domingo, janeiro 31, 2021

Sec XX - De D. Carlos I, Rei, a Carlos César, Presidente: Vida Nova

 

“Na restauração industrial que nos últimos tempos se tem assinalado em nosso país, ocupa um lugar de honra esta província insular. População fecunda e laboriosa que ao longe mesmo tem formado núcleos que destacam em nações estranhas o nome português, denota no desenvolvimento industrial a força do seu labor e o empreendimento do seu génio.

(…)

Saúdo, pois, o activo progresso económico com o voto entusiasta de que cada vez se desentranhe em frutos valiosos, como os que para fortuna e glória do meu reino me é dado ver aqui.”

Excerto do discurso do Rei D. Carlos I,
proferido a 5 de Julho de 1901 na inauguração
da 
Exposição das Indústrias, Artes, Ciências e Feira Franca,
realizada 
no Relvão, durante a visita real a Ponta Delgada. 


“Os primeiros indícios da presença de submarinos alemães no mar dos Açores surgem em 1915 e reforçam os receios das autoridades militares nas ilhas que solicitavam meios ao Ministério da Guerra desde o início do conflito. Com o bombardeamento do Funchal estes receios seriam ampliados atingindo-se o clímax com o bombardeamento de Ponta Delgada a 4 de Julho de 1917."


Excerto da Conferência proferida pelo historiador Sérgio Rezendes 
a 18/7/2014, no Museu Militar dos Açores. 


"Resolveu a Direcção desta Associação em sua Sessão de 12 do corrente o seguinte:

1º - Não tendo o Club "Santa Clara Foot-ball Club" cumprido com o disposto no §2º do art. 11º do Regulamento é aplicada ao referido Club, de harmonia com o §3º do mesmo art., a pena de expulsão, sofrendo a mesma penalidade todos os jogadores que ao mesmo pertencem:
2º - Que se oficie á Direção do 
"Santa Clara Foot-ball Club" para que mande entregar a esta Associação a "Taça Fry's" e a parte do equipamento que ainda não foi entregue pelos jogadores."

Excerto do Comunicado Oficial nº 18, Março de 1927


"Resolveu a Direcção desta Associação em sua Sessão de 30 de Março de 1927 o seguinte:
()
3º - Autorizar a inscrição provisória do Club: "Sport Club Santa Clara" até que a Assembleia Geral se pronuncie sobre a readmissão de alguns jogadores castigados que fazem parte deste novo club."

Excerto do Comunicado Oficial nº 21, 30 de Março de 1927


"Tendo-se fundado nesta cidade uma nova agremiação Desportiva com o nome de "Club Desportivo Santa Clara", pretende a mesma ser inscrita nesta Associação."

Primeiro parágrafo da carta enviada à Associação de Futebol a
 17/05/1927 pelo Clube Desportivo Santa Clara, requerendo a 
sua inscrição, processo que depois das insistências feitas 
a 06/08/1927, haveria de ter a sua conclusão na reunião 
de Direcção da Associação realizada a 09/11/1927.


" (…)
Foi em 1921 que o Sr. José Joaquim de Sousa - então Tenente - agrupou um certo numero de rapazes humildes que nas chamadas "pedreiras da Doca"... (…)" 

Excerto de um texto publicado na imprensa, em 29 de Janeiro de 1949, 
aquele que deu início à farsa do 31 de Janeiro de 1921, cujos erros de
palmatória  começam logo pelo "então Tenente", quando de facto
José Joaquim de Sousa  era ainda Alferes, para depois continuar
acrescentando o mito ao referir ter ele sido  o 1º Presidente do
Clube Desportivo Santa Clara, o que nunca aconteceu 
nem no CDSC  nem nos "Santa Claras "anteriores.
As versões que deram continuidade a este "primeiro acto"
acrescentariam ainda mais erros, como o de referir que
o 1º Campeonato ganho foi em 1921, mas o mais grave
foi escamotear um dos ascendentes, e renegar a família é feio.


"Pela Junta Central dos Portos foi cedido o terreno para a nova Igreja em 15 de Maio de 1964, ficando a cedência definitiva para depois de aprovado o projecto pela Camara Municipal.
(

Em Março de 1973 foi recebida a notícia que a nova Igreja já não seria construída, depois da paróquia ter gasto cento e quarenta contos."

Excertos do Livro de Tombo paroquial de Santa Clara, páginas 5 e 7. 



Em edição










Século XX



D. Carlos I, o primeiro Rei de Portugal a conhecer os Açores

 




Para os Açores, São Miguel e por inerência também para Santa Clara, o século XX começou ao mais alto nível, ou não fosse esta a bitola da primeira viagem de um Rei de Portugal, enquanto tal, aos Açores.


Não obstante a jacobina cumplicidade entre os dois grandes partidos do “arco do poder” de então, a demanda Monarquia vs República aquecia paixões, o que acontecia não só entre as camadas mais populares e insurgentes, mas também entre aqueles que, apesar do seu estatuto politico e social, dadas as suas fortes convicções, não podiam pactuar com a aparente onda geral de sujeição, à qual até o Senhor Santo Cristo dos Milagres foi obrigado, adiando, para rei ver, a sua procissão. 

Menos subordinado foi, por exemplo, José Maria Raposo do Amaral, carismático e progressista autonomista em cuja casa, dos Ginetes, fora içada pela primeira vez a Bandeira dos Açores, que se tendo ausentado, não a despropósito, por ocasião da visita régia, só voltaria aos Açores após o regresso de SAR a Portugal. Pouco depois este empertigado açoriano falecia, infelizmente.  

D. Carlos desembarcou em São Miguel no primeiro dia do mês de Julho. Naturalmente não faltaram os salamaleques da ocasião, tal como as visitas institucionais e de lazer, como a ida às Sete Cidades para, das cumieiras, ver as lagoas Verde e Azul, no local que ficaria conhecido como: a “Vista do Rei”.

Em Santa Clara, conhecida a notícia que a comitiva real iria passar pela Rua Formosa, mais tarde renomeada para Rua de Lisboa, não faltou quem para lá fosse afim ver passar o monarca. Uns, muitos, para o saudar. Outros, alguns, poucos, também para lá foram com a intenção de o apupar.


João Mathias, alfaiate afamado que por aqueles dias tinha passado longas horas a trabalhar, costurando fatiotas novas ou virando as velhas casacas para que novas parecerem perante S. M. Real, monárquico convicto que era, sabendo que o Rei iria passar não muito longe da casa onde residia e trabalhava, ordenou às suas duas jovens filhas:
– Francelina, Maria do Carmo, vistam-se a modos de irmos ver o Rei passar. Não demorem, pois deve aparecer muita gente e eu quero arranjar um bom lugar, sem ter de ir para muito longe.
As duas moças, já apuradas costureiras e que muito o ajudavam, deixaram tudo o que tinham entre mãos para de imediato se irem aprontar. Só Maria José, sua mulher, com Emília, a terceira filha do casal ao colo, é que barafustou exclamando de forma indirecta algo que já ouvira muitas vezes os filhos, machos, dizerem ao pai quando, um e outros, filhos de uma banda, pai da outra, discutiam as vantagens e desvantagens da Monarquia, acérrimos defensores da Republica que os dois jovens eram: 
– Pois é, com tanto trabalho atrasado e tens mesmo de ir ver o extravagante aventureiro “Balão Cativo” passar. 
E, continuando a falar por entre dentes, acrescentou:
– Como já não fosse suficiente o que se paga para ele e a “madama” andarem sempre em festas e festanças, pois não fazem outra coisa!
Sem dar ouvidos à mulher lá caminhou o altivo alfaiate, rua acima, ladeado por cada uma das tão vistosas quanto prendadas filhas. Mas cedo se arrependeu da decisão tomada. 
Devia eu ter ficado em casa, pensou João Mathias quando, à passagem do cortejo real, viu os filhos, António e Octávio, entre o grupo que, um pouco mais à frente, do outro lado da rua, gritavam  alto e a bom som:
Viva a República, Viva a República, Viva a República!

O regresso a casa aconteceu quase se seguida para desgosto das senhorinhas que, não fora ao Domingo para a missa ou noutros dias de grande cerimónia, poucas eram as oportunidades que tinham de se exibirem com tão distintos trajes, procurando atrair sobre si pretendentes que as merecessem, e, como o pai sempre lhes repetia, fossem da sua condição ou de outra superior. É que a educação de ambas fora esmerada e, não obstante trabalharem como costureiras para o pai, qualquer uma delas lia e escrevia com desembaraço, sendo inclusive uma das funções de Francelina anotar as medidas dos clientes, registar nos livros próprios estas anotações e os valores dos custos e proveitos do trabalhos executados, mas, e principalmente, tratar da correspondência com clientes e fornecedores, tudo feito com uma caligrafia que fazia inveja a muitos mestres escola.
Chegados a casa, foi Maria José, quem, estranhando a pouca demora, com um misto de provocação e zanga questionou:
– Já chegaste a casa? Não me digas que o "gordo dos bigodes" se arrependeu e nem quis vir "dezercadeus" aos seus amados súbditos. 
– Não comeces já 
retorqui-lhe João Mathias com voz solene e de poucos amigos –, para me chatear já bastou o que os teus filhos e aqueles seus amigos pouco recomendáveis acabaram de fazer, como se não soubessem que eu estava ali tão perto deles. 
Maria José nada mais disse. Tampouco perguntou o que tinha acontecido, mas como que adivinhava. Realmente aqueles seus filhos, irrequietos, sempre contestatários e, desde há algum tempo até então, muito activos na defesa do republicanismo, não paravam de causar problemas, mesmo até nas acirradas discussões que mantinham com o pai.

Apesar da idade, Maria José era uma mulher vistosa e muito bonita. Sempre muito bem arranjada, mesmo que só para aparecer à janela, aqueles olhos azuis e a tez muito clara sobressaiam de tal forma que ele, como homem muito ciumento que era, não se poupava a esforços para evitar que a sua "Marquinhas" fosse motivo de cobiça alheia, para tal evitando que ela o acompanhasse a mioria das vezes, o que desgostava e muito, a presada e ainda muito bem aparentada mãe de cinco filhos.
Se as filhas, pelo menos as duas mais velhas já que a mais nova, Emília, como que vindo fora do tempo destoava muito em idade do irmão que lhe antecedia, quase dez anos mais nova que era dele, calmas, algo até snobs, puxavam ao pai, os filhos, também louros e de olhos claros, mas sobretudo irrequietos, de raciocínio ágil e sempre com a resposta na ponta da língua, era decididamente a ela que saiam. 

Naquele dia não houve mais conversas e o serão de trabalho durou até muito tarde, mas, mesmo assim, não a tempo de ver chegar a casa António e Octávio, que naquela noite, mais uma vez, só de madrugada se recolheram.  


 

 

Uma das iniciativas que deu garbo à visita régia a São Miguel foi a Exposição de Ciências e Letras Artes e Industrias de 1901, que teve no Eng. Dinis Moreira da Mota um dos seus impulsionadores e o seu principal organizador.

Irmão do grande paladino da Autonomia dos Açores, Aristides Moreira da Mota, ele próprio um defensor e combatente da causa autonómica, Dinis Moreira da Mota, depois de um percurso que o levou do Caminho de Ferro do Algarve ao Ministério das Obras Públicas e deste à Companhia Nacional de Caminhos de Ferro, regressou aos Açores em 1892, passando a dirigir a construção do molhe do porto artificial cinco anos depois de cá ter chegado.
No ano seguinte, já como Director de Obras Públicas do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, na dependência da Junta Geral que o Decreto de 2 de Março de 1895 dera origem, empenhou-se no projecto que ele próprio elaborou para as obras da "muralha da doca" que, apesar do arrojo, acabou obtendo aprovação em 1901, obras porém que apesar das vicissitudes da época, também por razões financeiras, acabou coroada de êxito e lhe aumentou, e muito, o seu prestígio profissional.

É imensa a acção de Dinis Moreira da Mota em São Miguel, também nos Açores e de uma forma muito concentrada em Santa Clara. É tanta e tão valiosa a sua obra que, ainda hoje, já com parte da mesma total ou parcialmente destruída, se pode ver naquilo que dela resta o quanto visionário era o seu autor.
Homem bom, preocupado com os mais necessitados, a ele se devem também a gênese dos sindicatos agrícolas, movimento então pioneiro nos Açores e que tão bons serviços viria a prestar, em especial no caso das Flores, onde o Padre José Furtado Mota daria corpo e alma a um tão forte quanto resistente compromisso sindicalista naquela ilha. 
O seu gosto pela agricultura e botânica alargaria ainda mais a sua enorme área de intervenção pública.

Em Santa Clara, além da competência e ampla visão estratégica do Eng. Dinis da Mota na direcção das obras do porto, onde muitos santaclarenses ganhavam o pão de cada dia, e do muito mais que a ele se ficou a dever, não se pode esquecer a associação “O Século XX”, instituição de caridade promotora de instrução da qual foi um dos fundadores e presidentes e a quem se ficou dever a ocupação da casa contígua à entrada Nascente da “Mata da Doca”, onde o Patronato nato de São Miguel  esteve até finais do século que deu nome à escola que o precedeu.
Outra das dívidas de Santa Clara para com Dinis da Mota foi a própria “Mata da Doca”, mais tarde, e justamente, intitulada “Parque Dinis da Mota”, projecto que para ele, como o “Jardim da Alegria” que pretendia que fosse, além do muito que ficou feito outro tanto sobrou por fazer.

Ainda ecoavam lembranças da visita real e já Dinis da Mota iniciava, com vincada preocupação paisagística, o projecto de arborização das “Barrocas da Doca”.

 

Chegara Outono de 1902 e com ele o tempo fresco e húmido, apropriado para ser dado início a que, com critério e planos antecipadamente efectuados, começar a plantação de arvores e outros arbustos nos mais de duzentos e vinte mil metros quadrados que por via da exploração da “Pedreiras da Doca” tinham transformado num disforme barranco o bosque que ali fronteiro às casas, desde o povoamento do lugar, sempre fora local de lazer e desafogo dos seus habitantes.

“Ti Raposo”, de alcunha o “Pica Miolos”, porque além de falar muito fazia-o com aparato e ruidosamente, foi um dos habitantes do lugar contratados para a empreitada de recuperar a paisagem daquele largo espaço.  Muito trabalhador, leal e dedicado que era, além ficar vinculado à entidade que promovia aquela beneficiação, haveria mais tarde também de conseguir para o filho um lugar como vigia daquele espaço, função que ele desempenharia quase até à morte, garantindo assim o sustento de mais uma família santaclarense, por mais de uma geração.



Naquele início de século XX Santa Clara chamava a atenção até dos mais empertigados cidadãos de Ponta Delgada. Era a enorme transformação física que ali se estava a operar mas, também a não menos importante evolução social a que se assistia.

Maria Evelina de Sousa, com o apoio de Alice Moderno, ambas militantes progressistas, feministas e republicanas, em 1904 criaram em Santa Clara uma escola especialmente dedicada a mulheres, que quatro anos depois apresentaria a primeira biblioteca escolar, com enormes reflexos na comunidade e cuja inauguração mereceu da imprensa grande relevo, para, já em tempo de República, um ano depois da mesma ser implantada, acrescentarem ao projecto um museu.

Com os trabalhos que transformariam as barrocas da doca no futuro Parque Dinis da Mota já em curso, começou também a ser rasgado um caminho, na verdade uma autêntica avenida, para ligar Santa Clara ao Ramalho. Ao Príncipe Alberto, amigo e visitante frequente dos Açores que era, para mais tendo fortes relações científicas e pessoais com outros cientistas açorianos, ficou logo destinado apadrinhar a nova alameda e a rotunda onde, a Sul, esta se iniciava.

Cumpridas as formalidades indispensáveis, pouco depois desembarcava em Ponta Delgada S. A. e eminente cientista, Alberto Honorato Carlos.
Ponta Delgada engalanou-se para receber tão alta individualidade. Em ambas as estremas da Rua Formosa foram construídos portas por baixo das quais passaria a comitiva a caminho da inauguração. A do limite Poente ficava no cruzamento com o Foral do Carvão, paredes meias com a Rotunda e Avenida que iriam receber o nome do Príncipe. Com toda aquela zona embandeirada, sobressaiam as já avantajadas árvores ali plantadas. Estes plátanos, foi este o género das árvores para ali destinadas, vingaram e, já centenárias, ainda por lá estão. Ao contrário das que já antes haviam sido plantadas na “Mata da Doca”, das quias hoje poucas restam, martirizadas que foram por mais de uma vez: primeiro aquando da construção da Pol Nato, depois, e quase por completo, com o prolongamento do aeroporto.

 

O alfaiate João Mathias há semanas que andava entusiasmado. Como homem informado que era, desde meados de Julho sabia ter a Camara Municipal decidido dar o nome de “Alberto I - Príncipe do Mónaco” à Rotunda e Avenida que estavam nascendo ali tão próximo da sua casa e com paredes meias com as casas que a família tinha no Foral do Carvão de Cima. Mas agora a notícia era que o próprio Príncipe, em carne e osso, viria inaugurar de tão amplas e modernas vias.

Chegou por fim a Sexta Feira, 2 de Setembro de 1904.
João Mathias, agora pensando ir na companhia de todas as mulheres da casa, mas sobretudo assegurando-se que os filhos desta vez não lhe causariam mais nenhuma surpresa desagradável, logo pela manhã destinou:
Senhoras, hoje vamos à inauguração da nova avenida. É o próprio Príncipe quem vai “cortar a fita”. Não é todos os dias que se pode estar tão perto de gente com sangue real!
Embora intimamente já estivessem esperando por aquela nova, a que veio a seguir é que a todas contentou:
– Maria José, tu e a Emília vêm também connosco. É mesmo aqui ao canto em cima da rua e se a criança começar a inquietar é um pulinho para voltar a casa.

Tudo correu pelo melhor. A multidão, unanimemente, aplaudia e saudava o Príncipe, que, envergando a sua farda de Almirante, com grande elegância, a todos retribuía.

– Olha que bonito, diz-me lá se não parece mesmo a cena de um conto de fadas – disse Francelina a Maria do Carmo, baixinho, encostando a boca junto da orelha da irmã, não fosse o pai ouvir e logo imaginar outras coisas!



1917: já a I República estrebuchava quando, do mar ao largo da costa de Santa Clara, a Guerra atinge os Açores com o vómito das suas bocas de fogo





Desejada e tardiamente proclamada para uns, imposta à baioneta após muito derramamento de sangue e com elevado custo em mortes segundo outros, entretanto chegou a República.


