prometida desde que a freguesia fora aumentada,
embora já tivesse sido ordenada a construção da sua capela-mor e sacristia, nada
estar ainda executado para além da emissão do respectivo alvará, o que contrastava com o que
acontecera com a Igreja de Todos os Santos, embrião da nova academia Jesuíta em
Ponta Delgada, que ficou concluída em Fevereiro de 1593, muito pouco tempo
depois de ter sido anunciada.
Entre os que continuavam a frequentar a histórica e humilde Ermida de Santa Clara já não havia ninguém vivo daqueles que tinham convivido
com o velho Franciscano, tal como já tinha sido praticamente esquecido o
barracão onde o sábio frade pregava, antes da construção da ermida.
Daquilo de que alguns ainda falavam, tipo lenda, era do
crucifixo em pau-preto, o único elemento de referência do barraco que servira de capela, um ícone que, para desgosto de muitos, porque bem podia integrar
o reduzido conjunto de ornamentos da austera ermida, tinha desaparecido por
ocasião da sua construção.
Alguns, acrescentando mistério à narrativa, diziam
que tinham sido de pau-preto as tábuas do caixão no qual o sábio e bondoso Franciscano
fora devolvido à terra. Dizia-se…Tal como também se dizia que fora um calafate
do “lugar da ponta delgada” quem construíra o negro ataúde.
Do que muitos, quase todos, ainda se lembravam bem, e de tal tinham boas recordações, era do primeiro pároco da freguesia, o bacharel Ascênsio Gonçalves, o único que ali paroquiara tendo a velha ermida como templo, antes da paroquial de Santa Clara se transferir para a Capela de São João, do Convento de São Francisco.
O Padre Ascênsio, também ele um bondoso e sábio sacerdote, que
muito ajudou os seus paroquianos ensinado e elevado ainda mais o sentimento
identitário que então já caracterizava as gentes de Santa Clara, quando teve de ir
para São Pedro da Ribeira Grande, além de boas memórias, deixou também um
sentimento de grande consternação junto do povo da freguesia. Afinal fora o seu primeiro
pároco.
Estas boas lembranças, tal como a saudade que dele sentiam, eram sempre bem mais intensas depois de ouvir os sermões do padre da
Companhia de Jesus, um forte defensor dos Filipes e que por isso mesmo nunca se
cansava de elogiar e propagandear o que de bom, segundo as suas repetidas
pregações, os soberanos espanhóis haviam feito em Portugal e nos Açores.
A questão da nova Igreja de Santa Clara era um trunfo muito usado pelo Jesuíta, promessa que, como todos verificavam, não passava das palavras,
porém sem dispensar o agravamento de impostos, em novas e pesadas fincas.
…
Faleceu D. Filipe II, seguiu-se-lhe o III Filipe de Espanha,
II de Portugal e a este sucedeu-lhe o seguinte, até chegar o 1º de Dezembro de
1640.
Da prometida nova Igreja de Santa Clara é que não aparecia nem nova nem
mandato.
Desde que a freguesia fora acrescentada a sede da paróquia
de Santa Clara andava de “casa as costas”, qual caracol, ia já para 60 anos. Passara da
histórica ermida para o Convento de S. Francisco, onde esteve os primeiros
quatro anos; deste foi para a Ermida do Corpo Santo, nesta se mantendo por algum tempo; depois transitou para a Ermida das Chagas, templo onde a paróquia
de Santa Clara estava sediada no início da década de vinte do século XVII.
É dos primórdios desta era, e tem a chancela do Padre Pedro de
Brum, o mais antigo livro de registo de batizados da freguesia de Santa Clara
que se conhece, contendo dezasseis anos dos respectivos assentos, abarcando inscrições entre os anos de 1607 a
1623. E se, a partir de 1620 a paroquial de Santa Clara já estava na Senhora
das Chagas, a probabilidade dos batizados a que correspondem os primeiros
registos deste livro terem sido efectuados na Ermida do Corpo Santo é enorme.
No seguimento do livro dos batizados, o segundo
mais antigo livro de registos da Paróquia de Santa Clara é o dos casamentos,
abrangendo os anos de 1630 a 1701, setenta anos de apontamentos, os primeiros dos
quais estabelecidos pelo Padre José da Costa Marecos, já incluindo o período em
que a sede da paróquia se encontrava em São Mateus, por deferência dos Condes
da Ribeira Grande.
Enquanto uns se batizavam e casavam na Ermida do Corpo Santo
e depois na das Chagas, a velha ermida, entrando em progressiva
decadência, regressava ao que fora desde a sua construção até ao momento da
expansão da freguesia de Santa Clara: o núcleo espiritual agregador do lugar, local onde as suplicas à Santa protectora e padroeira dos santaclarenses eram
efectuadas, sobretudo as provindas dos familiares dos pescadores, homens que no
mar, perante os perigos e a rudeza a que a sua imensidão os exponha, ganhavam a
vida e o sustento para as suas famílias.
O 1º de Dezembro de 1640 e a fome que se lhe seguiu
Em especial para quem estava a muitas milhas de Lisboa,
pensar que deposta Margarida de Saboia, a duquesa de Mântua, e defenestrado que foi Miguel de Vasconcelos, seu Secretário de Estado, estava a restauração consumada, era um enorme erro.
A Guerra da Restauração prolongar-se-ia por mais
vinte e oito anos, até Fevereiro de 1668, quando foi assinado o respectivo tratado de
paz.
Assim foi em Portugal, porque nos Açores o processo de
normalização e apaziguamento da situação decorreu muito mais rápido, com o
regresso a uma relativa normalidade conseguido ainda antes de chegar o Verão de 1642.
As alterações havidas fizeram-se sentir quase de imediato em São Miguel onde o Capitão do Donatário, D. Rodrigo Câmara, por sinal
afilhado de casamento de Filipe IV de Espanha, III de Portugal, “virando a casaca”, em
Abril de 1941 já tinha aclamado D. João IV como Rei de Portugal.
Já na Terceira, onde se concentravam a grande força dos espanhóis, o demorado cerco que foi imposto à então Fortaleza de São Filipe – de 27 de Março de 1641 a 4 de Março de 1642 – só terminou praticamente um ano depois da situação estar resolvida em São Miguel, com a vitória das tropas reunidas por todos os Açores e ali comandadas por Francisco Ornelas da Câmara e João de Bettencourt.
…
Aos poucos uma nova normalidade começava a ser vivida nos Açores e a Freguesia de Santa Clara não fugiu a esta regra. Porém, o que parecia prometer bons augúrios logo descambou na penúria e fome, negra, que a quase todos, uns mais que outros, claro, viria a tocar ainda antes do século XVII terminar.
Parecendo adivinhar a mortandade que cerca de trinta anos
depois ocorreria, em 1641, pelo punho do Padre António Francisco Quental, foi
aberto o terceiro mais antigo livro de registos da paróquia de Santa Clara que
é conhecido, o dos óbitos, cujo preenchimento começou exactamente naquele ano.
Quase em simultâneo, um dos primeiros sinais que permitiriam imaginar que economicamente a vida iria melhorar, foi dado em 1643, dois anos
depois da saída dos espanhóis de São Miguel, ao ser requerida uma importante reparação para o
“Castelinho de Santa Clara”, obra que acabou por ser levada a cabo pelo mestre José
da Silva, e pela qual ele recebeu, só no correspondente à última prestação do
pagamento da mesma, os 39$334rs que constam dos assentamentos oficiais da
Alfândega de Ponta Delgada à época.
Santa Clara parecia conhecer tempos de franco
desanuviamento.