Tinham sido turbulentos os tempos que antecederam a implantação da República, já assim sendo mesmo antes do regicídio. Mesmo nos nos Açores, onde não obstante os acordos feitos entre os dois partidos predominantes e ser escassa a minoria que nas urnas os republicanos conseguiam, sem grandes convulsões a monarquia esfumou-se, como que "caindo de podre", aparentemente.
Bem mais tranquilos foram os tempos que vieram logo a seguir: a composição do elenco que passou a governar o município de Ponta Delgada logo após a Republica foi elucidativa.
Com tanta mutação a decorrer não havia mãos a medir para dar conta das muitas casacas a virar.
Bem que Afonso Costa incitava à imposição de uma República a “ferro e  fogo”, mas, por cá, com zelo e inteligência, o Dr. Francisco Luís Tavares, primeiro Governador em tempos de Republica, com “sensatez e distinção” –  como que adivinhando o tinha antecipado um antecessor, na hora em que colocou o seu cargo à disposição – traduzia para “açoriano aplicável” as ordens que vinham de Lisboa em “português puro e duro”!

 

A República caminhava já para o seu quinto ano, quando, após a Camara Municipal ter decidido atribuir o nome de Dinis da Mota ao troço que liga Santa Clara à então Rua Formosa, a notícia chegou ao bairro enlevando grande parte da população, agradecidos pelo muito que o homenageado, infelizmente falecido no ano anterior, tinha feito pela localidade e pelas suas gentes.

Em casa de "Ti Raposo", a gratidão a Diniz da Mota dominava a conversa que se seguiu à ceia:
– É bem merecido – dizia para a mulher o vigia das Cancelas da Doca, das Pedreiras da Doca e da mata que já por ali crescia ordenadamente, sem dar conta de como o filho, João, com pouco mais de dez anos, estava a ouvir atentamente a conversa.
– Era um “home” bom, e o que ele sabia…ainda “ma lembra dele dezar” os nomes de cada uma das árvores que dava para plantar. Das árvores e das outras plantas. Todas tinham um nome e cada uma delas ele sabia “donde tinha vinde”.  Morreu cedo. Ainda era um “home novo”. Não parava um “minute”. Aquela cabeça “tava sempre a trabalhá”.
– Mais que o nome na rua ele merecia uma estátua. Gostava muito dele… Devemos-lhe muito 
– acrescentou "Ti Raposo" após um demorado momento de silêncio.

João, continuava concentrado, como que decorando aquelas palavras. Delas se haveria de lembrar mais tarde quando, cinco anos depois, a propósito de um jogo de futebol em que participara, lhe leram uma notícia que o jornal do dia anterior, 28 de Novembro de 1920, publicara com destaque.
Mesmo sem saber ler João foi comprar aquele jornal e ofereceu-o ao pai, que o guardou anos a fio, pedindo, repetida e regularmente a um vizinho que lhe lesse aquela página, permitindo-lhe visualizar o que ele ajudara a criar e, sobretudo, trazendo-lhe gratas recordações de um homem de quem ele tanto gostara, assim como outras lembranças, que embora menos importantes não deixavam de para ele ser muito agradáveis, como era o caso de recordar o nome de algumas das plantas que lhe haviam passado pelas mãos antes de ali serem plantadas. 

 

  

 

A guerra já decorria quando Portugal entrou nela e os Açores, por arrasto, também.
Como se não bastasse a defesa das então colónias africanas, já o conflito ia para o fim quando, para as trincheiras de Flandres seguiu “carne para canhão” açoriana, incluindo alguns quadros qualificados, como foram os casos dos jovens oficiais Eduardo Reis Rebelo e Luís Carlos Lacerda Nunes, felizmente ambos regressados, nem que, com aconteceu com o segundo, para tal se tivesse de evadir de um campo de prisioneiros alemão.
Um e outro, mais tarde, muitos e bons serviços prestaram, também a Santa Clara.

A partir de 1916 as preocupações inglesas com a defesa do Atlântico passam do Sul, da costa de África, Cabo Verde, mais para Norte e centro, Madeira e Açores. Os Estados Unidos ao entrar na guerra disputam com os ingleses o controlo do Mar dos Açores e, logo os submarinos alemães intensificam a caça que vinham dando a ambas as armadas no Atlântico Norte.
A Madeira foi atacada em Dezembro de 1916 e, no ano seguinte, a guerra entrou naquela que seria a sua fase determinante e derradeira.

 

Chegara o Verão, cujo início, em Santa Clara, era melhor definido pela noite de São João do que pela exacta correspondência ao solstício que o determina. Um Verão que, naquele ano, 1917, ficaria para sempre recordado.
Ainda Junho ia a meio e já não faltavam acontecimentos para acesa discussão em Santa Clara: fora o cargueiro americano que, por chegar avariado, estava varado na rampa dificultando a reparação de outras embarcações; era a doença do cura local, Padre Leite – António Pacheco Leite –, homem firme, algo difícil, porém muito querido e admirado, que mais não fosse por ser o primeiro sacerdote colocado em Santa Clara que fora nado e criado na localidade, com a sua enfermidade tanto mais inoportuna quanto o agravar dos incómodos que o atormentavam aumentava com o aproximar da visita do Bispo – D. Manuel Damasceno da Costa –, até porque era muito elevado o número de santaclarenses em preparação para o Crisma; muitas e pesarosas foram também as conversas ocasionadas pelo falecimento, em véspera da Noite de São João, de António Tomé, rijo e valente marítimo no “ganha pão”, sensível e exímio músico nas horas livres, cuja longa dedicação à sua “União Fraternal”, filarmónica que desde muito novo integrava, fora devidamente reconhecida com o solene e sentido acompanhamento efectuado no seu cortejo fúnebre; muito também foi dito sobre o abalo de terra ocorrido na tarde do último Sábado de Junho, que apesar do alarme causado, ditosamente, não provocou danos materiais de grande monta. Vítima conhecida deste terramoto foi o caixeiro da Loja do Sr. Moniz, que com o grande susto perdeu os sentidos e a fala, deixando familiares, amigos e vizinhos muito preocupados. Felizmente tudo ficou só pelo susto, já que depois de uma curta passagem pelo hospital o apavorado paciente se restabeleceu completa e rapidamente.

Todos estes casos tinham ocupado a atenção das gentes de Santa Clara ao longo daqueles dias, mas, ainda antes da aflitiva madrugada que logo chegaria, a chacota que imperava e a quase todos inflamava, desde a porta da ermida até aos balcões das diversas “lojas”, tinha a ver com a surpreendente e copiosa derrota dos “Vermelhos”, habituais campeões, que para garantirem a manutenção dos seus pergaminhos, de imediato, ainda em campo a carpir as mágoas de tamanho vexame, exigiram a desforra, o que tão cedo não aconteceria!


 

Embora a posição oficial de Portugal na guerra estivesse já tomada, apoiando e integrando as forças que defrontavam os alemães, mesmo nos Açores não faltavam os que se dividiam entre um lado e o outro, havendo até os que apoiavam declaradamente o exército de Guilherme II, último Kaiser.  
Os tempos não eram fáceis. A guerra já decorria há três anos e os seus efeitos sentiam-se cada vez mais. Com Norton de Matos como Ministro da Guerra, a “República de Afonso Costa” conhecia aqueles que iriam ser os seus últimos dias, não se poupando os Monárquicos no esforço de engrossar as fileiras dos que ansiavam a oportunidade para fazer cair o regime. 

Em Santa Clara, tal como quanto ao futebol, os partidários de um e do outro lado juntavam-se em “lojas” diferentes. Os “Azuis” eram decididamente pró monárquicos tal como os “Vermelhos” eram pró republicanos, puros e duros.
Haviam ainda outras “lojas” e outras equipas, mas nestas imperava mais o futebol que a política. Era sempre entre “Vermelhos” e “Azuis” que as pelejas políticas se davam e os campeões se decidiam.

Coisa diferente acontecia com os mais novos, rapazes que imitando os mais velhos também se agrupavam por aqui e por ali para jogar futebol, com bolas feitas sabe Deus como e equipas organizadas na hora. Para tal eram eleitos os dois melhores jogadores presentes com cada um deles escolhendo, à vez, aqueles que completariam a sua equipa, em número igual para cada lado mas não necessariamente regular: de cinco a oito para cada equipa era a cifra mais comum. 
O “Largo da Eira”, numa das extremidades do povoado, era um dos locais predilectos para estes jogos. Ali terminava a mais castiça das artérias da localidade, humildemente baptizada de Segunda Rua, não obstante ter início no adro da ermida e possuir elevada densidade populacional.
Afastado cerca de uma centena de metros do casario e confrontando a Poente com o que restava dos três moinhos outrora existentes, aos quais se devia o nome dado aquele espaçoso sítio, 
o “Largo da Eira”, confrontando a Sul com a “beira da rocha” – trecho de costa ali já suficientemente alto e assim protectora das investidas do que o mar faz quando acoitado pelo predominante vento de Noroeste – e a Sul com a desafogada área de serventia ao “Matadouro Municipal”, a sua largueza tornava-o num dos locais preferidos para os jovens do bairro se juntarem, entretidos com diversas actividades, nomeadamente jogar futebol.

 

Mathilde e José estavam no “Largo da Eira”, não muito longe da sua casa, quando naquele Sábado o sismo aconteceu.
Os dois irmãos eram muito chegados e, embora por razões diferentes, ambos ali estavam... focados no que lhes interessava quando a terra tremeu com grande violência. 
– Mathilde. Mathilde! – Gritou espavorido o aflito José correndo de braços estendidos para a irmã.
 Mathilde… o que é isto? Que barulho é este? Porque está tudo a estremecer? 
– questionava sucessivamente José já a custo contendo os soluços que logo se transformariam num discreto choro.
Mathilde também sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. A terra tremeu com alguma intensidade porém não foi aquele lento e demorado balanço aquilo que mais a atemorizou, foi sim o aterrador som que o acompanhou, um autêntico urro vindo das entranhas da terra, uma medonha atroada que em muito contribuiu para que os poucos segundos que se seguiram parecessem uma eternidade.
– Não tenhas medo José. Já passou! – Disse Mathilde sussurrando ao ouvido do irmão. E, procurando manter a voz firme para que não se percebesse que também ela chorava, acrescentou: 
– Vamos para casa!

Já recuperada da momentânea paralisação a que fora acometida, o primeiro impulso de Mathilde foi abrir os braços para acolher o irmão que avançava na sua direcção, e logo, puxando-o contra si, abraçá-lo com quanta força pode na ocasião mobilizar, caindo depois ambos de joelhos no duro e empedrado piso da eira, chorando compulsivamente no ombro um do outro.

Embora não o parecesse, apenas dois anos diferenciavam em idade os dois irmãos. Era porém de tal forma responsável e protectora a atitude de Mathilde que por vezes pareciam mãe e filho.
Também distintas eram as diferenças físicas entre ambos. Ela, alta, já mulher formada, senhora de um fácies preponderantemente sério, por vezes mesmo sisudo, a poucos aparentava ainda faltar-lhe mais de seis meses para completar treze anos. Ele era mais franzino, imberbe, e embora alto, revelava claramente um ar ainda muito infantil.

Motivos dispares tinham levado ambos os irmãos naquele Sábado ao “Largo da Eira”.
José para lá fora com a esperança de um dia também ser um dos escolhidos a participar naqueles jogos, Mathilde, acompanhando com gosto o irmão, encontrava na vontade de José o pretexto ideal para ver e se aproximar daquele por quem o seu coração palpitava: Jayme, um dos mais destacados rapazes ali a jogar, moço que apesar de ter apenas quinze anos, uma vez por outra, também já era requisitado para os jogos dos adultos.
Quando a terra tremeu, no primeiro momento Mathilde julgou que só ela tremia, já que acabara de se sentir tocada pelo olhar que Jayme lhe lançou, depois do qual corara e baixara os olhos, sentindo então todo o corpo a tremer. Só quando José gritou pelo seu nome chamando-a assustado, foi que aquele:
– 
Mathilde. Mathilde…  lhe fez cair em si! 
Já com o irmão pela mão, em vez de ir directa a casa como tinha inicialmente pensado e dito, Mathilde dirigiu-se até à porta da ermida para pedir a Santa Clara que intercedesse junto de Santa Bárbara.
– 
Verás que Santa Clara e Santa Bárbara vão permitir que não aconteça nada de mal 
– dizia ela ao irmão enquanto ambos caminhavam em direcção ao adro da ermida para fazerem a prece que a ocasião exigia. 
De facto, assim foi: só um susto. Mas um susto enorme, a ponto de provocar cegueira, felizmente só temporária, ao vizinho da frente. Mas sim. Só e apenas um susto!

Um grande susto apanhou também “Ti Xólóló”, velho moleiro e visita habitual ao que restava do moinho que ao longo da vida garantira o pão que ele pusera sobre a mesa de sua casa para alimentar a numerosa família que tinha.
“Ti Xólóló”, que próximo do moinho onde durante largos anos trabalhara também via os rapazes a jogar à bola, não conseguiu disfarçar o medonho susto que apanhou: foi a terra a tremer, foi o tremendo ruído que acompanhou o sismo, mas foram sobretudo as pedras que, caindo das ruínas do moinho ao lado, lhe foram parar junto aos pés e só por sorte não o aleijaram seriamente.
Apesar de tudo, “Ti Xólóló” foi o último a sair naquele Sábado do “Largo da Eira” pois, ao contrário dele, que já caminhava com esforço apoiado num grosso e luzidio cajado, os rapazes como que por encanto, “desapareceram dali para fora enquanto o Diabo esfregava um olho”!
Para todos, velhos e novos, aproximava-se a despedida daquele local tal como sempre o conheceram. No ano seguinte seria derrubado o último dos moinhos que ali existiram durantes séculos e até o 
local pouco tempo depois mudaria definitivamente de nome, adoptando o de “Largo da Peça”, pois foi o escolhido pelos “americanos” para posicionar a peça de artilharia que defenderia o Porto de Ponta Delgada.



A meados de Junho tinha chegado a Ponta Delgada o cargueiro americano “Orion”. Veio com carvão para abastecimento do depósito local daquele combustível, mas trazia também na popa, – por feliz acaso, dizia-se ... –, uma peça de 100mm. Outro feliz acaso, foi o “Orion” ter chegado com uma avaria na hélice, o que levou a que tivesse de ser colocado a seco, na rampa do porto, em posição estratégica – ainda outra enorme e feliz coincidência –, insistiam, permitindo que a arma, melhor e mais potente do que qualquer outra da ilha, ficasse com a linha de fogo desimpedida, em condições de disparar por cima do molhe da doca.
Também em Santa Clara alguns, poucos, sabiam que um submarino rondava a ilha: é que os alemães necessitavam de água e frescos, logo alguém teria de os fornecer!


Passaram rápido as últimas duas semanas do mês de Junho, o que não passou, pelo contrário a cada dia se tornava mais ruidosa, foi a discussão sobre a derrota com que os “Azuis”, da “loja” do Sr. Antoninho Carreiro, tinham vergado os “Vermelhos”, da “loja” do Sr. João Travassos.
Empolgados, eufóricos mesmo, estavam os adeptos dos “Azuis”. Não eram muitos, sobretudo se comparados com os simpatizantes dos “Vermelhos”, mas eram bons – os melhores –, como imodestamente se consideravam.
No falatório sim, aí eram realmente bons, perfeitos mesmo! De tal forma assim era que desde a retumbante vitória, na sua maioria, à boca cheia, irónica e provocatoriamente, os “Azuis” não se cansarem de dizer terem acontecido naquele fim-de-semana dois abalos de terra: ao sismo do Sábado, que a todos assustou mas só a um, por acaso como eles também “Azul”, tirou a voz, haveria que se adicionar o terramoto de Domingo, ainda maior do que o da véspera, pois a derrota dos “Vermelhos” por oito golos a um, 8-1, ou “
aatum”, como diziam acentuando a característica pronúncia local, havia emudecido todos os “Vermelhos”.

De facto ninguém esperava aquele resultado. Se já pouco esperada era a vitória dos “Azuis”, inimaginável, para quase todos impossível, seria, antes de ter acontecido, pensar que os “Vermelhos” pudessem ter sido derrotados por aqueles números. Mas acontecera e estava identificado o carrasco, autor de cinco dos oito golos conseguidos pelos “Azuis”. O algoz, para os da “loja” do canto da ermida, verdadeiro herói para os seus, os “Azuis”, da Segunda Rua, chamava-se Pedro, mas era por “Peixinho Voador” que todos o conheciam: uns pensando que a alcunha lhe era devida porque, apesar de já não ser novo, continuar muito rápido na condução da bola em direcção à baliza; outros porém diziam tratar-se de uma alcunha de família, da mais antiga família de pescadores de Santa Clara.
Mas esta era uma dúvida que permanecia!
Confirmado estava ele ser o herói do momento, entusiasticamente aplaudido e abraçado desde que acabara o jogo até então, dois dias decorridos.
Dúvida também se instalou quando, algum tempo depois, “Peixinho Voador” comprou um barco novo.
 
– De onde veio aquele dinheiro – questionava-se.
– Está a dever, há de pagar, é um homem muito trabalhador e poupado – diziam uns.
– Aquilo é do dinheiro ganho a levar água e comida aos alemães –  diziam outros, muitos, mas em surdina e sempre vigiando se ele, ou algum dos seus, não estava por perto.
– Invejosos é o que são –, arrematava apaziguando o dono da “loja” que ele representava e, deve também dizer-se, homem que tinha mais simpatia pelos alemães que pelos ingleses!

Já tinham passado três dias sobre a ocorrência do assustador sismo e dois sobre a copiosa vitória, por 8-1, dos “Azuis” sobre os “Vermelhos”, mantendo-se estes assuntos na ordem do dia, aos quais se acrescentava a delonga nas melhoras do Padre Leite e a acrescida preocupação que tal a todos trazia, também pela aproximação do dia em que muitos jovens santaclarenses iriam receber o Crisma.
A visita do Bispo só por si estava a dar muito que fazer, pois eram muitos os que se aprontavam para tal, razão pela qual, Mathilde e a mãe, uma costureira muito requerida no povoado, tinham ambas trabalhado até muito tarde naquela noite de Terça-feira.

Ainda com apenas uma ou duas horas de sono, Mathilde acordou de sobressalto.
Sentou-se na cama, espreitou pela frincha da janela, lá fora estava tudo “negro como breu”, longe vinha a madrugada, nem o sol ainda raiara. Como sempre acontecia nestas circunstâncias, era afinal nos irmãos em quem pensava primeiro, e destes, antes de mais nenhum, no José.
Já completamente desperta, Mathilde levantou-se, passou pela cama de cada um dos irmãos, aconchegando-lhes a roupa, detendo-se porém junto do preferido, a quem acariciou a cabeça e beijou antes de voltar para a sua cama.
Aparentemente não havia com que se preocupar, mas ela sentia aquela mesma angustiada sensação tivera no alvorecer do Sábado anterior, algumas horas antes do “tremor de terra” que toda a cidade assustou, felizmente sem danos de maior.
Já era quarta-feira. Apenas quatro dias tinham passado desde o assustador abalo de terra, a última vez que ela também acordara assim, de repente e com tão grande inquietação.

Mathilde voltara a adormecer, até já sonhava com o dia do seu Crisma, vendo-se de vestido novo em frente ao Sr. Bispo, quando, um vigoroso estampido, que parecia empurrado por uma tão forte quanto fria aragem de Noroeste, assobiou como que entrando pelas frinchas das portas e janelas da traseira da casa, acordando-a de novo.
Ainda aquele aterrador ruído zoava quando a ele se juntaram os gritos aflitos de José:
  Mathilde. Mathilde! O que é isso? A terra está a tremer outra vez?
Mathilde não tinha resposta para o irmão. Saltou da cama, foi ter com José, abraçou-o trazendo-o para a sua cama. Uma coisa ela sabia, aquilo não era um sismo, nada daquilo era igual ao que acontecera no Sábado anterior, momento que naquela altura não pode deixar de relembrar.

Ainda mal tinha acabado de acalmar o irmão, já com os restantes todos acordados e em agitada movimentação, um novo estampido foi ouvido e logo outro e outro ainda.
Agora os estrondos ora vinham do lado do mar, de mesmo dali muito perto, ora vinham de mais longe, aparentemente do centro da cidade, com tempos compassados, como se fossem uma série de trovões, uma azoada que apesar de não ter demorado mais de quinze minutos parecia nunca mais querer acabar.
Imediatamente a rua se encheu de gente, elas em camisa de dormir, eles em ceroulas, muitos no meio da rua, muitos mais nas portas e janelas, caindo sobre as suas cabeças muitos vidros partidos, cujo barulho acrescentava o enorme burburinho e medo que entretanto se instalara.

A resposta a tamanha confusão só mais tarde apareceu: fora um submarino alemão que dispara sobre Ponta Delgada, só se afastando depois do navio americano, o “Orion”, ter disparado contra ele.


 

 

Foi ao “Orion”  "por feliz acaso e grande coincidência, talvez mesmo por milagre" –, como alguns então disseram,  a seco, subido na rampa do porto de Ponta Delgada de forma a que a sua arma pudesse fazer fogo por cima do molhe, que se ficou a dever a defesa de Ponta Delgada contra o ataque do U 155 alemão iniciado ao largo da costa de Santa Clara.  
Nos dias seguintes, e merecidamente, tanto a população como as autoridades de Ponta Delgada não se pouparam em agradecimentos e homenagens aos heróis, facilitando assim o ensejo americano de instalar nos Açores a base militar que pretendiam. Sem perder tempo, logo no mês seguinte, Agosto de 2017, o governo americano oficializa a pretensão de estabelecer uma base em Ponta Delgada, mas tal como acontecera com Afonso Costa, então por sujeição aos ingleses, agora também Sidónio Pais, pressionado pelos monárquicos, foi impedindo, enquanto pode, a vinda dos americanos.
Os alemães, melhor que ninguém, conheciam as aspirações americanas e, ao mesmo tempo que intensificavam os ataques de submarinos pelo Atlântico, davam a conhecer ao mundo a intenção dos EUA em fazer dos Açores uma “Malta Americana”.
Em consequência da estratégia de antecipar a acção à lenta decisão diplomática, no início de 1918 os americanos iniciam a instalação da sua base nos Açores. A já abrigada bacia da doca de Ponta Delgada encheu-se de vasos de guerra dos EUA e Santa Clara de militares vindos do outro lado do Atlântico, acampados que na sua maioria ficaram no “Campo Açores”, assim transformado em "Field Azores", passou a local de alojamento para soldados americanos e, o “Largo da Eira”, onde foi colocada uma peça de 175mm, e que por tal logo ficou conhecido por “Largo da Peça”, na frente avançada de defesa do porto.

Os americanos foram bem acolhidos em Santa Clara, também fizeram por isso. Eram amigáveis e generosos, oferecendo cigarros, vestuário e calçado aos mais velhos e guloseimas – “candiles” e “gamas” – às crianças.
Ensinaram jogos novos, como o basebol, que mesmo muitos anos depois de eles saírem, sem tacos nem material adequado e em espaços improvisados, continuou a ser praticado sob o nome de “Jogo dos Ramos”, corruptela de “home run”, tal como “beice” o era para “base”.
Nem dois anos de convivência foram, mas deu tempo para até família deixarem!

 

Em Santa Clara, não obstante o alvoroço provocado pelo ataque do submarino e da euforia que se seguiu em apoio aos americanos, a expressiva vitoria dos “Azuis” sobre os “Vermelhos” continuava a ser motivo de forte falatório, agora porque os vencedores tudo faziam para adiar o devido e justo desafio feito de imediato pelos “Vermelhos”.
A grande justificação que os “Azuis” apresentavam para tal tinha a ver com não poderem utilizar dois dos seus mais preponderantes jogadores, um deles o próprio “Peixinho Voador, que tal como o colega de companha eram recorrentemente incomodados, se não mesmo até detidos, pela Capitania do Porto e ou pelo Governo Civil, dado que cada vez mais se propagava a “notícia” de serem eles quem abasteciam o submarino.
Certo foi que, de adiamento em adiamento, passou o Verão e a desforra ficou marcada para o ano seguinte. Depois, tendo chegando os americanos, o “Campo Açores” ficou impedido de ser usado para os “Campeonatos de Santa Clara”, situação que só viria normalizar no Verão de 1920, com os “Azuis” tornando-se naqueles que durante mais tempo – de 1917 a 1920 – detiveram o título de “Campeão de Santa Clara”, um feito durante longos anos apresentado como proeza nunca pelos “Vermelhos” conseguida.



O regresso do futebol ao "Campo Açores" e da política às "lojas"

 


 

 

Mesmo que inicialmente apoiada pela esquerda republicana e por um alargado leque de proletários, a ditatorial República Nova de Sidónio Pais, na qual Salazar mais tarde se inspiraria para criar o seu Estado Novo, não obstante o apoio dos conservadores, da Igreja e até dos monárquicos e pró germanófilos que tinha sabido agregar, rapidamente começou a desmoronar, para isso muito contribuindo as drásticas consequências da Batalha de La Lys.  Teve então início a série de acções violentas que culminaram no assassinato do Presidente-rei, o salvador, o mártir, quase um santo, como passou a ser considerado junto da maioria católica e mais conservadora.

No Mar dos Açores o caça-minas Augusto de Castilho, com o comandante Carvalho Araújo aos comandos, fazia escolta ao paquete São Miguel, em viagem entre o Funchal e Ponta Delgada, com mais de duzentas pessoas a bordo, quando teve de travar demorado e desigual combate com um submarino alemão.
O “Augusto de Castilho” acabou afundado tendo o seu comandante pago com a vida o seu acto de heroísmo, mas o São Miguel salvou-se. Um dos sobreviventes deste combate, internado que foi no hospital, não morrendo das consequências da batalha, escapou por pouco à pneumónica que então grassava em Ponta Delgada.
Por sua vez, e quase tudo em simultâneo como uma tempestade perfeita, o assassinato de Sidónio Pais aumentara o descontentamento geral, com a instabilidade política vivida em Portugal a fortalecer as aspirações daqueles que se movimentavam em prol da segunda Campanha Autonómica.
No final de 1918 Bruno Tavares Carreiro acompanha o Almirante Dunn a Londres e, quando regressam a São Miguel, são recebidos apoteoticamente por cerca de 10.000 manifestantes com slogans em prol da LIVRE ADMINISTRAÇÃO DOS AÇORES PELOS AÇORIANOS. Desafiado pelo comandante das forças americanas estacionadas nos Açores a incentivar os açorianos para que houvesse lugar a um plebiscito em favor de maior autonomia, ou até mesmo da Independência, o Dr. Bruno Tavares Carreiro responde-lhe não ser prudente, pois o que a maioria ali representada pretendia era a anexação dos Açores aos EUA e ele e os seus apaniguados o que pretendiam era “os Açores para os açorianos”!

 

Em Santa Clara, procurando realizar pretensões bem mais corriqueiras, aguardava-se com ansiedade que o “Campo Açores” regressasse a ser o que era, até para recomeçar com os “Campeonatos de Santa Clara” e,  por fim, ser possível voltar a medir forças entre “Azuis” e “Vermelhos”, já que o tal desafio continuava sem resposta, com os “Azuis” beneficiando da falta de oportunidade de ser jogada a desejada, pelos "Vermelhos", desforra, repondo a pretendida normalidade que ia para três anos faltava e permitia aos “Azuis” reclamarem, com alguma razão, o recorde de serem os campeões de Santa Clara que mais tempo detiveram o título.
Foi necessário esperar por 1920 para recomeçarem os “Campeonatos de Santa Clara” mas, nesta altura, dada a “fome” que havia de futebol, o “Campo Açores” dificilmente conseguia corresponder às solicitações, por ser muita a procura que passou a ter, pois apareceram ou reemergiram, uma série de clubes, antecipando o incremento que a modalidade registou, tudo culminando na criação da Associação de Futebol.

A consequência da pneumónica e os surtos de “tísica” que se lhe seguiram ajudaram a promover hábitos desportivos e, porque o futebol, já tendo ganho enorme popularidade, para além do espaço necessário não requeria grande investimento para ser promovido e organizado como desporto com actividade regular, mostrava-se a modalidade melhor talhada para massificar a desejada prática desportiva.


Depois de em 1920 o “Campo Açores” retomar a sua utilização desportiva, não só os “Campeonatos de Santa Clara” reapareceram com ainda mais vigor como apareceram ou reemergiram vários clubes, alguns com nomes bem caricatos, como: o Sport Club Terror, que se sabia ter já existência em Setembro de 1916 e sede então na Rua Açoriano Oriental, mudando-se mais tarde para a Rua do Corpo Santo; o Benfica Açoriano Sport Club; o Operário Micaelense Foot-ball; o Intangível Sport Club; o 4 de Julho Sport Club, com sede na Rua dos Manais e pelo nome também parecer ter sido influenciado pelo ataque do submarino alemão em 1917; o Não te Consumas Sport Club; o Vingadores Sport Club; o Grupo da Escola de Pilotagem Cortes Reais, além de outros. Tantos clubes e por consequência os jogos que estes disputavam entre si, quase em exclusivo no "Campo Açores", proporcionavam aos habitantes de Santa Clara, que sabiam como chegar ao às proximidades do recinto de jogos sem terem de pagar para tal, a possibilidade de assistirem a um enorme número de "partidas de futebol".

Nas “lojas” de Santa Clara, em especial nas duas rivais, também eram diferentes os jornais que se liam pois cada uma recebia o jornal que mais se aproximava do ideal defendido pelo seu proprietário.
Uma coisa porém era comum a quase todos os jornais, a farta quantidade de anúncios e pequenas notícias sobre os muitos jogos de futebol que então decorriam no "Campo Açores".
Foi no entanto o “Desafio” feito pelos “Brazileiros” ao Terror Sport Club aquele que pode ter resultado no jogo com maior cobertura jornalística naquele tempo, acrescentando-se às muitas notas de reportagem que originou um bem elaborado texto sob o título: “Domingo. O burguês deixa os asfaltos…”, assinado por Bruno Dennis, que a propósito de futebol tratava assuntos bem mais importantes, a ponto de emocionar seriamente o folgazão João Raposo, que ao ouvir a leitura do que fora escrito, inicialmente apenas porque tinha sido um dos protagonistas do jogo, já que ele e outros jogadores das "lojas" eram habitualmente requeridos pelo "Terror" quando o adversário, como fora o caso do jogo contra os "Brazileiros", tinha grande valia, não se pode deixar emocionar ao ouvir as referência ao Eng. Dinis Moreira da Mota, de quem desde criança ouvira falar, com o pai sempre a recordar o quanto de bem aquele ilustre senhor tinha feito por Santa Clara e pela sua família em especial.
A comoção e João Raposo levou-o a sair dali imediatamente e, sempre a correr, ir à cidade comprar aquele jornal para oferecer ao pai, apesar de nem um nem outro saberem ler.
O texto que tanto o impressionou, cujo título:  "
Domingo. O burguês deixa os asfaltos…"  mesmo depois de ouvido mais de uma vez continuava por ser entendido completamente, rezava entre o muito mais, isso:

(…) Desapareceram as antigas Pedreiras da Doca? (…) Dum deserto fez-se um bosque! Por entre as pedras brotaram acácias e pinheiros; o antigo solo abrasado ostenta hoje carvalhos, engélias, araucárias, rubínias, piteiras… e sobre aquela terra vermelha e tórrida, que escaldava, que feria a vista, estendeu-se um tapete verde …
(…) Quanto podem o entusiasmo de um homem, o escorregar vagaroso do tempo, e o forte viço das plantas!
(…) No meio do parque espraiando-se largamente como arena imensa está o Campo Açores. Plano, nivelado, extenso, presta-se magnific a todos os jogos, a todos os desportos: tennis, foot-ball, croquet, bilro barra, gymkanas, corridas de velocidade, de resistência, de bicicleta, concursos hípicos, etc.

A um canto, joga-se, muito mal, o Association. Brazileiros e Micaelenses disputam com ardor quem levará a palma …
(…) Denis Mota acariciava este plano; mas não se limitavam a isso os seus projectos. (…) Junto à casa do Século XX abrir-se-ia um lago, e construir-se-ia uma piscina. (…) O estabelecimento do seu Parque da Alegria (assim tencionava chamar-lhe)…


Fora estes pequenos momentos de leitura e consequente reflexão ou emoção, como fora o caso de João Raposo ao ouvir a leitura que quase sem falar no jogo de futebol que a originara tanto o sensibilizara, eram os jogos dos “Campeonatos de Santa Clara” o que acendia as discussões e incendiava as pelejas nas "lojas".
Os “Vermelhos” voltaram a superiorizar-se, agora até já eram dirigidos por um jovem oficial que por aquela altura parava muito por Santa Clara, sendo amigo próximo, mais tarde até compadre, do Sr. João Travassos, dono da “loja” do canto da ermida, núcleo agregador dos eternos rivais dos “Azuis”: Joaquim de Sousa era o nome do então jovem alferes.

Não haveria de passar muito tempo para que outro assunto, também ardentemente defendido pelo jovem, atlético e garboso oficial, empolgasse tudo e todos: estava a ser organizado, e se tudo corresse bem iria ter a sua sede em Santa Clara, um clube vocacionado para a ginástica e o boxe, mas que, dada a proximidade do "Campo Açores" e o gosto pela modalidade que os santaclarenses nutriam, também se iria dedicar ao futebol.  
A ideia não gerava grande consenso. 
Perguntava-se:
– 
Vão acabar as equipas das “lojas” ? … 
– Como é que jogadores que até ali tinham sido sempre leais “à camisa” que vestiam, azul ou vermelha que fosse, iriam agora deixar de o ser?

Na verdade, até então, e só em ocasiões muito especiais, quando o valor dos adversários o justificava, como acontecera contra os “Brazileiros”, é que alguns jogadores de diferentes “lojas” jogavam juntos, sendo exactamente sob as cores do “Terror Sport Club” que isso acontecia, o que mesmo assim não era bem visto pelos colegas de equipa, tampouco pelos donos das “lojas”.
O nome do grémio que estava a ser constituído até que era pomposo: "Ginásio Clube Micaelense", e o seu principal dinamizador muito querido em Santa Clara, de modo especial pelos frequentadores da "loja" do Sr. João Travassos e pelos muitos adeptos dos "Vermelhos", mas nem isso os convencia!



A política e o futebol, agora também já fora de portas das "lojas" de Santa Clara





A cadenciada sucessão de governos em 1921, que se prolongaria nos seguintes, só por si já indiciava a turbulência política em que Portugal vivia mas foi a “Noite Infame”, como lhe chamou Raul Brandão, e a série de assassinatos que nela se cometeram, entre os quais o de António Granjo, chefe do Governo, o grande sinal do quanto mal ia a I República, menos de cinco anos depois sufocada pelo 28 de Maio de 1926 a que o Estado Novo daria continuidade.

 

Em Santa Clara, onde até já haviam tido início as obras para os depósitos de combustível da “Tagus Oil Company”, que com o passar do tempo ficaram conhecidos como “os Tanques do Óleo”, representando mais emprego e mais rendimento disponível, estas “revoluções” quase passavam despercebidas não fora “Mané Língua Afiada”, funcionário do telegrafo postal e cliente habitual das “lojas” de Santa Clara, umas e outras, era questão de saber onde havia melhor vinho, desbocado como era, a partir do segundo “mezinho” começar a relatar as notícias que chegavam no dia, pois já não tinham de vir no vapor e esperar o tempo que este levara para chegar de Lisboa a Ponta Delgada.
Em cada uma das “loja”, ao gosto do freguês e consoante a intenção com que eram feitas as perguntas, “Mané Língua Afiada” antecipava a notícia que nem sempre os jornais traziam, nuns lados dizendo:  
– Sabem que morreu o António Granjo, dizem que os assassinos foram instigados pelos monárquicos que se queriam vingar do regicídio – dizia ele para republicano ouvir, ou:
– Olhem, mataram o Primeiro Ministro, parece que os mandantes eram maçons do partido democrático, descontentes com o apoio dos liberais a Granjo – dizia ele quando a plateia era monárquica.
A verdade é que não mentia, já que pelo telégrafo tinham chegado ambas as versões. Falar demais, sim, era este o defeito de “Mané Língua Afiada”.

Acontece que os jornais por cá não traziam grandes detalhes sobre estas notícias.
O que os preenchia na altura eram as disputas entre os que desejavam o "Ginásio Club Micaelense" e aqueles que, achando ser necessário muito mais do que uma colectividade desportiva, pretendiam fundar um "Instituto de Educação Física", mais abrangente, mais preocupado com a saúde pública, organismo onde não faltariam competentes técnicos especializados, cuja contratação, na Alemanha, um dos seus defensores já propusera e até já se oferecera para tratar, em viagem pensada para breve.  
Quem se estava a sentir ultrapassado no processo era o jovem alferes Joaquim de Sousa e seus colegas de armas e prática desportiva, que a cada dia passado, e depois de cada assembleia marcada para dar início ao "Ginásio Club Micaelense", verificavam que as notícias do dia seguinte não só favoreciam os defensores do "Instituto de Educação Física" como, para cúmulo, até zombavam com o seu principal impulsionador, Joaquim de Souza, como acontecera com o poema satírico publicado num jornal e que depois era declamado em surdina nas “lojas” de Santa Clara, que entre o mais cantava assim:

“Ao formar-se o tal ginásio
Houve grande animação
Discutiu-se largamente
A física educação. 