Já sem os soldados espanhóis por perto e agora com o “Castelinho” como novo, nele reluzindo as peças de bronze que então o guarneciam, as idas à “beira da rocha” voltaram a ser rotina nas tardes de Domingo ao longo do Verão, sendo também retomadas as festas que no segundo Domingo de Agosto ocorriam no lugar que os santaclarenses, apesar de tudo, continuavam a chamar “a sua freguesia”.
Porém, com o decorrer do tempo, ao contrario das
expectativas iniciais, as condições de vida e subsistência foram sendo progressivamente
agravadas.
A principal razão das dificuldades que se faziam sentir foi o facto
das frotas da “Carreira das Índias”, no regresso, a caminho da Capital do
Império, deixarem de escalar os Açores, o que, prejudicando especialmente a
Terceira, não deixou de alargar o enorme prejuízo causado às restantes ilhas dos Açores.
Mas o pior ainda estava para vir e, mesmo agora que o
“Castelinho” fora reparado, a Nova Igreja, já envelhecida de mais de meio
século de promessas por cumprir, ameaçava ver ruir o pouco que entretanto havia
sido construído, uma capela e a respectiva sacristia, para onde, por troca com
a Ermida de São Mateus, de forma precária e por tal necessariamente provisória,
a partir de 1674 a paroquial se estabeleceu, entregando a São Mateus o que antes fora de Santa Clara, nisso incluído o nome da freguesia.
…
Trinta e três anos já haviam decorrido desde que Miguel de Vasconcelos, depois de encontrado dentro do armário onde se escondera, fora morto e atirado janela fora, e outros tantos desde que a Duquesa de Mântua, depois de aprisionada nos seus aposentos e incapaz de segurar a obediência dos amotinados a Filipe IV de Portugal, se refugiara em Espanha, quando São Miguel seria vítima de uma enorme epidemia, que ceifou a vida a milhares de pessoas, às dezenas por dia.
Em 1643, ainda eram recentes as memórias dos espanhóis na Terceira, um surto de peste naquela ilha tinha dado o primeiro sinal. Pouco depois, era da Madeira
que vinham as notícias da epidemia o que, apesar das providências tomadas,
também acabaria por se abater sobre São Miguel, e com enorme violência.
Ainda mal refeitos que estavam os habitantes de São Miguel do medonho surto de peste de 1673, cinco
anos volvidos apareceria outro que, embora já não tão mortífero como o anterior, continuou a trazer enorme padecimento à população.
Nem o
Divino Espírito Santo e o “Império dos Nobres” que então, bem provido de
dinheiro e Fé, foi instituído em Ponta Delgada, valeu a tanta desgraça.
As consequências não se fizeram esperar: logo, logo chegou a
fome.
Se a falta de cereais em Portugal tinha levado o Rei a proibir a
exportação do trigo produzido nos Açores para os mercados habituais na Europa, assim compensando o que daquele cereal faltava no reino, e com isso dando mais uma machadada na
economia das ilhas, o desconhecimento da situação local levou a que a proibição
se estendesse ao comércio do trigo entre as próprias ilhas, agravando ainda
mais a carestia de alimento que já existia.
Naturalmente que a falta de mão de
obra, provocada pelas muitas mortes que se verificaram nos anos anteriores,
tivera grande influência na falta de meios de subsistência, mas, como se isso já não fosse o suficiente, para tal
também contribuiu o elevado número de açorianos a quem o Rei obrigou irem
servir o reino para o Brasil e demais parcelas do Império.
A fome grassava, já se espalhara por quase todas as ilhas
gerando muito descontentamento e dando ocasião a revoltas, sendo que algumas
destas subversões acabaram atingindo grande dimensão, como a que aconteceu em São Miguel, exigindo que fosse necessário mandar vir reforços da Terceira para a conter.
Foi dura e agitada a última década do século XVII em todos
os Açores e Santa Clara não foi excepção, já que também foi fonte de
recrutamento e mobilização dos revoltosos em busca de pão e baixa dos impostos
que a todos sufocava.
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