Um desejava que se chame
O Real Ginásio Clube
Mas receia que este nome
Algum catita o derrube.

Outro diz que é Instituto
O seu nome verdadeiro
Instituto, sim senhor
Grita logo outro parceiro. 

(…) 

Apanhou logo a piada
Como outrora se dizia:
Ó Sousa, tu vais à física
Passa a dizer-se hoje em dia
Vais ao Instituto Ó Sousa
E responde outro do lado
Cala a boca, ó seu coisa
Não se faça espevitado.



Se em 1920 aparecerem as primeiras notícias sobre a tentativa de criação do "Ginásio Club Michaelense", assunto que ao longo de 1921, em especial no seu último trimestre, ocupou dezenas de páginas dos jornais, logo no início de 1922 já estava assente que o projectado "Ginásio Club Michaelense" dera lugar ao "Instituto de Educação Física", de pouca dura porém.


O derrotado no processo, foi a Joaquim de Sousa quem, para o contentar e apaziguar os mais exaltados, acabou entregue a organização e dinamização das modalidades populares do "Instituto", entre as quais, o futebol.
Praticamente de imediato foram criadas três equipas: os "Vermelhos", que Joaquim de Sousa integrou e capitaneou; os "Pretos", com Augusto Moura Jr. como capitão, e ainda os "Brancos", uma terceira equipa com pouca ou nenhuma história.
Foi desta forma que até Maio de 1922 os caminhos de Joaquim de Sousa e do “Instituto” ainda se cruzaram, fazendo ele parte da equipa que defrontou no "Campo Açores" o grupo de futebolistas da Terceira convidado por aquele organismo a vir de visita a São Miguel, aproveitando para cá estarem durante as Festas do Senhor Santo Cristo.
No entanto, já no mês seguinte Joaquim de Sousa não incluiu a equipa do “Instituto” que foi à Terceira. Ainda durante o Verão deste ano foi tornada pública a colaboração do jovem alferes Joaquim de Sousa com o Clube União Sportiva 
que recentemente se tinha autonomizado da Associação de Classe dos Empregados do Comércio, transformando-se de: "União Sportiva dos Empregados do Comércio" em Clube União Sportiva, preparando-se já assim para o projecto já no pensamento de muitos: constituir uma "Associação de Futebol" local.

Já desde meados de 1921, quer pelos jornais, mas sobretudo via as diversas visitas de “Mané Língua Afiada” às “lojas” de Santa Clara, outros assuntos entraram na “ordem do dia”: a disputa do primeiro Campeonato de Futebol de Portugal e a estreia da Selecção Portuguesa, que perdeu em Espanha por 1/3.

Antes da ida de Joaquim de Sousa para o Clube União Sportiva, logo após este clube se ter constituído como tal, e com isso dando um enorme contributo para o êxito que aquela colectividade obteria ao longo de toda aquela década, já se falava na possibilidade de criar uma associação capaz de organizar e gerir, também em São Miguel, um campeonato.
Já então, e mais uma vez, em Santa Clara as opiniões divergiam entre aqueles que logo anteciparam que isso seria o fim dos campeonatos locais e das equipas das “lojas” e os que, vendo mais além, cedo perceberam que aquela seria uma oportunidade a não perder para, juntando os melhores jogadores de Santa Clara, criar um clube que representasse o bairro no campeonato representativo da cidade.
O Instituto de Educação Física já aderira à ideia de organizar a associação para o futebol; o Club União Sportiva, com a sua recente alteração de Estatutos e nome também já dava sinais de querer participar no projecto, a Federação Operária, à semelhança do que acontecera com a dos Empregados do Comércio, também já pensava em constituir um clube que a representasse: o Operário Sport Club e, sendo três clubes o mínimo indispensável, um quarto viria mesmo a calhar, devendo Santa Clara não perder a oportunidade, defendiam sobretudo os adeptos dos “Vermelhos” da “loja” do canto da ermida.



O primeiro Santa Clara federado: Santa Clara Foot-ball Club
(Outubro de 1922 /Março de 1927)





Já praticamente definidos e em processo de organização que estavam aqueles que haveriam de ser os três primeiros clubes a acertarem-se entre si para constituir a "Associação de Futebol", no início de Outono daquele ano, Joaquim de Sousa deixa o Club União Sportiva para ajudar a organizar o quarto clube a integrar a associação.


Usando o seu carisma, depois de se entender com o amigo e compadre João Travassos, foi-lhe também possível, trazer ao projecto Antoninho Carreiro.
Assim, e depois de passadas não muitas semanas, mas as suficientes para ter a equipa devidamente "instruída", como os jornais na época profusamente o registaram, a 8 de Outubro de 1922 os “Azuis de Santa Clara”, já que a cor das camisolas foi parte do preço a pagar para convencer o renitente monárquico, Antoninho Carreiro, apresentaram-se em público vencendo o vestusto “Terror” para, cerca de seis meses depois, a 14 de Abril de 1923, já integrarem a Assembleia Geral constitutiva da fase embrionária da Associação de Futebol, então já destinada a ser chamada de: "Associação de Futebol de São Miguel".

Se já só com os “Campeonatos de Santa Clara”, competição estruturada na sequência desafio vs desforra, Santa Clara se apresentava como uma referência futebolística, o facto de ser no "Campo Açores" que aconteciam a maioria dos jogos disputados em Ponta Delgada reforçava ainda mais o papel do bairro como palco de futebol e “viveiro” de futuros praticantes da modalidade.
Sendo assim antes, da mesma forma continuou após a criação da Associação de Futebol, já que, embora passando a dois os campos de futebol a utilizar, em Santa Clara manteve-se um dos principais e o mais popular dos recintos de futebol de Ponta Delgada: o "Campo Açores".
Aliás, se contrariedades existiram, estas foram quase sempre a haver excesso e não falta de praticantes de futebol em Santa Clara: a grande rivalidade Clube União Sportiva vs “Santa Clara” tendo começado logo em 1923, é bom exemplo disso.

O “acordo de cavalheiros” conseguido por Joaquim de Sousa com João Travassos e Antoninho Carreiro para, fundindo as equipas das suas “lojas”, constituir o primeiro “Santa Clara”, aquele que haveria de ser um dos fundadores da Associação de Futebol, cedo começou a gerar algumas discórdias.
Cedendo a Antoninho Carreiro quanto à cor do equipamento a usar, o azul, também teve de ceder a João Travassos quanto a algumas escolhas de jogadores. O caso que foi mais difícil de resolver e que por isso ficou na memória, sobretudo dos familiares do jogador então “enjeitado”, foi a decisão entre integrar na equipa Pedro “Peixinho Voador” ou João “Pica Miolos”.
Ambos eram os melhores “asas direita” de Santa Clara e arredores, habitualmente convocados, à vez, para integrar a equipa do “Terror” quando o valor dos adversários o justificava. Porém, ao contrário de João “Pica Miolos”, então ainda rapaz, “Peixinho Voador” já era um “trintão”, embora atlética e tecnicamente ainda muito bem dotado.
Como se só isso não não fosse handicap suficiente, sobre “Peixinho Voador” ainda recaía a, embora cada vez mais desvanecida, mas sempre que útil maldosamente utilizada, história de ter ele ajudado os alemães.
Assim, e na hora de decidir quem haveria de integrar o grupo a formar, Joaquim de Sousa decidiu-se pelo mais novo, o “Pica Miolos”, além do mais afecto à “loja” de João Travassos, ao contrário de “Peixinho Voador”, sempre leal à de Antoninho Carreiro.

Conhecido o burburinho que a decisão provocara, não tardou nada para que um emissário da “União Sportiva” viesse ter com “Peixinho Voador” e convidá-lo a reforçar “os verdes de Ponta Delgada”.
Apesar da sua idade, “Peixinho Voador” no Clube União Sportiva ganhou tal relevo que pouco tempo depois foi o próprio Joaquim de Sousa quem foi falar com ele, tentando convencer-lho a integrar o “Santa Clara”.
A resposta de “Peixinho Voador”  foi tão clara quanto dura:
– Sou um homem de uma só palavra. Não é por me prometerem mundos e fundos que desonro a palavra data. O Sr. que desculpe, mas não vou. Tivesse pensado nisso primeiro quando colocou aquele “pecheno” a jogar no meu lugar. Aquilo foi um vexame. Não percebeu isso na altura?

O já então carismático oficial Joaquim de Sousa ouviu e calou!


 


Tendo eclodido um pouco antes, a segunda campanha autonómica começa a ter palco no período pré-eleitoral de 1918 para, três anos depois, em 1921, aparecer em força.
O movimento é sobretudo originário no então Distrito de Ponta Delgada, lamentando os seus dirigentes a indiferença ou até oposição, que importantes sectores da Terceira, Horta e até do Funchal dispensavam à causa.
Chegou a ser proposto a realização de um “Congresso Açoriano” como forma de cimentar a unidade e solidariedade açoriana, o que só muito mais tarde, 1938, já em tempos de completo sufoco, acaba por acontecer.
“Se a Madeira quisesse” é desafio feito pela imprensa micaelense e, pela mesma via, vem a resposta: “a Madeira quer!”.
Mas a letargia autonómica continua sendo caminho fácil. Aristides da Mota, um dos paladinos da primeira campanha autonómica (1894/95) volta a terreiro mas, como que asfixiado pela predomínio dos monárquicos em cena, afasta-se.
A cultura e o desporto são apontados como forma de luta pela união dos açorianos.
Se já antes, com Armando Narciso à cabeça, havia sido defendida a ideia de uma literatura e pintura açoriana, avançando ele já então para a importância do ensino da História dos Açores, e em Fevereiro de 1924, em Angra, Luis Ribeiro considerou “O Milhafre”, de Cortes Rodrigues, como uma obra prima digna dos mais exigentes públicos, é no entanto a viagem do Fayal Sport a Ponta Delgada, a convite da Associação de Futebol de São Miguel, então presidida pelo regionalista republicano Dr. Francisco Luís Tavares, o grande expoente em 1924 da “Fraternidade Açoriana”.
  
No ano seguinte, nas vésperas de mais um acto eleitoral, Aristides da Mota volta a terreiro na linha da frente do “Partido Regionalista”, sendo desta altura a sua célebre frase: “Sinto que me voltará o vigor da mocidade para ir por toda a parte pregar a nova cruzada”.
Os “Regionalistas” vencem as eleições em Ponta Delgada. Mas era pouco e tarde, a “Ditadura Militar” e, depois, o “Estado Novo”, já irrompiam, para regalo de uns e desgosto de muitos mais!

 

No início de 1925 o "Autonómico Açoriano", que com base em Ponta Delgada tinha ido várias vezes à Terra Nova com muitos santaclarenses a bordo, descarregando o bacalhau que pescava em Ponta Delgada, peixe que era seco e tratado em Santa Clara, no então "Largo da Eira", tendo como cenário de fundo, a Poente, os Moinhos de Santa Clara, naufragara ao largo de São Miguel: não era bom vaticínio, adivinhava-se!

Com vista às eleições daquele ano, durante os meses de Setembro e Outubro de 1925, os santaclarenses foram convidados a comparecer aos comícios de uma e de outra das trincheiras.
Estava porém noutra frente o essencial do apoio santaclarense ao republicanismo puro e duro, cujo último reduto em Ponta Delgada, a Associação de Futebol, abrira o flanco “ao inimigo”, infiltrada que fora pelo Dr. Agnelo Casimiro.
Com o Dr. Francisco Luís Tavares a comandar outra vanguarda, preparava-se o Dr. Jeremias da Costa para vir resistir, na defesa do bastião “velho republicano” de Ponta Delgada, que tinha no Santa Clara Foot-ball Club um aliado de peso e indefetível.

O desgaste provocado pelos "ventos da mudança" entretanto já começara a fazer mossa e, mesmo em Santa Clara, o grande suporte do clube local, o Sr. João Travassos, tornara-se numa das vítimas dos difíceis tempos que se viviam, em especial para os alinhados com a I República. Nem a bonomia e amparo do Padre Luís Augusto Pacheco, também sencível às questões sociais e solidário com quem as defendendo se prejudicava, nem mesmo a protecção de Nossa Senhora Auxiliadora, recentemente chegada à ermida para dar início a uma enorme devoção em prol do seu auxilio valeu ao "velho replublicano" que tanto bem-fazer praticara enquanto lhe foi possível. 
Não podendo João Travassos mais amparar, como sempre fizera, o seu Santa Clara Foot-ball Club, este, com a falta do importante suporte que daquele mecenas vinha, começou a vacilar!



Com o ritmo a que se sucediam as administrações, vinte e cinco governos em cinco anos, sendo que só em 1920 e 1921 foram sete diferentes executivos em cada um destes anos, há muito que se adivinhava o fim do regime, sem faltar quem se não poupasse a esforços para que tal acontecesse.
Disputadas sob enorme alvoroço, em 1925 aconteceram as últimas legislativas da I Republica. Em Ponta Delgada, vencendo por maioria, e elegendo dois dos três deputados da conta, os “Regionalistas” elegeram Filomeno da Câmara e Herculano Ferreira, quando, na mesma altura, em Coimbra, aquele que pouco tempo depois iria mandar em tudo e todos:
 António de Oliveira Salazar, fora completamente esmagado nas urnas.


Não tardou nada e, com a promessa de fazer um governo forte para depois restituir o poder a quem democraticamente o obtivesse, na madrugada de 28 de Maio de 1926 começou uma ditadura que abrindo caminho a outra, só quarenta e oito anos e um mês depois, noutra madrugada, iria terminar.

Na verdade, a custo mas de forma consistente, desde 1922 que António Maria da Silva, como líder do Partido Republicano Português e chefe de governo por cinco vezes nos doze executivos formados entre 1922 e 1926, vinha colocando alguma ordem no autêntico caos em que se tornara a I Republica. Mas isso não agradava a todos, nem mesmo a alguns republicanos seus parceiros de partido e, assim, prometendo liberdade e o fim da ditadura dos políticos irresponsáveis, o General Costa Gomes, de início com grande apoio popular e somando a este o dos dissidentes PRP e o de alguns sindicatos anarquistas, comandou a “Revolução Nacional” de  28 de Maio.

 

Por cá os efeitos da dita e dura revolução não se fizeram esperar.
Já desgastado com os efeitos das dificuldades económicas dos anos anteriores, sem João Travassos e logo sem Joaquim de Sousa, o Santa Clara Foot-ball Club entra numa espiral de desorganização que já na época 1925/26 só por pouco não causa o seu fim.
Porém, na época seguinte, como que contagiado pelos actos revolucionários de Fevereiro de 1927, não resiste a mais um acto de indisciplina ocorrido no início de Março durante um jogo decisivo com o grande rival: o Clube União Sportiva.
A derrota inesperada e pesada naquele jogo, que para mais se começou a desenhar logo nos primeiros minutos, além do mais, permitiu ao Clube União Sportiva ganhar o terceiro título consecutivo e com isso arrecadar definitivamente a respectiva taça. 
Os ânimos aqueceram, e muito, e, escreveu-o a imprensa da época, "Troia ardeu dentro e fora do campo", com os actos de indisciplina inicialmente verificados só entre os jogadores, rapidamente contagiando o público e até os dirigentes, que mesmo depois do jogo ter sido interrompido, com o recomeço, também a fazer retomar a "batalha campal".
As "feridas" foram de  tal forma profundas que, mesmo tendo a Associação de Futebol" tentado minimizar os danos, com castigos e algumas suspensões, doloridos, mais com a derrota e na sequência desta com a impossibilidade de evitar que o rival arrecadasse aquele troféu, teimaram em "bater o pé", recusando-se a pagar a multa aplicada, não deixando à Associação de Futebol outro caminho do que expulsar o clube do seu seio e aplicar pesados castigos a muitos jogadores e dirigentes, num dos casos mesmo o de irradiação.

Acabou assim, com arreganho, bravura, muita rudeza mas pouca glória, o Santa Clara Foot-ball Club.



O segundo Santa Clara federado: Sport Club Santa Clara
(Março de 1927 / Junho de 1931 - e 10 a 16 de Junho de 1935)





Porque a exclusão do “Santa Clara” colocava em risco a ténue prevalência dos “Velhos Republicanos” na Associação de Futebol, o Dr. Jeremias da Costa, que até 1931 tudo faria pata manter inviolável aquele último reduto de resistência ao salazarismo, facilitou para que um “Novo Santa Clara” rapidamente substituísse o Santa Clara excluído, com este, o Sport Club Santa Clara, sendo inscrito ainda a tempo de disputar a última prova da época e, logicamente, participar na Assembleia Geral electiva seguinte.
O Sport Club Santa Clara, na senda do seu antecessor, não só manteve o seu leal e importante apoio ao núcleo de "velhos republicanos" que resistiam na Associação de Futebol, como também, tal com o "Santa Clara" que o precedeu, manteve a sua sede em Santa Clara, sendo a Rua de Lisboa o local mais distante do núcleo histórico de Santa Clara onde esta se instalou.
A população da localidade manteve o apoio à sua equipa, que desportivamente estava enfraquecida dada a significativa quantidade de jogadores experientes com que não podia contar, uns porque estavam a cumprir os pesados castigos associativos determinados pela Associação de Futebol, outros porque desgostosos e inconformados com as muitas purgas que por aqueles aqueles tempos se tornaram moda, ou aliciados a "mudarem de campo" para verem as suas vidas facilitadas, optaram por caminhos menos penosos.
Restou recorrer à juventude com apetência para a modalidade, o que em Santa Clara não faltava, mas também não era o suficiente para equilibrar valor com os outros clubes que não tinham sofrido tão significativa  sangria.  

Foi muito modesto o palmarés do Sport Club Santa Clara: na época de 1926/27, a primeira em que competiu e quando ainda o Clube Desportivo Santa Clara não existia, em I Categorias ganhou o Torneio de Solidariedade para com os Sinistrados do Faial e o Torneio a Favor dos "Pobrezinhos da Freguesia de São José", este último em disputa directa com o Clube União Sportiva, sendo também o Campeão em II Categorias; na época de 1927/28 ficou-se apenas pelo 2º lugar no Torneio a Favor dos "Pobrezinhos da Freguesia de São José"; na de 1928/29 nada ganhou; em 1929/30 ganharia o seu último troféu  o Bronze das "Festas da Cidade", para na época de 1930/31, a última em que participou em pleno, voltar a ficar em branco.

Não teve vida fácil o Sport Club Santa Clara, e pior ainda ficou quando apareceu o Clube Desportivo Santa Clara, com a disputa entre ambos pelos jogadores de Santa Clara enfraquecendo-o mais, o que foi reciproco e penoso para ambos, arrastando-se ambos os clubes pelos lugares mais modestos das provas da Associação de futebol entre 1928 e 1931.


 


O Padre Luís Augusto Pacheco, Cura de Santa Clara por esta altura, função que desempenhava desde 1919 e a nela permaneceria até 1937, 18 anos, um período tão longo que só seria ultrapassado pelo Padre Fernando Vieira Gomes, que chegaria a Santa Clara mais de vinte anos depois, em 1949, era um homem atento e solidário com os santaclarenses e santaclaristas, tendo ele próprio ajudado a organizar em 1922 o Santa Clara Foot-ball Club.
Nascido e criado que fora na freguesia de São José, o Padre Luís Pacheco não só conhecia muito bem as idiossincrasias das gentes que espiritualmente guiava, como era também um homem sensível e seriamente comprometido com a defesa dos mais humildes e desfavorecidos.
Tal como a partir da festa de Santa Clara de 1922 fizera com o Santa Clara Foot-ball Club, mal foi informado que a Associação de Futebol facilitaria a inscrição de um novo Santa Clara, o "Santa Clara Novo" como ficaria conhecido, rapidamente na Associação, logo se aproximou dos seus jovens componentes, jogadores e dirigentes, afim de os apoiar no que fosse possível para colmatar aquela enorme lacuna que era perder a possibilidade de ter uma equipa do bairro a competir nas provas da Associação de Futebol. Entre outros, foi dos então jovens Carlos Ildefonso Tomé e Manuel Moniz, por todos conhecido como "Manuel Trindade", já que Monizes em Santa Clara eram muitos e a mãe daquele Manuel tinha como nome próprio Trindade, Maria da Trindade, que se aproximou com eles engrossando o "núcleo duro" dos dirigentes e adeptos do Sport Club Santa Clara com gente que já dera provas de capacidade e moderação nos dias mais difíceis do Santa Clara Foot-ball Club.

Foi a conselho do Padre Luís Pacheco que o Sport Club Santa Clara, no início da época 1927/28, resistiu ao assédio de uns "senhores da cidade", que se oferecendo para integrar e ajudar o clube recentemente inscrito na Associação a substituir o "Santa  Clara Velho" apareceram já com uma proposta de Estatutos em que, não modificando o nome, apenas o traduzindo para português: Clube Desportivo Santa Clara, se comprometiam também em adquirir um equipamento que fizesse a fusão das cores que o "Santa Clara Velho" e o "Santa Clara Novo" usavam, respectivamente o vermelho e o branco das camisolas, que ficariam representadas em listas horizontais.
A recomendação do Padre Luís Pacheco tinha fundamento. Amigo e próximo que era dos dirigentes da Associação de Futebol, os mesmos que o tinham ido procurar antes de terem facilitado a inscrição do Sport Club Santa Clara, por estes também tinha sido prevenido de um projecto encabeçado por quem na altura, pretendendo controlar alguns clubes, tinham como objectivo tomar de assalto a Associação de Futebol para de lá desalojar o núcleo de "Velhos Republicanos" dos quais também, apesar de tudo, incluindo a sua desconfiança perante o clero mais conservador, ele, 
o Padre Luís Pacheco, era próximo.

Foi também a recomendação do Padre Luís Pacheco que, mais tarde, em 1931, expurgados que já estavam os "Velhos Republicanos" da Associação de Futebol e muito debilitado que se encontrava o Sport Club Santa Clara, este voltou a resistir a uma proposta de fusão com o Clube Desportivo Santa Clara, que entretanto já se tinha inscrito na Associação de Futebol mas que, tal como já no Verão de 1927 lhe tinham informado, era mais o retirar da Associação de Futebol o núcleo republicano que a dirigia do que o interesse e defesa dos princípios que desde a origem o Santa Clara Foot-ball este defendia, convicções estas a que o Sport Club Santa Clara dera continuidade. 

Em resultado deste ultimo aconselhamento do Padre Luís Pacheco, em vez do Sport Club Santa Clara, mesmo já muito debilitado, se fundir com o Clube Desportivo Santa Clara, acabou por recusar assinar o documento previamente elaborado para a fusão e, em alternativa, requereu a suspensão da sua filiação na Associação de Futebol, permitindo que os seus jogadores se inscrevessem no clube que entendessem, tendo a grande maioria deles acabado por optar pelo Clube Desportivo Santa Clara.

Quatro anos depois, em 1935, preparando-se uma nova tentativa de derrubar já então o Estado Novo e António Oliveira Salazar, aproveitando a "abertura" que o Dr. Guilherme de Morais permitira na Associação de Futebol, o Sport Club Santa Clara pediu a sua reinscrição na Associação de Futebol, assim permanecendo não mais de uma semana, pois de imediato, via alteração estatutária, mudou o seu nome para: Grupo Desportivo dos Manipuladores de Pão, popularmente conhecido por "Os Padeiros", agremiação que com esta denominação nem um ano durou. 



O terceiro Santa Clara federado: Clube Desportivo Santa Clara
(Novembro de 1927)





Na sequência de um processo que se iniciou em Maio de 1927 com uma reunião que elegeu uma "Direcção Interina", a 21 de Junho daquele mesmo ano iriam ser aprovados os Estatutos de Fundação do Clube Desportivo Santa Clara para, no fim do mês seguinte, dia 29, ser obtido no Governo Civil o respectivo Alvará. 
Ainda em 1927, depois de mais de uma insistência, próximo do fim do ano, em Novembro, outro “Santa Clara”, então sim, por fim, o Clube Desportivo Santa Clara, desde logo conhecido como o "Desportivo", se inscreveria na Associação de Futebol para, pouco depois, seguindo as orientações do Dr. Agnelo Casimiro, vir a ser um dos fundadores da “Liga Desportiva Micaelense”, organização que em 1929/30 haveria de criar um campeonato paralelo ao da Associação de Futebol.

O "Desportivo", tal como o Sport Club Santa Clara, ou "Santa Clara Novo", para se diferenciar do Santa Clara Foot-ball Club a partir da sua expulsão da Associação referido como "Santa Clara Velho", teve desempenhos desportivos muito modestos nos seus primeiros anos de participação na Associação de Futebol, conseguindo o seu primeiro título exactamente no âmbito da Liga Desportiva Micaelense, da qual foi o primeiro e único campeão.

Em Santa Clara, se agravado pelas consequências dos afastamentos de João Travassos e Joaquim de Sousa, ou mesmo por efeito directo destas ausências, a exclusão do “Santa Clara Velho” da Associação de Futebol já era motivo de fortes discussões e revoltas, que nem o aparecimento e a participação no campeonato do “Santa Clara Novo” atenuou, com a chegada de um terceiro “Santa Clara”, do “Desportivo”, ainda mais inflamados ficaram os ânimos: eram as tentativas de, falando sempre em união, usarem o poder financeiro e de influência social que tinham para aliciar os jogadores do “Santa Clara Velho” a irem para o “Desportivo”; era o facto das pessoas que compunham o “Desportivo” não serem de Santa Clara, tampouco a sede do clube ser em Santa Clara; tudo culminando quando, em 1929, como afronta à Associação de Futebol, foi criada outra “associação” e promovida a disputa de outro campeonato de futebol, passando a existir em simultâneo dois, mantendo-se o "Santa Clara Novo" na Associação e indo o "Desportivo" integrar os clubes que constituíam e competiam na "Liga".

Homem bem informado que era, o Padre Luís Pacheco, além de confirmar e com tal ficar de consciência tranquila, sobre as reais intenções que havia por detrás do aparecimento do Clube Desportivo Santa Clara, do desequilíbrio de forças que socialmente se verificava entre o poder de um e de outro clube, mas que mesmo assim eram sempre imensamente em maior número os adeptos do "Santa Clara Novo" do que os do "Desportivo" presentes no apoio às suas equipas nos dias de jogo, não obstante ser insistentemente instado a ajudar a trazer o "seu rebanho" para o lado dos mais poderosos, manteve-se coerente e foi peça fundamental no agregar e apoiar os santaclarenses em volta do clube que realmente representava o bairro e era o herdeiro dos princípios e propósitos que desde sempre os norteara.
Porém os tempos estavam em mudança e, a cada dia que passava os mais poderosos afirmavam o seu poder.

Com a "Revolução das Ilhas" e o consequente desmoronar do último bastião visível que se mantinha firme contra o que então já se anunciava e menos de três anos depois se instalaria com força e à força: o Estado Novo, também acabou a resistências dos "Santas Claras", velho e novo.
É a partir que o "Desportivo" se começa a afirmar e, mesmo tendo o "Santa Clara Novo" resistido à última manobra de sujeição, oferecida com a possibilidade de fusão, que de facto não aconteceu, embora depois tenha aparecido na Associação de Futebol um documento que a afirmasse, com o suspender da sua filiação na Associação de Futebol dando liberdade aos seus jogadores para optarem pelo clube que entendessem, o "Santa Clara Novo" deu uma lição de ética republicana que lhe custaria caro, pois foi praticamente apagado da história.


Depois, aos poucos, o "Desportivo" começou a aproximar-se de Santa Clara e dos santaclarenses, ganhando passo a passo, mas muito lentamente, alguns santaclaristas.
Se a ida da maioria dos jogadores do "Santa Clara Novo" para o "Desportivo" ajudou neste processo, foi no entanto a decisão de passar a sua sede para Santa Clara aquilo que mais efeito teve na aproximação dos santaclarenses ao "Desportivo", que começou por partilhar, na Rua de Lisboa, a sede que o "Santa Clara Novo" tinha, onde esteve em Junho e Julho de 1931, passando-se depois ainda mais para próximo do centro de Santa Clara, ocupando como sede uma casa na então "Rua direita de Santa Clara" entre Julho de 1931 e Março de 1932, instalando-se depois na 2ª Rua de Santa Clara, aí permanecendo de Março de 1932 a Maio de 1934.
E foi assim que o Clube Desportivo Santa Clara, inicialmente, praticamente até 1930, agregando apenas umas escassas dezenas de sócios, a partir de 1931 começa a aumentar este número, que em 1933 já são mais de uma centena, para depois daí, graças à "Nova Sede" e ao "Partido Médico" que nela se desenvolveu, passar aos milhares de associados. Naturalmente que os resultados desportivos, Campeão que, para além da LDM em 1930, também já fora da Associação de Futebol em 1930/31, 1931/32; 1932/33 e 1933/34.

A partir de 1933, as feridas estavam quase saradas e os santaclarenses eram já quase todos santaclaristas. Também, pudera, o espaço para discordância e resistência às poderosas forças então dominantes praticamente não existia, com os apoiantes do "Reviralho" a queimarem os seus últimos cartuchos pouco depois, nas revoltas de Maio e Novembro de 1935, ocasião em que os oposicionistas dos Açores, também em Santa Clara, discreta, clandestina e temerosamente, se organizavam para o que desse e viesse! 


Santa Clara e os jogos de cintura e poder: no futebol e não só





Se a austera figura do Capitão Reis Rebelo, então a dirigir o Matadouro Municipal em Santa Clara, desequilibrava os pratos da balança a favor do “Desportivo”, que presidia, o Padre Luís Pacheco, cura de Santa Clara, até então aquele que durante mais tempo por ali permanecera, com o seu ar bonacheirão, sábia e inteligentemente, apadrinhava aqueles que desde 1919 acompanhava, incluindo na ajuda, em 1922, a se constituírem como clube de futebol, disciplinando e dirigindo as reuniões iniciais.


Santa Clara, já a sair das dificuldades financeiras em que a década anterior fora fértil, vê em 1930 ser aberta mais uma indústria, agora de conservas.
O Padre Luís Pacheco, que integrou o grupo de ilustres convidados para a solene cerimónia de inauguração da Sociedade Micaelense de Conservas Lda., depois “Fabrica de Conservas de Santa Clara”, aproveitou para, após em privado voltar a reafirmar junto do Dr. Agnelo Casimiro e do Capitão Reis Rebelo as razões porque defendera de forma tão veemente o Sport Club Santa Clara após a exclusão do Santa Clara Foot-balll Club da Associação de Futebol, no momento a ele destinado para uso da palavra, completando depois o seu raciocínio e já o partilhando com todos, dissertar sobre a importância de haver mais uma fábrica em Santa Clara e o quanto isso representava em mais trabalho e rendimento para aquelas humildes gentes.


Os anos de 1929, 1930 e 1931 ficaram indelevelmente marcados pela enorme agitação que se instalou no futebol micaelense.
Como se já não fosse suficiente a disputa entre a Associação de Futebol e a Liga Desportiva Micaelense pela organização e controlo do futebol na ilha de São Miguel, a tentativa de derrubar a Ditadura Militar e a participação nesta insurreição dos dirigentes máximos da Associação de Futebol, decapitou a direcção da então Associação de Futebol de São Miguel e com ela o firme e consistente núcleo de oposicionistas que ali se entrincheiravam.
Se quanto à disputa Associação de Futebol vs Liga Desportiva Micaelense, questão que iniciada em 1929 condicionou toda a actividade associativa ao logo de 1930, a normalidade foi reposta após um incisivo comunicado da Federação Portuguesa de Futebol, assinado por Ribeiro dos Reis, reafirmando ser da Associação de Futebol a competência do exclusivo de organização dos campeonatos da modalidade, já no que ao núcleo de "Velhos Republicanos" barricados na Associação de Futebol dizia respeito o ano de 1931 foi fatídico.

Embora o fim da “Nova Republica” se mantivesse incerto até 1931, acabou sendo o “Estado Novo” a vingar dois anos depois e, antecipando-o no que à organização do futebol em São Miguel importava, logo após a “Revolução das Ilhas”, uma nova ordem imperaria também no futebol micaelense!
Em Abril de 1931 aconteceu a última grande e colocada no terreno tentativa, frustrada, para derrubar a Ditadura Militar, que ficou registada na história como “A Revolta das Ilhas”. 
Iniciada na Madeira, onde os revolucionários resistiram cerca de um mês, os Açores avançaram logo de seguida, com a derrota sofrida decapitando seriamente o núcleo de opositores mais activos, entre os quais a direcção da Associação de Futebol de São Miguel.
O Dr. Castanheira Lobo, então presidente da Associação de Futebol, embarcando clandestinamente para a Madeira, foi colaborar directamente com o general Gastão Sousa Dias que liderava a revolução, deixando no seu lugar um dos homens de confiança na sua direcção, o tenente Luís Lacerda Nunes, que, por se ter envolvido na ocupação do Castelo de São Brás, acabou detido.
E assim, finalmente, foi tomado pelos da “situação” o último e bastante resistente reduto de “Velhos Republicanos” em Ponta Delgada. Daí em diante a nova ordem também tomou conta do futebol micaelense, obtendo após a “Revolução das Ilhas” aquilo que nem os promotores da “Liga Desportiva Micaelense” tinham conseguido ao criar uma “associação paralela”.

Com a derrota na “Revolução das Ilhas” ficou consolidada a via que de seguida levaria ao Estado Novo.
A prisão de muitos e a deportação de mais ainda, não deixou, mesmo para os mais aguerridos dos resistentes, outra alternativa que não fosse disfarçar, esperar e resistir discretamente – em 1935 uma nova janela de oportunidade surgiria, mas só o 25 de Abril, em 1974, terminaria a ditadura iniciada a 28 de Maio de 1926.


 

No início dos anos 30 de século XX o Padre Luís Pacheco ia já para o seu décimo segundo ano como Cura de Santa Clara.
Tinha casado recentemente Emília Mathias, que assim passara a ser também Emília Moniz, conhecida igualmente por Emília Trindade ou Emília Mathias Tavares, mas de seu nome certo e completo: Maria da Conceição Mathias Tavares Moniz, a mesma que, em 1904, ao colo da mãe, havia ido ver passar o Príncipe do Mónaco.
Do Príncipe Alberto Emília não tinha ideia nenhuma mas, como as irmãs nunca se cansavam de recordar aquele momento, ela própria, criativa, sensível e muito determinada que era, já criara para si a imagem daquele dia, como se fora uma cena do tal conto de fadas que as irmãs sussurraram entre si na ocasião.
Tendo na juventude recebido aulas de pintura, Emília, que encantava uns e outros com os óleos sobre tela que executava, era, tal como as irmãs Francelina e Maria do Carmo, costureira do pai, mas aquela que tinha a seu cargo a parte mais apurada das obras, enveredando depois pelo ofício de chapeleira, impondo-se como artista também neste metier. Porém, a grande afirmação da sua determinação foi desafiar a família, que a pretendia a esposar um “bom partido”, casando com Manuel
  Moniz, “Manuel Trindade” como era conhecido, um humilde mas apurado marceneiro do bairro, que lhe deu três filhos, os únicos que garantiram a continuidade da prole de João Mathias.

“Manuel Trindade” e o Padre Luís Pacheco eram velhos amigos, partilhando gostos e ideais comuns, como fora o caso, ainda recente, de estarem na mesma barricada quando foi necessário cerrar fileiras em defesa dos dois primeiros “Santa Claras”, sobretudo do "Santa Clara Novo" quando o "Velho" foi expulso da Associação.
Mas aquela não era a altura para aquele tipo de conversas, já que naquela ocasião, ambos estavam a tratar do baptismo da primeira filha do marceneiro. Porém, a conversa entre ambos não podia deixar de abordar questões ainda candentes: é que com a Associação de Futebol, controlada que já estava por quem já há muito a pretendia tomar, e tendo o Sport Club Santa Clara sido instado novamente a fundir-se com o Clube Desportivo Santa Clara, o melhor que haviam conseguido foi pedir a suspensão da sua actividade, permitindo aos seus jogadores inscrevem-se onde desejassem, indo a grande maioria para o “Desportivo” e apenas um para o Micaelense Foot-ball Club.
Não fora decisão fácil, mas foi a mais honrada, e dado o sentido em que "as coisas caminhavam" era bem melhor esperar serenamente para ver o que acontecia do que lutar, em desigualdade de forças, contra a enorme ventania que então soprava contra ele.
E o tempo demonstrou que tinham razão, embora, e mais uma vez, fossem derrotados pelas forças dominantes, mas forças estas que razão não tinham.


Preparando-se praticamente desde o início de 1935 uma nova tentativa de derrubar já então o Estado Novo e o seu mentor, António Oliveira Salazar, criadas e minimamente organizadas que já haviam nos Açores grupos oposicionistas, na altura até algumas células clandestinas do Partido Comunista Português, uma delas com fortes raízes em Santa Clara – que se manteria até ao 25 de Abril –, aproveitando a "abertura" que o Dr. Guilherme de Morais permitiu na Associação de Futebol, tal como o Marítimo Sport Club, também de origem piscatória e proletária, então beneficiando do suporte e apoio de João Travassos e seu filho, que saído de Santa Clara se tinha ido estabelecer na "Calheta", mas se mantivera sempre fiel aos seus ideais republicanos puros e duros, o Sport Club Santa Clara pediu a sua reinscrição na Associação de Futebol, por forma a assim engrossar "o exército" dos clubes de origem democrática que estivera na origem daquele organismo, numa clara tentativa de, em próximas eleições, a direcção da Associação de Futebol voltasse a ser de influência pró democrática e, já então, anti salazarista.

A reinscrição foi aceite, mas o Sport Club Santa Clara como tal não permaneceria mais de uma semana, alterando quase de imediato o seu nome para: Grupo Desportivo dos Manipuladores de Pão, popularmente conhecido por "Os Padeiros", que naquele ano, conjuntamente com o Marítimo Sport Club, não só aumentariam o número dos clubes que integravam a Associação de Futebol como, e isso era a estratégia delineada, com o Clube União Sportiva e o Micaelense Futebol Clube, reforçariam a votação necessária para que a Associação de Futebol viesse a ter uma direcção alinhada com o "Reviralho". 

Claro que, fracassadas as "Revoltas de Mendes Norton", toda a estratégia também fracassou!



“Mané Língua Afiada”, apesar dos cerca de quinze anos que passara desde que, como empregado do telegrafo postal a trabalhar ali próximo de Santa Clara pelas "lojas" do lugar passava todos os dias, agora, a trabalhar bem mais longe, mesmo assim não deixava de ir, uma vez por outra, a Santa Clara provar a boa pinga que lá se vendia, mas também, porque continuava de língua afiada e sempre muito bem informado, nunca deixando de presentear Santa Clara com notícias frescas. 
Foi “Mané Língua Afiada”, mais entrado na idade mas nem por isso menos bisbilhoteiro e sempre pronto a deixar a última novidade em primeira mão, tinha então o Clube Desportivo Santa Clara acabado de chegar da sua viagem a Portugal, onde até defrontara o Benfica, que, saindo da "loja do canto da igreja" para a rua, tendo apanhando o Padre Luís Pacheco e “Manuel Trindade” nas suas habituais conversas ao Domingo, depois da missa, no adro da igreja, intrometendo-se, com a voz arrastada  em consequências dos "mezinhos" já emborcados, disse:
  Senhor Padre, Mestre Manuel, querem saber das últimas? 
Se pároco apenas olhou para ele com aquele seu ar bonacheirão, abanou a cabeça sem exprimir nenhum som mas como que dizendo: "este tinha que se meter, como sempre, na conversa", tentando ignorá-lo, já "Manuel Trindade", mais impulsivo, olhando-o de forma penetrante e verberou:
– Mas alguém te pediu alguma coisa? A que carga de água és tu para aqui chamado? 
Foi então que o Padre, colocando a mão sobre o alto ombro de "Manuel Trindade", como que acalmando a situação mas também não escondendo a sua enorme curiosidade, pausadamente exclamou:
– Deixa-o falar "Manél". Faz-lhe bem a ele e, quase sempre, é novidade interessante o que ele diz quando está assim.
Aproveitando a deixa “Mané Língua Afiada” não perdeu tempo: 
 Senhor Padre – começou ele aproximando-se e ficando frente a frente com o seu interlocutor, como que virando as costas a "Manuel Trindade" – sabes que aquilo em Lisboa está outra vez tudo a "ferro e a fogo"? Agora parece que vai. É um antigo homem dos deles, oficial da marinha, um tal Comandante Mendes Norton, quem desta vez está à frente da revolução.
Aí sim, o Padre Luís Pacheco mando-o calar em voz alta, mas para de imediato lhe chamar para o canto de lá da igreja, dizendo-lhe:
– Vá lá, continua, mas por amor de Deus, não fales assim tão alto.
"Manuel Trindade" acompanhou-os, mantendo-se sempre em silêncio, mas ouvindo e registando de memória tudo, e como apoiante da oposição que era, embora muito prudente e pouco activo, chamou a mulher a um canto da cozinha, certificou-se se as cunhadas não estavam por perto, e com os olhos a brilhar contou-lhe as novidades, desejando ambos no fim que: "Oxalá seja desta vez".
No canto da igreja, do lado contrário ao da "loja" que antes fora do Sr. João Travassos, “Mané Língua Afiada” continuou:
– Toda a marinha está com os revoltosos e parte do exército também. Isto agora vai. Isto agora vai. Já chegaram cá as notícias, segredo, só se fala com os nossos, com os de confiança, é que depois da revolução começar em Lisboa também vai para a rua aqui e desta vez a Terceira não fica atrás, há lá muita gente. Os deportados no Castelo de São João estão bem organizados e têm muito apoio no exterior. Desta vez vai!

Como depois se veio a saber, a revolução falhou em Lisboa, e nem uma segunda tentativa levada a cabo quatro meses depois também teria sucesso.
O Comandante Mendes Norton, além de exonerado do cargo de Comandante da Escola de Artilharia Naval e da Fragata D. Fernando, seria mais um a desterrar para Cabo Verde, degredado por oito anos e com perca de direitos políticos por dez. 
Por cá, feliz ou infelizmente, a revolução não chegou a sair à rua e os "Padeiros", antigo Sport Club Santa Clara que por sua vez era herdeiro directo do Santa Clara Foot-ball Club, que depois de se reinscreverem na Associação de Futebol tinha alterado o seu nome para Grupo Desportivo dos Manipuladores de Pão, tal como o seu patrono nesta fase, o jovem solicitador Manuel Albano Botelho de Medeiros, desapareceram rapidamente de cena.


No ano seguinte, 1936, preparando o inicio do culto a São João Bosco em Santa Clara, cuja imagem tinha sido recentemente oferecida àquele templo, o Padre Luís Pacheco e “Manuel Trindade”, já então ambos resignados com a situação e constatando como o Clube Desportivo Santa Clara entretanto ganhara vigor desportivo e aceitação popular, aumentando em muito as duas ou três dezenas de sócios que entre 1927 e 1930 o constituíam, preparavam-se eles próprios para também o integrarem.

A criação do “Partido Médico”, destinado a dar apoio médico e de enfermagem aos atletas e sócios do clube, mas sobretudo a “Nova Sede” – inaugurada a 31 de Janeiro de 1935 –, bem localizada e melhor apetrechada, garantiam o enorme sucesso, uma quase hegemonia que o Clube Desportivo Santa Clara já patenteava, a que o sucesso desportivo obtido desde que o Sport Club Santa Clara suspendera a sua actividade em 1931, libertando os seus jogadores, que, quase todos, foram reforçar o Clube Desportivo Santa Clara, também para tal muito contribuíra.

Explicado que já fora o que era para fazer, a paz nas tantas, como que, mudando completamente de assunto e até deixando "Manuel Trindade" à aranhas, o Padre Luís Pacheco disparou:
– E sabes uma coisa "Manel", não foi que a inauguração da Nova Sede teve lugar no 31 de Janeiro! Como era feriado aproveitaram o dia, a questão é que embora agora digam que aquele feriado é dedicado aos "Mártires da Pátria" na verdade o 31 de Janeiro tem a sua origem na primeira tentativa de implantação da República, em 1891. É a i
ronia do destino, não achas? 

"Manuel Trindade" limitou-se a dizer que sim com a cabeça!
Pensando para si, mas sem o verbalizar, determinou: "se é para fazer o pegão sobre o qual vai ficar a imagem de São João Bosco de forma a aumentar a sua visibilidade, não há tempo a perder, até porque o 31 de Janeiro já estava ali à porta". 
 
Na verdade, aquela conversa sobre a data da inauguração da sede, parecendo disparatada, tinha uma razão de ser: o Padre Luís Pacheco tinha acabado de receber o convite para ir ao serão que iria celebrar o segundo aniversário da nova sede e, para além de ainda não estar confortável com quem de certeza por lá iria encontrar e conviver, tinha também a festa de São João Bosco para organizar e a missa a propósito a rezar para preparar.



Naquele ano iniciara-se a Guerra Civil Espanhola, o que, directa ou indirectamente, trouxera para Portugal algumas das suas consequências, mas, e sobretudo, não permitiria folgar em relação à guerra que lhe daria continuidade: a II Grande Guerra, que mais uma vez não pouparia os Açores e Santa Clara.

Na direcção da Associação de Futebol, contrapondo à esperança de maior desafogo democrático que o Dr. Guilherme Morais viera trazer na época anterior, e terminando com a lufada de ar fresco em que se transformara o seu curto mandato,  substituí-o o tenente Manuel Magro Romão, chefe da Polícia local, um salazarista empertigado, que cedo deixou bem vincado o autoritarismo e a inflexibilidade que o caracterizava.
No torneio que habitualmente precedia o início da época, e que era aproveitado para ajudar a financiar os clubes após o defeso, Magro Romão não permitiu que os clubes usassem os seus nomes oficiais, alegando que só os poderiam fazer depois de estar devidamente inscritos. Uma inscrição que custava dinheiro, dinheiro este que, normalmente, era obtido com os "torneios particulares" levados antes do início da época. 
O torneio não deixou de se realizar, mas só assim aconteceu com o “União Sportiva” adoptando o nome de “Esperança”, o “Santa Clara” o de “Leões” e o “Micaelense” o de “Águias”.
Porém a marca de laudo ao totalitarismo que iniciada naquela época perduraria por outras mais foi a instituição da “Taça 28 de Maio”, celebrando o então 11º aniversário daquele acontecimento.
Na época imediata também não faltou a “Taça Legião Portuguesa”, nem na outra a seguir a “Taça Presidente Magro Romão”, obviamente…

Em Santa Clara, ao Padre Luís Pacheco sucedeu-lhe o Padre Jacinto Monteiro, um mariense que embora tenha passado muito pouco tempo em Santa Clara foi o suficiente para fazer ressurgir a procissão da Padroeira, em tempos interrompida também porque a imagem, degradada como estava, corria o risco de se estragar mais ainda com a sua participação nos cortejos processionais.
E, quase não dando tempo do Padre Jacinto Monteiro aquecer lugar, seguir-se-lhe-ia o Padre Serafim de Chaves, outro mariense, homem erudito, poeta sensível, que para melhor se aproximar do povo local, mal chegou a Santa Clara fez-se sócio do Clube Desportivo Santa Clara, acção que não escaparia ao registo na acta da reunião de direcção do clube realizada a 7/11/1939, então presidida por Francisco Carlos Silveira Martins, que com José Barbosa a dirigir o Grupo Cénico da colectividade levariam a cabo as importantes obras de melhoramentos no Salão de Festas da sede, beneficiações que como tal se mantiveram até final do século XX, dando ainda mais brilho às peças de teatro que no pequeno, mas precioso palco lá existente, já faziam parte da animação cultural de Ponta Delgada.



Santa Clara e a II Grande Guerra





A II Grande Guerra já decorria ia para dois anos quando Santa Clara entrou também na guerra. 
Na primavera de 1941 chegaram os primeiros “soldados de Lisboa” e com eles veio muita coisa, menos sossego. Em Santa Clara, onde acabou ficando localizada uma luxuosa messe para os oficiais, também a "Carreira de Tiro" que lá se localizava passou a ser usada como requintada zona de lazer, na qual não faltavam participações femininas nos torneios de tiro ao alvo ali disputados.  


O cheiro de pólvora, a sério, estava porém ainda para chegar.
A meados de Junho rebentou um torpedo junto às rochas que ladeavam a Ponta Delgada, causando mais uma vez enormes prejuízos na localidade, felizmente só materiais. E, tudo só não foi ainda muito pior porque, como então não faltou quem repetisse: “Santa Clara mais uma vez protegeu os seus…”; "aquela abençoada Santa, que não tarda vai passar novamente pela minha porta e abençoar os meus…” 
De facto, se não foi milagre andou lá muito perto, já que um segundo torpedo, que parou ainda mais próximo da costa do que onde estavam as rochas contra as quias o primeiro bateu e explodiu, só não detonou por ter ficado encravado entre duas pedras…


Foi também por esta altura que o “Patronato de São Miguel” se transferiu para o enorme edifício onde desde o início do século já funcionava a “Escola do Século XX”, ali acolhendo e encarreirando para a vida um significativo grupo de crianças que, de uma forma ou de outra, se tornaram santaclarenses de alma e coração.

A partir de então, mais do que só a área dedicada à escola, todo o edifício passou a ser ocupado, exibindo por inteiro a sua exuberância, inclusive a de um monumental forno de cal a ele anexo, à ilharga do qual fora construída uma também colossal escadaria em pedra, com um firme corrimão de ferro, sendo esta o acesso mais directo aos espaços de serviço do “Patronato” para quem entrava pelos portões principais, adjacentes à rotunda onde terminava a Rua de Formosa, já então renomeada para Rua de Lisboa.
Nem a enorme casa, muito menos o imponente forno e a longa e bem trabalhada escada que o ladeava, chegaram ao fim do século XX, tudo soterrado que foi pelo aterros para prolongar o aeroporto!



José, João e Francisco, por morte da mãe muito cedo separados das irmãs, Maria e Filomena, que ficaram com a avó materna, já que o pai, perdido na bebida após o falecimento da mulher, com tanta desgraça junta perdera também capacidade de cuidar dos filhos, foram dos primeiros a serem acolhidos no "Patronato" em Santa Clara. Foi lá que fizeram o ensino primário e, pouco depois dos dez anos de idade, um por um, foi também via "Patronato" que encontraram o emprego que os ocuparia quase toda a via. Em relação aos irmãos, uma exceção, boa, aconteceu com o José.
Alguns anos depois do primeiro emprego acabou prosseguindo os estudos à noite, reformando-se muitos anos depois como o responsável administrativo de uma importante e muito conhecida empresa de Ponta Delgada.
Do "Patronato" saíram dezenas de Josés, Joãos e Franciscos, educados, instruídos e bem encarreirados na vida.

Era também José e, mais tarde, haveria como outros de passar pelo "Patronato", uma das crianças que estava no "Calhau da Areia" quando o torpedo rebentou.
Apesar da água e dos muitos resíduos atirados pelo sopro da explosão que lhe caíram em cima, além de umas pequenas escoriações, em termos de ferimentos pouco mais ele sofreu. Do que não se livrou foi de, com o susto, ganhar uma gaguez que seria uma das suas imagens de marca para toda a vida. 
Também este José vingou na vida, terminando-a como reformado de outra importante empresa de Ponta Delgada, tendo ao longo da vida educado três filhos, dois dos quais formados e licenciados em Portugal.



Um ano após o rebentamento do torpedo  outra tragédia abalou Santa Clara.
Na noite de 24 para 25 de Junho de 1942, vitimas do afundamento do barco em que pescavam, pereceram: Francisco Costa, Guilherme “Magarça”, Jacinto “Caboz” e Manuel Rodrigues. Marcado pelo trágico acontecimento que muito abalara o bairro, o Padre Serafim de Chaves, distinto poeta que era, brindou Santa Clara com um sentido poema, composto por três bem elaborados sonetos, dos quais o segundo, é um bom exemplo da atenção que o sinistro lhe mereceu. Descrevia-o assim: 

(…)
No Bairro, a vida é vaga que se alteia,
Desde a aurora aos rubros do Poente…
Ora rola como a onda em maré cheia,
Onde desliza mansa em tom plangente.

A custo os barcos varam sobre a areia,
Safos do mar, depois da luta engente!
Nos lares, em festa, há prazeres que enleia
E invade o coração de toda a gente…

Soam as horas tristes dos naufrágios!
Geral consternação… pranto e sufrágios…
Envolve o burgo o véu de negra cor.

Almas que unidas vibram de alegria,
Sentem-se mais humanas na harmonia,
Da amarga comunhão da mesma dor.
(…).


Ainda com o Padre Serafim de Chaves como cura, e sem que para tal tenha sido estranha a sua proximidade e convívio com a família Lory, em 1944 começou a transformação da histórica e humilde ermida numa pequena mas graciosa igreja.
O escuro e húmido corredor que lhe servia de sacristia foi transformado em salão paroquial, reunindo valências que até ali não existiam.
São também deste tempo, e fruto do altruísmo dos Lory, desde o início dos anos quarenta a residir em Santa Clara, as imagens do Sagrado Coração de Jesus e São João de Brito, ambas consagradas em solene Té Deum pelas mais altas entidades religiosas da ilha.
Foram estas imagens que, colocadas nos altares laterais à capela-mor, também ela na ocasião muito beneficiada, deram estofo de igreja à ermida.

Três meses depois, a 3 de Setembro de 1944, Domingo de Santa Clara, parte das obras em execução foram inauguradas.



Desde meados de 1942 até 1945, por falta de recintos para o praticar publica e regularmente, o futebol oficial esteve interrompido.
Neste período ao Clube Desportivo Santa Clara valeu-lhe a sua sede e o amplo Salão de Festas que ela continha: visionárias e competentes direcções, uma zelosa “Comissão de Festas” e um “Grupo Cénico” que fez história, não só garantiram a subsistência do clube nestes difíceis tempos como contribuíram, e muito, para a popularidade e vitalidade que o Santa Clara então granjeou!

Mas Santa Clara não vivia sem futebol. Assim, de novo com base numa loja, agora na do Sr. José Vicente, quase em frente daquela que cerca de trinta anos antes suportara os “Azuis”, nascia o “Pirata Negro”, grupo que, em excursões, de freguesia em freguesia, sempre acompanhados por familiares, amigos e vizinhos, que para tal por vezes enchiam mais de um autocarro, disputava animados jogos de futebol. Também o “Pirata Negro” ajudou na angariação dinheiro para as obras da Igreja. Um destes momentos foi em 1945 quando convidou uma equipa de estudantes para um jogo no Campo Açores cuja receita reverteu a favor das obras em curso: em Santa Clara ficou a taça de prata em disputa, sendo os jovens estudantes presenteados com uma lição de futebol e com cinco golos, quatro marcou-os “Pirata Negro”!

Santa Clara crescia, agora até já tinha um farol cujo funcionamento, automatizado electricamente dispensava faroleiro em permanência. A novidade havia recentemente chegado da Capital do Império, já que até pouco tempo antes estivera em funções na Torre de Belém, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos.

Padre Serafim de Chaves, durante os cerca de oito anos que passou em Santa Clara tudo isso testemunhara mas, como que atraído pelo fenómeno de Roswell, inesperadamente fora pregar para os Estados Unidos: nos dois anos seguintes Santa Clara conheceria três Padres, um deles permaneceria por lá mais de meio século!



1949: um ano de várias farsas e de uma chegada abençoada

 

 



Para substituir o Padre Serafim de Chaves chegou a Santa Clara o Padre Lucindo Andrade, um melómano nascido no Porto Formoso que por coincidência haveria de falecer em Santa Clara, na Clinica do Bom Jesus, vinte e seis anos após ter chegado a Santa Clara como Cura.
Esteve apenas um ano no povoado, mas o tempo suficiente para assistir com agrado ao crescimento que o lugar então patenteava.

Depois de no início 1948 começar a ser ocupado pelos residentes que por lá ficariam longos anos, no fim do mês de Abril o “Bairro Económico” foi inaugurado oficialmente, seguindo-se a habitual bênção àquele primoroso núcleo habitacional, ainda hoje oásis de qualidade de vida em Ponta Delgada. 
Quase de seguida, em Junho, a Sociedade Furtado Leite iniciava a construção da Fábrica de Lacticínios Santa Clara. Mas o ano não terminaria sem que, em vésperas do Natal, em contrapondo com as beneficiações que a igreja estava a ser alvo, o seu tecto, completamente apodrecido, ruísse, obrigando a que o serviço religioso em Santa Clara passasse então a ser celebrado no novo e recém construído salão/sacristia.

Chegou então 1949.
Mesmo que pré anunciadas pela irónica e inteligente denúncia que o Clube União Sportiva tinha levado a efeito, bem como pelo rebuliço que as eleições para a Presidência da República Portuguesa já há algum tempo estavam a provocar, as farsas em que aquele ano foi fértil foram mais aparatosas e duráveis do que o imaginável.
 
Como que a aplaudir tudo isso, a algumas milhas de distância, Lisboa recebia entusiástica e em festa Francisco Franco Bahamonde, o Generalíssimo, Caudilho em Espanha ia já para dez anos.

Em Portugal, tendo em conta a vitória dos Aliados e acreditando os oposicionistas que a ditadura salazarista não resistiria à queda dos fascismos, fora decidido avançar com a candidatura do General Norton de Matos para as eleições presidências cuja campanha se iniciara no primeiro dia daquele ano.
Salazar, embora aconselhado a candidatar-se ele próprio contra o carismático General, mas, já viciado no poder que como Chefe de Governo tinha e nunca o Presidente da República o conseguiria, decidiu repetir a recandidatura do Marechal Carmona, já então há mais de duas décadas no lugar.
Não obstante o forte apoio popular obtido pelo 
candidato apoiado pela oposição democtrática, bem visível na enchente ocorrida no comício realizado no campo de futebol do Salgueiros, tal como os cerca de cem mil apoiantes da Fonte da Moura, também no Porto, Norton de Matos travou uma luta inglória: tudo foi feito pelas "forças da ordem" para boicotar as acções de campanha, proibindo, prendendo, sabotando. 
Parecido voltaria a acontecer mais tarde, em Novembro do mesmo ano, nas eleições legislativas, com a União Nacional elegendo a totalidade dos 120 deputados.

 

Em Ponta Delgada, numa bem elaborada vitrine da “Pepe”, o Clube União Sportiva exibira o seu acervo de troféus com uma vistosa faixa onde, além da sua verdadeira dada de fundação – 1 de Janeiro de 1921 – se podia ler “TUDO GANHO HONRADAMENTE EM CAMPO”.
O objectivo era claro e duplo: desmascarar o que o Clube Desportivo Santa Clara então publicitava: ter sido fundado em 1920 e, conjuntamente, lembrar que o primeiro campeonato, em 1923/24, atribuído ao Santa Clara Foot-ball Club, fora “ganho desonrosamente na secretaria”.
A resposta não se fez esperar. O Clube Desportivo Santa Clara, que desde a época 1939/40 já não era campeão, conseguindo o título naquela época, 1948/49, não só “tirou a barriga da miséria” como, para atenuar a contestação do Clube União Sportiva, transformou a data da inauguração da “nova sede” – 31 Janeiro de 1935 –, então já com catorze anos, no 28º Aniversário do clube: em apenas dois meses a mentira do “Fundado em 1920” foi transformada na farsa do “31 de Janeiro de 1921”!

 

No entretanto outro Cura, o Padre Osvaldo Oliveira, viria para permanecer no lugar ainda menos tempo que o seu antecessor. Mas, felizmente, em finais de 1949 – já era mais que tempo para algo de verdadeiramente bom acontecer naquele ano – , chegaria a Santa Clara o Padre Fernando Vieira Gomes.

Em menos de dois anos Santa Clara conheceu três Curas, sendo que o último deles, o Padre Fernando Vieira Gomes, por lá permaneceria mais de cinquenta anos, quase dois terços da sua vida, embora muito menos do que isso fosse o necessário para fazer dele um santaclarense de alma e coração, a quem Santa Clara muito ficou a dever.



O "Padre Fernando de Santa Clara" e a Santa Clara por ele moldada





Tendo em conta o Inverno naquele ano em curso, estava um dia estranhamente solarengo. Até parecia que fora o Carvalho Araújo a trazer o bom tempo.
Na doca, desde que o barco atracara, como que já estivessem fartos de uma viagem longa, que não fora, muitos dos passageiros saíam uns atrás dos outros em fila tão compacta como apressada. Quando o corrupio aclamou e o portaló ficou vazio, um casal, ele jovem, ela uma senhora de meia idade, atravessaram-no trazendo cada um deles uma pequena mala na mão.
No jovem, de fato negro, sobressaía o central rectângulo branco da clérgima que trazia à volta do pescoço, na senhora, por sua vez, era o seu ar altivo e muito sério, quase sisudo, o mais que ressaltava.

Desembarcava então em São Miguel o jovem clérigo, o Padre Fernando de Santa Clara, como ficaria conhecido, que pouco tempo depois já estava a comodar-se na casa que a madrinha, sua apegada acompanhante, tinha antecipadamente arrendado, logo ali no nº 30 da Rua Teófilo Braga, a meio caminho entre os dois templos que o enquadrariam, nomeado que fora vigário paroquial de São José destinado ao curato de Santa Clara.
A 8 de Dezembro de 1949, no exacto dia em que completava vinte e sete anos de idade, o Padre Fernando celebrou a sua primeira missa em Santa Clara.
Marcando desde o início uma enorme diferença com o cura que o antecedera, o Padre Osvaldo, que chegava a ir às “lojas” para melhor conduzir ao local certo “as ovelhas do seu rebanho”, o Padre Fernando, à sua maneira, usou outros métodos, que resultaram, pois não se achegando assim tanto, acabou por aproximar entre si os moradores do lugar e, em grupo, levar a que todos, com ele, e com o que de mais importante havia para concretizar, encurtassem distâncias.

Tendo herdado uma igreja onde ainda estavam por concluir as obras que já há mais de cinco anos se tinham iniciado, e pareciam nunca mais acabar, ao Padre Fernando, com o templo em remodelação, foi lhe legado também a meia dúzia de centavos em dinheiro encontrados guardados no fundo de uma caixa que por sua vez se encontrava numa gaveta fechada à chave.
A esta afortunada herança não se podia dissociar outra, de sentido contrário: os mais de vinte mil escudos em dívida, por aqui e por ali, que seriam necessários saldar.
Nada que assustasse o jovem Padre: bem pelo contrário, foi como que o fertilizante necessário para o muito que lhe estava destinado em Santa Clara.

Sempre pontual, com missas celebradas a um ritmo bem cadenciado, não entediando quem as assistia, e senhor que era de uma forma comunicação fácil e muito directa, o que embora, primeiro, causasse alguma  estranheza, rapidamente o Padre Fernando começou a cativar uns e outros, em especial os mais novos, com quem, praticamente de imediato, quer com os gracejos que lhes eram familiares – “grande padaço d’asno”, costumava dizer para dar conta que não lhe tinha passado despercebida uma qualquer acção menos imprópria –, ou mesmo com acesas discussões sobre futebol – sportinguista ferrenho que era –, ganhou fácil interação.
Quando o Padre Fernando ainda nem dois meses de permanência em Santa Clara contava, a primeira celebração da festa de São João Bosco por ele presidida, a 31 de Janeiro de 1950, acto litúrgico especialmente destinado aos mais jovens, ajudou-o logo muito nesta tarefa.



Na primeira metade da década de cinquenta do século XX, embora já tivessem passado alguns anos desde que a guerra terminara, os tempos mantinham-se difíceis, com o desemprego e a carestia de vida tornando-se um problema presente na vida de muitas famílias. Então, mais do que a falta dos produtos antes racionados, também os da terra que escasseavam: carne, leguminosas e mesmo batata.
Uma nova vaga de emigração, desta vez também para o Canadá e Bermuda, estava em curso. As saídas clandestinas voltaram a acontecer amiúde, com os navios de longo curso recolhendo em lugares previamente combinados quem para lá era levado em pequenas embarcações, a coberto do escuro da noite.

A grande epopeia da época porém havia acontecido no Verão, quando o santaclarense Evaristo Gaspar e o seu camarada de profissão, Vítor Caetano, chegaram aos EUA, tendo feito grande parte da viagem num barco por eles construído no quintal da casa, em Santa Clara, onde Evaristo vivia com a mãe e duas irmãs.

 

Aquele era o segundo ano em que o Padre Fernando tinha a seu cargo levar a cabo a “Festa de Santa Clara”, ressurgida uma dúzia de anos antes com o Padre Jacinto Monteiro, e que, apoiada que fora nos anos seguintes pela família Lory, ganhara grande projeção: tanto a procissão como o arraial eram muito concorridos, também pelas gentes de fora da localidade.
Naquele ano todavia, mais do que tudo, entre boatos e conversas em surdina, o assunto que todos comentavam era a fuga do Gaspar, visto pela última vez ao largo da "Rocha da Relva" na tarde do Sábado, 28 de Julho, mas que uma carta entregue dias depois à mulher do parceiro de aventura, o Caetano, do Lajedo, esclareceria que a ideia fora fugir para o estrangeiro.
Porém, naquele Domingo de Santa Clara, a notícia a circular já era outra: jurava-se a pés juntos que na Rua do Paiol, entre a Canada do Padre Joaquim e a dos Ingleses, só se falava da chegada de um telegrama da américa dizendo que o Vítor e o Evaristo ali tinham chegado sãos e salvos.
Mentira para muitos, milagre para uns quantos, certo foi que durante a procissão, no arraial e até na Segunda-feira seguinte, não se falou de outra coisa!

A Francelina Gaspar, que morava a dois passos da igreja, também lhe chegaram aqueles rumores.
Desgostosa, pois quase ainda não levantara luto pela morte de um dos filhos e já outro era dado como desaparecido, nem saíra por aqueles dias, vendo passar a procissão por detrás das cortinas.
Só cerca de duas semanas depois, por carta, lhe chegaria a boa nova. De imediato foi à mercearia mais perto da sua casa comprar dois litros de azeite e, vendo chegar o Padre Fernando à igreja, de mantilha preta sobre a cabeça, foi entregar a sua oferta.
O Padre Fernando, vendo-a entrar pelo átrio onde ficava o baptistério, aproximando-se, disse-lhe:
  Vizinha, então sempre é verdade que o Evaristo chegou bem à América?
Com as lágrimas nos olhos, a viúva de José Gaspar respondeu-lhe: 
– Sim, Senhor Padre. Tenho aqui a carta que ele me mandou, foi mesmo milagre de Santa Clara. Sabes que eles foram recolhidos por um barco americano mesmo no Domingo da festa? Lê, Senhor Padre, lê…
E, entregando ao Padre Fernando um envelope que cheirava a "roupa da américa" nele se destacando um selo onde a figura de George Washington, como que olhando o infinito espelhava o seu próprio olhar, Francelina Gaspar permitiu que ele ficasse ao corrente de vários pormenores até ali desconhecidos: que os dois aventureiros tinham passado 26 dias no mar; que mesmo já na América, estavam longe de Fall River e da família que lá tinham e a quem se pretendiam juntar; que o Evaristo ainda não podia enviar dinheiro, mas que não se esqueceria dela, das irmãs e daqueles a quem o tinha pedido emprestado para construir o barco; e, tipo remate final bem sublinhado, um pedido para que a mãe rezasse para que ele ficasse na América e que lhe fosse deparado rapidamente um trabalho.

Claro que era também por isso que ela estava ali, reforçando a sua prece com a oferta do azeite para a lanterna do Santíssimo e assim iluminar também Santa Clara, a quem tinha pedindo protecção para o seu "crido filho".


 

Embora no ano anterior, pouco antes da fuga de Evaristo Gaspar e Vítor Caetano para os Estados Unidos, tivesse morrido o então Presidente da República portuguesa: Marechal Óscar Carmona, que tendo visitado os Açores dez anos antes, quase como se de Rei se tratasse, percorrendo várias ilhas, Corvo incluído, e reeleito que fora recentemente, no conturbado ano de 1949, na hora das exéquias não lhe faltaram, também por cá, os laudos fúnebres dos apaniguados da situação, com o Dr. Lúcio Agnelo Casimiro, Sócio Honorário do Santa Clara que no ano seguinte também faleceria, não faltando à habitual chamada, foi no entanto, quase exactamente um ano depois, em Abril de 1952, com o falecimento do Capitão Eduardo Reis Rebelo, o primeiro presidente do Clube Desportivo Santa Clara e seu líder desde a fundação, entre meados de 1927 e Junho de 1935, cinco meses depois da colectividade ter inaugurado a sua “Nova Sede” – 31 de Janeiro de 1935 –, cidadão que também durante muitos anos fora administrador do Matadouro Municipal, em Santa Clara, que se assistiu a um passamento que deu lugar a “Missa por Alma” e encheu Santa Clara de enorme consternação!

Apesar das muitas vicissitudes da época, o antigo “lugar da ponta delgada” continuava a crescer e a desenvolver-se. 
Eram já mais de três mil os seus habitantes, a ermida, entretanto já como igreja, muito melhorada mas também devida e coniventemente ornamentada, era agora administrada com independência em relação à paróquia de São José, pois os seus fiéis, com as dádivas e ofertas que faziam, eram quem contribuía por inteiro para a sua sustentação, quer quanto ao culto, manutenção do templo e apoio ao seu Cura.

A demonstrar esta continua vitalidade a Fabrica de Lacticínios Furtado Leite, já nas suas novas instalações, à Nordela, iniciara actividade como “Fabrica de Laticínios de Santa Clara”, para onde fora transferida a produção de manteiga que até então já produziam no Ramalho.
Além disso, para quem subisse a Rua do Carvão de Cima – depois renomeada para Frederico Ulrich e hoje Pintor Domingues Rebelo –, no seu topo Norte, à direita, já se viam delineadas as primeiras casas do “Bairro da Misericórdia”, habitações que rapidamente estariam concluídas e logo habitadas.
Fora também entretanto constituída a “Unileite”, União de Cooperativas Agrícolas de Lacticínios e de Produtores de Leite da Ilha de São Miguel, tendo a Cooperativa Bom Pastor, uma das suas constituintes, adquirido na Avenida Príncipe do Mónaco, em Santa Clara, o prédio onde a “Unileite” contruiria as suas instalações e se iria estabelecer por longos anos.
A própria obra da “Avenida Marginal”, por via da qual voltou a ter lugar um novo período de exploração das “Pedreiras da Doca”, também em muito contribuiu para a criação de postos de trabalho no lugar.

O Padre Fernando a tudo isso assistiu e quase tudo abençoou, aproximando-se cada vez mais da igreja, o templo, que de facto lhe estava designada, e nesta do povo, com o qual haveria de conviver o resto da sua vida. Uma aproximação também geográfica, já que transferira a sua residência da Rua Teófilo Braga para a Rua do Carvão de Baixo, primeiro para o nº5 e, depois, um pouco mais acima, do outro lado da rua, para o 12 A. 
O jovem e dinâmico vigário à maneira que ia casando e batizando santaclarenses tornava também cada vez maior a sua cumplicidade e ligação ao local e ao povo que nele habitava, uma convivência e companheirismo que rapidamente o impulsionaria para o arrojado e ambicioso passo seguinte: promover Santa Clara de Curato a Paróquia e, porque não, também a freguesia.



Santa Clara Paróquia pela segunda vez

 

 

 

 

"Manuel Trindade”, que no início dos anos trinta com o amigo Padre Luís Pacheco havia tratado do seu próprio casamento, tendo dois anos depois feito o mesmo com o baptizado da sua primeira filha, então, já ia para meio a década de cinquenta, já adoentado, enfermidade que lhe havia de custar a vida, fora acertar com o Padre Fernando o casamento da filha primogénita, uma vez que o genro não era nascido em Santa Clara e pouco conhecia dos usos e costumes do local, tal como as pessoas.

Conversa puxa conversa e lá veio à baila o assunto que então já mobilizava tudo e todos em Santa Clara:
– 
Mestre Manuel, já escrevi ao Sr. Bispo pedindo para que Santa Clara venha a ser Paróquia como merece. Parece que o assunto está bem encaminhado, o Sr. Bispo que vai decidir é novo e julgo que percebeu e concorda com o que lhe está a ser solicitado, mas, se for necessário, temos todos de nos juntar para lhe mostrar o quanto desejamos isso. 
– 
Sr. Padre – respondeu-lhe o alto e encorpado marceneiro, embora já denotando a fragilidade física que a sua maleita lhe provocava – sabes que ando adoentado e já não sou o que era,  mas também sabes que podes sempre contar comigo e com toda a minha família. O Sr. Padre e Santa Clara… é só dizer o que necessitam!

"Manuel Trindade”, enquanto saúde teve, não se poupou a esforços para, contribuindo com os préstimos da sua arte, bom marceneiro que era, construir, reparar, restaurar o que quer que fosse que lhe pedissem para a igreja. A mesma igreja onde depois de Maria Manuela batizou Lorena e João Octávio, os três filhos que deu a Emília. Uma disponibilidade de préstimos com que também presenteou a partir de meados da década de trinta o Clube Desportivo Santa Clara, colectividade da qual se tornara um dedicado, muito contribuindo para os restauros e beneficiações que transformaram o Salão de Festas da sede num pequeno mas muito bonito e acolhedor teatro. Mais tarde, já com o Padre Serafim Chaves em Santa Clara, Cura que batizara o seu terceiro filho, um rebento que chegou um bocado desfasado no tempo quanto às irmãs, também tivera a seu cargo guardar o lugar de bancada onde aquele distinto sócio, de batina, regularmente, ia ver os jogos, em especial no Campo Açores. 


A filha de "Manuel Trindade” casou, teve o seu primeiro filho, foi o Padre Fernando quem abençoou o matrimónio e baptizou o recém nascido, mas no entretanto o processo de criação da Paróquia ainda se mantinha pendente.
Felizmente "Manuel Trindade” ainda pode testemunhar a elevação do Curato a Paróquia, sendo que o seu segundo neto foi dos primeiros a ser baptizado na já Paróquia de Santa Clara.

 

O Bispo D. Guilherme Augusto Inácio de Cunha Guimarães, em funções desde 1928, por esta altura também já não beneficiava de grande saúde. D. Manuel Afonso de Carvalho fora em 1953 nomeado Bispo coadjutor da Diocese e, em Junho de 1957, por morte do seu antecessor, seria o seu substituto.
Era já porém D. Manuel o interlocutor do Padre Fernando para o desígnio que ele pretendia concretizar, e concretizou, em Santa Clara!
A 7 de Maio de 1957, foi redigido o Decreto de Erecção da Paróquia de Santa Clara, em São Miguel, Açores, e na mesma altura foi dado ao Padre Fernando, “pro tempore”, o título de seu Reitor.

Santa Clara passara então a Paróquia e, de imediato, o Padre Fernando bem procurou que a sua promoção administrativa, de lugar a freguesia, também se concretizasse.
Desígnio este que só acabou concretizado já em tempo de democracia e autonomia, por proposta do Partido Comunista Português, diploma que acabou aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa dos Açores, assumindo a freguesia os limites em 1957 considerados para a Paróquia.


Iniciava-se um tempo novo, e Santa Clara transpirava pujança.
Em 1958 ocorreu uma profunda remodelação na Fabrica de Tabaco Micaelense, com a qual se iniciou a produção e colocação no mercado dos célebres cigarros “Clipper”, crescendo o número de mão de obra, sobretudo feminina, que aquela indústria empregava. Também neste mesmo ano entrou em funcionamento a Fábrica de Papel em Santa Clara que, tratando-se efectivamente de reciclagem de papel, antecipava conceitos só mais de meio século depois seriam devidamente vulgarizados.
No ano seguinte, em Maio, na Avenida Príncipe do Mónaco, no terreno sete anos antes adquirido pela Cooperativa Bom Pastor exactamente para aquele fim, iniciava actividade a então muito moderna unidade industrial da Unileite. Três meses depois, em Agosto, era apresentado o projecto do terminal oceânico da Mobil Oil na Nordela, sendo que o seu pipeline, desde a extrema Poente de Santa Clara até ao porto de Ponta Delgada, foi inaugurado no mês seguinte, para, mais um mês decorrido, ter lugar a inauguração das instalações da Mobil Oil por completo.

Também quanto à pratica desportiva Santa Clara continuava a marcar a diferença, embora no fim desta década o Clube Desportivo Santa Clara vivesse um dos momentos mais tristes da sua história futebolística, com a despromoção à II Divisão Distrital.
A
 meados de 1956 chegou a Santa Clara, e ao Santa Clara, Henrique Ben-David, que, trazido pela mão do Comendador Furtado Leite e apadrinhado por Dionísio Leite, pai, se tornaria de grande importância para o desenvolvimento do futebol nos Açores, em São Miguel, e sobretudo do Clube Desportivo Santa Clara. E, já mesmo quando se aproximava a década de sessenta, enchendo de enorme expectativa as gentes de Santa Clara, começaram a circular notícias sobre a possibilidade de Ponta Delgada em breve vir a possuir um Estádio Distrital, sendo apontada a sua localização para os terrenos onde estava implantado o Campo Açores.

Não obstante o enorme impulso de modernização do futebol promovido pelo ex-internacional português de origem cabo-verdiana, Ben-David, que teve efeitos quase imediatos, já que logo na época 1955/56 o Santa Clara foi vencedor dos torneios de apuramento à Taça de Portugal tanto a nível Distrital como a nível Açores, e nas épocas de de 1956/57 e 1957/58 foi campeão e bicampeão, nas seguintes as classificações obtidas foram muito modestas, tendo mesmo na época 1959/60, quando então o clube já chegava à maturidade dos trinta e três anos de existência, fruto de uma conjugação do acerto dos quadros competitivos então decorrida, com algum desacerto desportivo e muita, leviandade directiva, voltado a passar por um período menos bom, descendo inclusive à II Divisão: foi a primeira e única vez que isso aconteceu ao longo da sua existência no âmbito dos Campeonatos Distritais.
F
elizmente, quase de imediato, na época seguinte, voltou ao lugar que desde 1927 sempre conhecera: a disputa dos campeonatos da I Divisão. 

Também o hóquei patinado, então praticado no “Ring do União Sportiva” – Estádio Margarida Cabral era o seu verdadeiro nome –, estava a atravessar um período de grande desenvolvimento: até o Benfica por esta altura foi visita regular a Ponta Delgada.
Fruto do estreitamento de relações entre o Clube Desportivo Santa Clara e Sport Lisboa e Benfica, de quem o Santa Clara há já mais de uma década (desde 1945) era delegação, foi dado um passo pouco pensado e ainda pior executado, o de adoptar um emblema que seria um passivo plágio do símbolo do Benfica, deixando de usar o que desde a sua fundação, em 1927, exibia com orgulho e galhardia.

Foi também por esta altura, inicialmente só com “jogos avulso”, que a Associação de Futebol iniciou competição para denominado escalão “Infantis/Juniores”.
Era uma nova era que estava a ter início!


Ainda antes de completar dez anos sobre a chegada do Padre Fernando a Santa Clara, em 1959, o Bispo D. Manuel Afonso de Carvalho efectuou a sua primeira visita a Santa Clara, dois anos antes elevada a Paróquia.
A Igreja naqueles dois anos ficara ainda melhor provida, entre o muito mais, os santaclarenses haviam-se coletado entre si para adquirir a imponente lâmpada de prata que ainda hoje adorna e ilumina a capela-mor do templo.
D. Manuel foi recebido com o 
agradecido reconhecimento de quem não se tinha esquecido da sua intervenção recente em prol de Santa Clara, com o Bispo retribuindo a simpatia presenteado o Padre Fernando com rasgados elogios pelo seu enorme esforço e dedicação.


Num âmbito ainda mais alargado a década de cinquenta do século XX deixaria marcas que perdurariam por muitos anos entre nós, e, mais do que a morte do Marechal Óscar Carmona, do que a campanha eleitoral do Almirante Quintão de Meireles, do que o início da derrocada do Império Português na Índia e até do que a visita do entretanto eleito Presidente da República Portuguesa Craveiro Lopes, seria o Vulcão dos Capelinhos e as suas trágicas consequências o que marcaria indelevelmente, de uma ponta à outra dos Açores, estes tempos.
Especificamente em Santa Clara, se
 a visita do Bispo foi um momento alto, para bem recordar, a descida de divisão do Clube Desportivo Santa Clara no mesmo ano foi para esquecer, e “riscar da história”, literalmente, para quem a gosta de apresentar de forma incorreta, omitindo e adulterando o que lhes interessa.



Mais uma vez a pretensão de uma "Igreja Nova", 
de novo a frustração, agora com a sua não construção



 

 

Os primeiros anos da década de sessenta do século XX em Portugal ficarão sempre marcados pelo início da “Guerra Colonial”.
Nos Açores, o Vulcão dos Capelinhos que se extinguira em Outubro de 1958, começava a fazer mossa demográfica: sete mil foi o número de açorianos que, só em 1960, foram procurar a sua sorte para o outro lado do Atlântico.

 

Em Santa Clara, cerca de três meses depois da partida dos primeiros santaclarenses para África, no Verão de 1961, teve início a construção do inesquecível e muito usado “Ring do Patronato”, onde a mão de obra dos internos e a ajuda de alguns pedreiros de Santa Clara foi determinante para a construção daquele que também se tornou num local de concorrida prática desportiva, sobretudo nas tardes dos Sábados.
Em Outubro do ano seguinte seria o “Matadouro Industrial Frigorífico” que entrava em actividade, dotando então Santa Clara de mais um polo de modernidade tecnológica, bom gosto arquitetónico e, principalmente, criando mais um número significativo de novos postos de trabalho.

Até então quase dado como garantido para ser construído onde já existira o Campo Açores, tendo inclusive a própria Junta Geral anunciado ir inscrever no seu orçamento parte da verba necessária para a sua construção, a decisão conhecida em 1963 de construir o aeroporto da Nordela haveria de inviabilizar a pretensão do “Estádio Distrital” ser em Santa Clara, deslocalizando e atrasando a concretização deste projecto.
Não seria só o “Estádio Distrital” que Santa Clara perderia por conta do Aeroporto!

 

Embora aparentemente distante, o sempre dinâmico e carismático Padre Fernando a toda esta nova vaga de desenvolvimento, tanto o executado como aquele que foi apenas projectado, assistiu e muita dele ajudou a promover.
Deu vida aos movimentos apostólicos da Paróquia impulsionando organizações como a LOC - Liga Operária Católica; a JOC - Juventude Operária Católica, que em Santa Clara incluía também jovens estudantes, e ainda a Acção Católica.
Com a JOC, e o profundo trabalho de campo que esta organização desenvolvia junto do operariado local, o Padre Fernando acabou entrando nos “radares” da PIDE, que chegou a vigiar e controlar algumas das reuniões daquele grupo de jovens em Santa Clara.

Foi também por esta altura que o Padre Fernando teve entre mãos a possibilidade de realizar o seu grande sonho: construir uma igreja nova e desta vez erguida no "coração da paróquia".
A Junta Central dos Portos chegou a ceder o terreno para concretizar a obra, que não poderia ficar melhor implantada já que o espaço a ela dedicado era a enorme rotunda onde confluiu a Rua de Lisboa, e a Avenida Príncipe do Mónaco, para Note e Sul. Na sequência, foi constituída uma comissão fabriqueira com “a nata da nata” de Santa Clara, à qual o Bispo dos Açores deu o devido anuimento, e que logo começou a actuar prudente mas intensamente.
O Padre Fernando, pessoalmente, deslocou-se a Lisboa a fim de solicitar ao Ministério das Obras Públicas a elaboração, gratuita, de um projecto. Pedido que lhe foi negado.

 

O Santa Clara, por sua vez, retoma o caminho dos sucessos desportivos e do “bem fazer” social.
Na época 1960/61, depois de contornadas as tentativas feitas em épocas anteriores, foi finalmente regulamentado que os jogadores não podiam renovar as suas inscrições tendo habilitações escolares inferiores à 3ª classe, sendo que, para as novas inscrições, passou a ser exigido como habilitação mínima a 4ª classe.
O Santa Clara, para resolver esta situação, transformou o seu Salão de Festas em “escola particular” onde até nas mesas de ping-pong, sob orientação de sócios e dirigentes dedicados e habilitados, entre os quais se destacaram António Carlos Ribeiro e Manuel António Pereira, por exemplo, estudavam atletas depois entregues para exame ao Professor Remígio. Foi um sucesso.

Tendo ganho o Campeonato da II Divisão e assim regressado de novo à I Divisão, na época de 1960/61 o Santa Clara seria logo campeão, títulos que repetiria de forma sucessiva nas épocas: 1963/64 e 1964/65. 



Em Portugal, a segunda metade da década de sessenta do século XX, ficou indelevelmente cinzelada pelo acidente que levaria à morte Salazar fazendo despontar a dita “Primavera Marcelista”, cujo verdadeiro estio só surgiria alguns anos depois.
Nos Açores a crise sísmica em São Jorge também deixou marcas, tantas que dois anos depois, em 1966, centenas de açorianos rumariam a Angola para no planalto da Cela onde se dedicaram à agro pecuária e aos lacticínios, actividade que por ali haveria de prosperar.
Mas foi a primeira e única vitória eleitoral da Oposição Democrática, em 1968, na Fajã de Baixo, o que a todos, menos aos directamente envolvidos, haveria de causar grande admiração.

Em Santa Clara começavam as obras do Aeroporto da Nordela e quase em simultâneo as do “Depósito Pol-Nato” e da Clínica do Bom Jesus, cujas inaugurações ocorreram todas ao longo do ano de 1969: a Clinica em Junho, o Aeroporto em Agosto e a “Pol-Nato” em Setembro.
Se o Aeroporto, nesta fase, ainda poupou a “Mata da Doca” já a implantação da “Pol-Nato" destruiu, para além da mítica “Carreira de Tiro” a maior mancha de auraucárias existente na Europa.

 

O Padre Fernando mantinha-se animado na persecução do prejecto que o absorvia em grande parte por aqueles anos, mas sem nunca deixar de continuar a aproximar as suas “ovelhas”, em especial os mais jovens. A projecção de filmes de animação e os torneios de croquete de mesa que no Salão da Igreja havia para tal, foram um precioso auxiliar nesta tarefa.
Foi mandado executar um projecto para a nova igreja que, sendo aprovado em 1966 pela Comissão de de Arte Sacra da Diocese, foi no ano seguinte barrado na Camara Municipal de Ponta Delgada, que então alegou ser a zona destinada à implantação da igreja considerada de protecção ao aeroporto em construção.

Em 1967, como que para o auxiliar em tão ciclópica empreitada, o Padre Fernando promoveu a construção de um nicho a “Nossa Senhora Auxiliadora”, pedindo às mais altas entidades eclesiásticas locais para o vir inaugurar e abençoar e, no ano seguinte, passou a ter a seu lado o seu irmão, Padre José, que também rapidamente ganhou grande simpatia na Paróquia, sobretudo junto dos mais jovens. 

Dedicando-se empenhadamente aos assuntos que então o atormentavam, em 1968 o Padre Fernando contactou a Direcção Geral da Aeronáutica Civil, tendo esta declarado não ver inconveniente na construção da nova igreja no local que lhe tinha sido destinado. Em conformidade, a Camara Municipal aprova o projecto, pedindo no entanto que fosse revista a fachada da igreja, considerando pobre a que constava dos desenhos apresentados. 
Com o projecto aprovado, os documentos respectivos foram enviados à Junta Central dos Portos para formalizar, em definitivo, o processo de cedência do terreno. Em vez da resposta, aquele organismo enviou dois arquitectos a fim de contactarem as entidades envolvidas e, se necessário, ser estudado um novo projecto e uma nova localização, mesmo que ainda nos terrenos do Parque Diniz da Mota.

Já preocupado, o Padre Fernando volta a Lisboa a fim de contratar com a Junta Central um novo projecto, que custará 100.000$, elevando para cerca de 150.000$ o total dos custos já agregados à obra que ainda não passara dos papeis. No início de 1969 chega por fim o novo projecto, logo apresentado ao Bispo que também o aprovou. Tudo parecia estar bem encaminhado…

O Santa Clara ia de “vento em popa”, voltaria a ser bicampeão nas épocas 1968/69 e 1969/70, conseguindo nesta última o seu primeiro título de Campeão Açoriano, em Angra, perante os valorosos e respeitáveis: Lusitânia e Fayal Sport.

 

 

 

Nos primeiros anos da década de setenta, quase mesmo até à antevéspera da madrugada primaveril de 25 de Abril de 1974, embora já se sentisse o sopro de uma aragem mais fresca e espairecida, muito pouco havia mudado em relação aos anos imediatamente anteriores.

 

No Verão de 1970, depois de já terem passado uma série de anos em que sem nada mandar mesmo assim ainda se julgalva ao comando da nau que moldara a seu jeito havia já mais de quarenta anos, António de Oliveira Salazar morre também fisicamente. Já sem disso o ditador ter dado conta, dois meses antes tinha sido decretado o Regime de Servidão Militar das instalações da Pol-Nato nos Açores, em Ponta Delgada, com sustento em Santa Clara. No final do ano seguinte teria lugar a célebre “Cimeira das Lajes”, com Richard Nixon, Georges Pompidou acertando-se entre si tendo Marcelo Caetano como anfitrião, que assim aproveitou a oportunidade de se apresentar ao mundo ao lado de dois homens poderosos para quem estava a ser internacionalmente contestado por manter um guerra em África que já levava dez anos. Nem dois meses ainda haviam passado sobre a mediática cimeira e já Portugal renovava com os Estados Unidos o acordo da Base das Lajes, que desde há muito lhe vinha rendendo uns largos milhões (no mínimo 20) de dólares por ano. Os Açores porém continuavam a não ser tidos nem achados para tão importantes decisões, coartados até do então importante meio de comunicação social, a televisão, que entretanto (Agosto de 1972) já chegara à Madeira.

 

Santa Clara, descartada que já tinha sido a possibilidade de ver construído na localidade o “Estádio Distrital”, via agora também, da mesma forma sob pretexto da proximidade do aeroporto, ruir definitivamente a hipótese de ser construída a nova Igreja. A 7 de Março de 1973 seria recebida a drástica notícia: a nova Igreja não seria construída!

O Padre Fernando, mais do que abalado, não pode deixar de sentir um humano sentido de revolta. Caía por terra um projecto no qual se empenhara ia para uma década. Disse quem ouviu que, por esta altura ao dar conta que estava na Igreja a assistir à missa uma das altas individualidades do então poder, o Padre Fernando não conseguiu conter-se e, adaptando a homilia ao momento, relembrando também uma batalha não ganha no aquando da passagem do Curato a Paróquia, ter dito algo como: “(…) fosse Santa Clara uma Freguesia e com certeza seria muito mais difícil aos senhores do poder andarem a fazer o que estão fazendo connosco (…). Ficou adubada uma semente que trinta anos depois, já em democracia e autonomia, haveria de florescer! 

A desilusão foi colectiva e só reforçou a já muita consideração e estima que o Padre Fernando conquistara entre os santaclarenses. O projecto havia sido mostrado aos entendidos, mas uma vistosa maqueta da nova Igreja há muito que estava à vista de todos na entrada do templo em uso, o que, para além de mostrar o que iria ser construído, já permitia como que materializar o sonho por todos aguardado concretizar.

 

Em Outubro 1973 realizaram-se eleições. A oposição democrática desistiu, mas não sem antes levar a cabo uma série de acções de pré campanha e esclarecimento, envolvendo nelas alguns santaclarenses. A 21 de Abril de 1974, o Ministro Veiga Simão, entre o mais, inauguraria o Pavilhão Gimnodesportivo (hoje Sidónio Serpa), quatro dias depois a verdadeira “lufada de ar fresco” chegaria…



continua